Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Em 2009, membros da delegação brasileira comemoram a escolha do Rio de Janeiro como cidade-sede dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016. Crédito: Reprodução Agência Brasil / Wikipedia.
Por Carolina Medeiros
8/6/16

Os Jogos Olímpicos surgiram há mais ou menos 2.500 anos, na Grécia Antiga. De lá para cá foram quase 300 edições. A partir de 1896, na Era Moderna, a competição cresceu ao ponto de se transformar no maior evento do planeta, o único capaz de reunir delegações de mais de 200 países em uma mesma cidade, feito que nem as reuniões da Organização das Nações Unidas (ONU) consegue.

Participar dos Jogos Olímpicos é o sonho de muitos os atletas e ser a sede desta competição, a aspiração de cidades em todo o planeta. Com o Brasil não é diferente. A primeira vez que uma cidade brasileira se candidatou a sede dos jogos foi em 1919, por meio da campanha “Jogos Olympicos Brasileiros de 1922”, na tentativa de que o evento marcasse o centenário da Independência do Brasil. Na ocasião, no entanto, o Rio de Janeiro, não passou da primeira fase.

                                   Logotipo da campanha do Rio de Janeiro para ser cidade sede dos Jogos Olímpicos. 

De lá para cá, a competição passou por muitos países e continentes do mundo e chegará à América do Sul pela primeira vez neste ano. A cidade do Rio de Janeiro foi escolhida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), por 66 a 32 votos, deixando a Madri em segundo lugar. Mas até chegar à vitória, o Brasil e outras nações passaram por um longo processo que envolveu diversas avaliações. Desde 1999, este processo passou a ser realizado em duas fases, uma logo após o fim do prazo de inscrições, na qual as cidades postulantes respondem a um questionário. Estas informações permitem ao COI analisar a capacidade de organização das cidades, bem como os pontos fortes e fracos de seus projetos. Após um estudo detalhado dos questionários, o comitê executivo do COI seleciona as cidades que passaram para a fase seguinte, estas passam a ser chamadas de cidades candidatas oficiais.

Em seguida, essas cidades respondem a um segundo questionário mais detalhado. Os documentos são cuidadosamente estudados pela comissão avaliadora, um grupo composto por membros do COI, representantes de federações esportivas internacionais, atletas e membros do Comitê Paraolímpico Internacional, além de especialistas em diversas áreas. Essa etapa inclui também visitas de quatro dias em cada uma das cidades candidatas, com a meta de verificar os locais de competição planejados e conhecer os detalhes dos projetos apresentados.

Por fim, a comissão avaliadora apresenta aos membros do COI os resultados obtidos em todas as etapas e estes escolhem por meio de votação a cidade sede. Ao final da sessão, na qual ocorre a votação, a cidade escolhida assina o “Contrato de cidade-sede", se responsabilizando por organizar os Jogos Olímpicos.

Jogo de interesses

A avaliação do Comitê Olímpico envolve diversos critérios, como por exemplo, apoio político e social por parte do governo, infraestrutura geral da cidade, estrutura dos locais de competição, meio ambiente, oferta de acomodações, sistema de transporte, plano de segurança e experiências anteriores que a cidade tenha com grandes eventos (veja tabela abaixo). Estes critérios estão ligados diretamente à setores de administração pública da cidade, em outras palavras, para o COI, critérios políticos e sociais tem peso muito maior do que os esportivos.

CritériosFatores avaliados
Apoio político e socialGarantias que mostrem o apoio e o compromisso de todas as esferas de governo. As leis do país e da cidade candidata também são observadas, bem como o nível de aceitação popular que a candidatura tem.
Infraestrutura geralAs infraestruturas de transportes terrestre e aéreo da cidade, bem como o projeto dos centros de imprensa. Analisa-se também o tempo e o custo de construção das novas infraestruturas e a integração delas com o plano do legado da cidade.
Locais de competiçãoEste ítem é dividido em três subcritérios: “instalações existentes” (seu uso e projetos de reforma), “instalações planejadas temporárias” (a viabilidade das novas construções, de acordo com o tempo, o custo e a qualidade") e “conceito e legado esportivo” (como os locais de competição estão distribuídos pela cidade e que tipo de legado eles proporcionarão).
Vila OlímpicaOutro ítem subdividido em três subcritérios: “localização” (distâncias até os locais de competição); “conceito” (tipo de acomodação, viabilidade do projeto, arborização, entre outros fatores) e “legado” (uso após dos jogos e financiamento).
Meio ambienteEsta avaliação envolve uma análise ambiental da cidade candidata e o impacto que os Jogos causarão a ela.
AcomodaçõesA avaliação deste critério é feita com base no Manual Técnico de Acomodações, fornecido pelo COI às cidades candidatas. O valor de referência é de 40 mil quartos de hotel com três ou mais estrelas; e estets têm que estar a um raio de 50 km do centro dos jogos e das vilas para a imprensa.
TransporteA avaliação é baseada na performance esperada do sistema de transporte proposto, sob um ponto de vista operacional e levando em conta experiências anteriores. São observadas as distâncias e o tempo de deslocamento dentro da cidade e a organização do tráfego e do transporte público durante os Jogos.
SegurançaEntre os fatores avaliados estão a incidência e o risco de terrorismo, os níveis de criminalidade, as competências técnicas e profissionais das forças responsáveis pela segurança, o investimento feito e a tecnologia empregada na área e a complexidade das ações propostas.
Experiências anterioresO COI analisa os eventos multiesportivos sediados na localidade nos dez anos anteriores, como forma de conhecer a capacidade de organização da cidade.
FinançasSão avaliados as contribuições dos governos e o plano financeiro em relação à capacidade da cidade de colocar o projeto em prática e a viabilidade dos valores disponibilizados.
Projeto geral e legadoO último critério é um resumo dos anteriores. É usado pelo COI para confirmar a sua opinião sobre a capacidade de cada cidade de realizar os Jogos.

Por conta disso, muitos especialistas em história e esporte, afirmam que uma competição como as Olimpíadas é mais que uma competição esportiva, trata-se de um jogo político e econômico. “Diante do jogo de interesses e de poder que se estabelece entre diferentes agentes envolvidos nestes eventos, a pauta da realização dos mesmos pouco se direciona ao desenvolvimento do esporte. Ela se volta principalmente para a projeção da imagem e desenvolvimento econômico do país e de alguns grupos influentes”, afirma Ana Paula Prestes de Souza, pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

No artigo “Megaeventos esportivos: competições esportivas ou políticas/econômicas?”, Souza, juntamente com outros pesquisadores, analisou a relação dos governos com megaeventos esportivos, na tentativa de entender quais são os critérios levados em conta na hora da escolha de uma cidade sede, bem como os setores beneficiados. Atrair novos investimentos, incrementar o setor turístico, fomentar a economia, reforçar a ordem pública, principalmente nas áreas próximas dos megaeventos, uma vez que a intensa exposição midiática da cidade/país durante os eventos pode afetar diretamente a imagem da nação, são alguns dos benefícios para as cidades.

Porém, existem aspectos prejudiciais, o outro lado, como aponta Souza. “O desenvolvimento econômico e social que supostamente deveria favorecer o país como um todo normalmente beneficia apenas alguns poucos agentes bem posicionados. Diante do jogo de interesses e de poder que se estabelece no contexto de megaeventos esportivos, a pauta da realização dos mesmos pouco se direciona ao desenvolvimento do esporte”, afirma.

O legado de outros países

Se a política e a economia são as bases para a organização de grandes eventos esportivos, é possível afirmar então que Jogos Olímpicos deixam um legado às cidades que os recebem. Nesse sentindo, um dos casos emblemáticos é Barcelona, na Espanha. Os Jogos Olímpicos de 1992 provocaram mudanças profundas na metrópole catalã: de cidade degradada passou a ser referência como ambiente cultural e de negócios, além de se transformar em um dos principais destinos turísticos do mundo.

Organização dos jogos de Barcelona desapropriou e demoliu diversos prédios residenciais para criar calçadões para pedestres, as ramblas.

Outra cidade que viu grandes transformações acontecerem graças às Olimpíadas foi Londres, onde diversas regiões passaram por revitalização. As obras levaram para Stratford (região na qual foi construída a Vila Olímpica) prédios modernos, apartamentos de luxo e hotéis cinco estrelas, que continuam brotando ao redor do parque, um dos empreendimentos mais caros dos Jogos de Londres. Grandes empresas de tecnologia, filiais de universidades e outras companhias também vão ocupando espaço na região. Foram criados novos bairros, linhas de metrô, estabelecimentos comerciais e serviços, obras construídas de maneira sustentável.

Porém, a competição não foi a única responsável por esses avanços, como destaca o professor de história da Unicamp, Pedro Paulo Funari. “Barcelona está no centro do turismo do Mediterrâneo e Londres é um dos maiores centros econômicos e turísticos do mundo”, afirma. Na opinião dele, um desenvolvimento urbano tão significativo não deve acontecer no Rio de Janeiro, por conta da infraestrutura precária, diversos problemas de segurança e saúde; principalmente por conta da dengue e Zika.

O que esperar da Rio-2016

Assim como a infraestrutura é o grande problema enfrentado pela cidade do Rio de Janeiro, as obras para a sua melhoria também tem sido alvo de grandes críticas por parte de especialistas. Embora o governo afirme que as obras estão dentro do planejado, um ano antes do início dos jogos, a maior parte dos espaços de competição ainda não estava pronta, o que, na visão de Funari, demonstra o despreparo do governo. “A atuação do governo do Rio de Janeiro foi apenas razoável. O esforço de renovação urbana foi notável, mas houve muito desvio de função e prioridades e pouca consulta às pessoas afetadas por desapropriações”, concluiu.

São muitos os problemas que comprovam essa falta de preparo como os altos índices de poluição das águas de locais destinados às competições aquáticas como a Baía da Guanabara, a Lagoa Rodrigo de Freitas e a praia de Copacabana. Há ainda a questão da segurança na cidade. Notícias de arrastões, assaltos e mortes correm o mundo. O controle dos níveis de violência é dificultado pela crise econômica que a cidade tem enfrentado desde 2015. A Secretaria de Segurança Pública do Estado tem cortado gastos, uma economia que vai desde o papel para registrar ocorrências até o combustível das viaturas. Sem falar na insegurança em relação ao pagamento dos policiais e o fim da gratificação por horas extras de trabalho; o que leva os policiais permanecerem menos tempo em ação nas ruas. Um conjunto de fatores que leva a imprensa estrangeira questionar se o planejamento foi adequado para uma competição desse porte.

Diante de tantas questões políticas envolvidas, especialistas defendem que, para ter um legado positivo depois dos Jogos Olímpicos, as mudanças na cidade teriam que ir além da construção de estruturas físicas. É o que apontam os especialistas da UFPR para os quais, mais do que criar estruturas e programas que possibilitem e incentivem práticas de atividades físicas e esportivas, para consolidar um legado dos jogos, são necessárias mudanças em setores como saúde, trabalho e habitação. 

Fontes:

SOUZA, Ana Paula Prestes de et al. “Megaeventos esportivos: competições esportivas ou políticas/econômicas?”. Motrivivência, Florianópolis, n. 41, p. 101-114, nov. 2013.

Na foto do topo: o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, segura uma bandeira nacional durante a comemoração da escolha do Rio de Janeiro como cidade-sede dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016. (De esquerda à direita: Orlando Silva, Luiz Inácio Lula da Silva, Carlos Arthur Nuzman, Pelé, Eduardo Paes, Henrique Meirelles e Sérgio Cabral Filho).