Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Rafael Evangelista
7/5/14

O século XIX nos deu o flâneur. Imortalizado na literatura, ele é uma figura emblemática da área urbana de Paris, dedicada a vagar prazerosamente pelo espaço urbano, explorando, sendo afetado pelo desenho da cidade e a retratando, mas também participando de sua vida cultural.

Já nosso século parece trazer outro tipo de figura. Seus olhos não estão mais somente no que as cidades revelam aos olhos nus. Embora os pés possam estar nas ruas, a atenção se divide com uma tela brilhante. Aparentemente, ela leva a outros lugares, em conversas com interlocutores e mundos que não estão fisicamente ali. Mas a tela também pode revelar mais do que os caminhos habituais sugerem, inspirar novos olhares e mostrar lugares que pareciam escondidos. Fazer ver que existe vida nos caminhos de todo dia, seja num grafite, numa praça, num monumento histórico, num prédio para o qual só se olhava o rodapé, e não a bela cúpula, ou na vizinhança, que sempre esteve lá, mas que não fazia parte da rota do olhar habitual.

Essas são as potencialidades, ainda muito pouco exploradas, dos aplicativos de realidade aumentada (ou expandida, como preferem alguns). Eles usam recursos dos celulares mais modernos, como o GPS, a câmera e a internet, para projetarem outra camada de dados no olhar tradicional. A partir da localização do usuário, por exemplo, surgem itens na tela, imagens (que podem ou não ter a ver com o mundo real) com as quais é possível interagir, explorar, obter informações.

O Ingress é o que se chama no jargão dos games um MMORPG (sigla em inglês para Massively multiplayer on-line role-playing game ou jogo on-line com desenvolvimento de papéis para muitos jogadores) e pode ser baixado de graça. A história básica do jogo é uma ficção científica que propõe que teria sido identificada circulando na Terra um tipo estranho de energia exótica, possivelmente alienígena. O planeta então teria se dividido entre dois grupos de pessoas, os que acreditam que essa energia pode ser usada para propósitos positivos e de crescimento humano, os iluminados; e os que acreditam que essa energia está protegendo a Terra de uma invasão alienígena, formando um grupo chamado resistência. Esse pano de fundo funciona como subterfúgio para separar os jogadores em dois grupos: os azuis, da resistência, e os verdes, os iluminados.

Uma das missões comuns desses dois grupos passa a ser, então, encontrar na Terra pontos de maior concentração dessa energia para que sejam construídos portais. Cabe aos jogadores de ambos os lados identificar locais em que podem ser construídos esses portais e enviar uma sugestão aos administradores do jogo – leia-se Google – para que sejam instituídos. Quando aparecem no mapa, os portais são originalmente neutros e os jogadores das equipes devem, então, conquistá-los.

Ao entrar no jogo o que se vê na tela do celular é um mapa da área onde você realmente está. Um mapa bastante limitado, com poucas quadras. Com ele, você pode ver a energia, a “matéria exótica”, como é chamada, e os eventuais portais em sua região. Ao se mover com o celular, novos portais vão aparecendo e você se sente estimulado a procurar os portais da sua região. No navegador comum do computador, você pode ver todos os portais distribuídos pelo globo (o jogo é realmente global, vide mapa abaixo), mas não pode interagir com os elementos.

Velhos caminhos, novos olhares

A distribuição desses pontos de matéria exótica pelo mapa não parece ser aleatória. Especula-se (a empresa não revela, mas minha experiência confirma isso) que o Google esteja utilizando a geolocalização de todos os celulares com Android, mesmo os que não têm o jogo instalado, para distribuir esses pontos. Por exemplo, uma igreja em bairro de periferia, onde os fiéis têm celulares mais simples, apresenta poucos pontos de energia; enquanto igrejas em bairros nobres, que contam com afluência constante de dispositivos com Android, estão repletas de matéria exótica. O mesmo vale para diversos espaços da cidade.

A partir da tela do jogo no celular, como vinha dizendo, é possível interagir com o jogo e sugerir o estabelecimento de um portal. Há, contudo, instruções específicas para que sua sugestão seja aceita, sobre o que é um portal. Igrejas, de qualquer denominação, não só aquelas em prédios de valor arquitetônico, costumam sempre ser aceitas. Monumentos históricos, bustos, placas comemorativas, obras de arte acessíveis nas ruas, prédios históricos ou de arquitetura notável também são aceitos. Boa parte dos grafites das grandes cidades já está catalogada pelos jogadores, que enviam uma foto do objeto/obra e informam sua geolocalização. Uma boa sugestão de portal, que rende pontos no jogo, contém uma foto, a geolocalização e informações adicionais sobre aquele objeto ou local.

Vivendo em outra camada da realidade

Mas o dia a dia do jogo – e esse é um jogo que se acaba jogando todos os dias – não é feito de sugestão de portais, mas da tentativa de “conquista” desses locais e da ligação (links de energia) entre eles. Um portal, seja ele controlado pelo seu grupo ou pelo grupo inimigo, gera itens a serem utilizados no jogo (bombas, energia, chaves). Então, quando você está indo do trabalho para casa ou está andando por aí, sempre procura passar pelos portais, com os quais você só consegue interagir a partir de seu celular se estiver a um raio mínimo de 50 metros.

Se você está próximo de um portal amigo e tem a chave de outro portal amigo pode fazer uma ligação entre eles. Um raio verde ou azul que sai de um ponto a outro da cidade e que só pode ser visto – é uma outra camada de realidade – a partir da tela do computador ou do celular. Quando o jogador consegue ligar três portais amigos, formando um triângulo, fica estabelecida uma zona controlada por um dos lados do jogo. O valor dessa área é determinado em Mus (Unidades Mentais), que são uma estimativa da população que vive naquele local.

Venho usando o Ingress há aproximadamente três meses e minha experiência – que também identifico em outros jogadores – é que é um jogo absolutamente competitivo e absorvente. O aplicativo avisa, com um sinal sonoro, quando um dos portais em seu domínio está sendo atacado por um oponente. Não é possível fazer muito para deter esse “ataque”, mas o jogador se vê tragado pela ameaça e imediatamente passa a conferir e a reabastecer outros portais com energia. É possível identificar o nome de usuário e o local de ação de outros jogadores, o que cria uma verdadeira disputa virtual por território, por um bairro, e faz criar arqui-inimigos históricos. “Por que esse @Fulano vive atacando meus portais? Olha, @Beltrano está jogando em plena madrugada e foi de norte a leste da cidade hoje”.

Disputa cotidiana de territórios

É individualmente que se joga, mas, como são dois grupos em disputa, os jogadores de cada cidade acabam se reunindo para conversar e trocar estratégias conjuntas, tanto pela internet como em encontros presenciais. Como a rivalidade costuma ser intensa (a dinâmica do jogo produz isso) e a exposição de dados sensíveis, de localização, é grande, acumulam-se histórias de assédio e de ameaças de violência. É possível falar com outro jogador pela tela do Ingress, mesmo que de outra equipe, e é frequente que alguém questione os movimentos do outro, suspeitando que está burlando as regras de alguma forma.

De início, imaginava jogar o Ingress para, além de entender a dinâmica de um jogo de realidade aumentada, usá-lo para explorar, de bicicleta, outros espaços da cidade. Era uma atividade física, lúdica, que pretendia exercer durante finais de semana, por exemplo. Na prática, porém, o caráter absorvente do jogo o transformou numa atividade cotidiana. O caminho de casa ao trabalho – não só meu, mas de outros relatos que colhi – agora é feito de olho na tela, identificando os portais com os quais é possível interagir. Às vezes, o caminho escolhido para casa não é o mais curto, mas o que tem portais mais interessantes. O restaurante escolhido, às vezes, não é o mais prático ou com a melhor comida, mas aquele que tem um portal no raio de interação do jogo.

De olho nesse tipo de estímulo, o Google fechou negócio com a cadeia de lojas de suco estadunidense Jamba Juice e transformou diversos estabelecimentos da rede em portais. Para quem joga, é fácil visualizar o benefício para a loja: o endereço de cada uma na região estará na cabeça dos jogadores e estes poderão gastar no estabelecimento entre um ataque virtual e outro ao portal.

Além disso, especula-se que o Google esteja, com o jogo, obtendo informações valiosas para seu tipo de negócio, como verificação e identificação de lugares e prédios históricos, informações sobre trajetos cotidianos dos usuários, atualização correta, geolocalização de endereços de interesse turístico e fotos gratuitas de obras de arte espalhadas pela cidade.

As implicações negativas, em termos de violação da privacidade dos usuários e obtenção de informação para exploração comercial, parecem claras. Porém, há algo interessante aí que pode ser melhor explorado, em especial por iniciativas que se dedicam a valorizar o espaço urbano: os deslocamentos, a interação – nos espaços tradicionais  e on-line – e mesmo a consciência sobre o espaço que nos cerca, nos controla e nos faz. Acredito que os jogadores de Ingress sejam os que melhor têm na cabeça a localização de bustos, prédios e monumentos históricos da cidade. E isso porque o enredo simples – e ainda em aberto, o que é algo também interessante – do aplicativo do Google os fez olhar assim. Aplicativos de realidade aumentada, mais ainda aqueles que estimulam seus usuários por meio de jogos e histórias lúdicas, podem servir para valorizar espaços e histórias pelas quais passamos diariamente e nem notamos.