Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Valter Pinto
6/1/16

A literatura de ficção pode expressar uma realidade? Ao responder a questão, o professor Mauro Vianna Barreto, mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), produziu um importante estudo socioantropológico que traz à tona a obra literária do escritor paraense Herculano Marcos Inglês de Sousa, o introdutor do Naturalismo na literatura brasileira. Há críticos que atribuem ao maranhense Aloísio de Azevedo, com “O Mulato”, livro publicado em 1881, a primazia da introdução da nova escola, que teve em Émile Zola e Eça de Queiróz os principais nomes da literatura universal. Esses críticos parecem desconhecer os três livros publicados por Inglês de Sousa antes da obra de Azevedo, onde já estão presentes os princípios que iriam nortear a prosa realista-naturalista no Brasil.

Inglês de Sousa publicou cinco livros, todos de temática realista-naturalista, entre 1876 e 1893. Os três primeiros – “O Cacaulista” (1976), “História de um Pescador” (1977) e “O Coronel Sangrado” (1977) – foram publicados quando os meios literatos ainda eram dominados pelo Romantismo. Em 1891, publicaria seu livro mais conhecido, “O Missionário”, levando ao extremo os princípios da escola de Émile Zola. Sua carreira literária se encerraria com “Contos Amazônicos”, publicado em 1893.

Uma das edições de “O missionário”. Reprodução Ed. Ática.

Ambientados em pequenas e desconhecidas cidades da Amazônia, os romances de Inglês de Sousa não despertaram a atenção dos leitores do Sul, onde foram publicados. “O pessoal lia ‘Iracema’, ‘A Moreninha’. De repente vem um cara falando sobre exploração de trabalho lá na Amazônia, ninguém queria ver isso, a realidade nua e crua”, explica Mauro Vianna Barreto.

Essa descrição nua e crua da realidade, como, por exemplo, o relato de uma disputa política entre conservadores e liberais em Óbidos (município brasileiro do estado do Pará), um dos momentos mais brilhantes de “O Coronel Sangrado”, é que despertou o interesse do pesquisador à obra do escritor. Desenvolvido como dissertação de mestrado em Antropologia, o estudo virou o livro “O Romance da Vida Amazônica – uma leitura socioantropológica da obra literária de Inglês de Souza”, publicado pela Letras a Margem (2003), em edição custeada pelo autor.

Cotejando as informações de Inglês de Sousa com uma extensa bibliografia de quase 120 obras, entre as quais relatos de naturalistas e estudiosos que estiveram na região enfocada pelos romances à época em que foram ambientados, Barreto pode afirmar que “os cinco livros conseguem traçar um retrato fidedigno da sociedade cacaueira da Amazônia das décadas de 60 e 70 do século XIX”.

Inglês de Sousa nasceu em Óbidos, em 1953. Viveu 15 anos na região, então dominada pelas grandes fazendas de cacau, no momento em que a navegação a vapor começava a transformar os costumes em algumas pequenas vilas e povoados. Utilizando a memória da infância e adolescência e, muito provavelmente, informações de seus pais, o escritor esquadrinha o cotidiano e retrata os hábitos e costumes populares com precisão. “Inglês de Sousa é uma fonte preciosa de informações a respeito da vida social em seu tempo, pois revela dados e minúcias que são de inestimáveis valia para uma leitura socioantropológica da literatura”, afirma o pesquisador. Para Barreto, o Realismo de Inglês de Sousa se distingue não tanto pela descrição do ambiente natural, como nos romances clássicos do Naturalismo, mas fundamentalmente pela reconstituição do modo de vida dos habitantes das margens do rio Amazonas. “A todo instante há passagens pormenorizadas do modo de vida amazônico oitocentista: os costumes, a rotina doméstica, as tarefas de subsistência, a sociabilidade, as relações de conflito e acomodação entre diferentes segmentos sociais, os preconceitos raciais, as manifestações folclóricas, as particularidades do linguajar regional, as crenças e práticas religiosas, as superstições e crendices populares, as regras de etiqueta, os padrões de civilidade, o lazer, as festas”, enumera o pesquisador, ressaltando a importância dessas informações para o estudo socioantropológico da vida na Amazônia perlustrada por Inglês de Sousa.

Vilas e povoados amazônicos na segunda metade do século XIX

Das cidades paraenses à margem do Amazonas, Óbidos, terra natal do escritor, está presente em dois livros de Inglês de Souza, “O Cacaulista” e “O Coronel Sangrado”, considerados os melhores da sua obra. Em 1848, o naturalista inglês Henry Bates passou por Óbidos e gostou do que viu. “É uma das cidades mais aprazíveis da beira do rio. As casas são todas cobertas de telha, e em sua maioria de construção sólida. Os habitantes, gente ingênua, cortês e sociável”, relatou. Observou que as classes mais elevadas da população eram compostas de famílias brancas tradicionais, revelando, porém, alguns traços de sangue índio e negro em seus descendentes. A maioria dos moradores era constituída de proprietários de fazenda de cacau. Ao comparar a descrição do infatigável Bates com o texto de Inglês de Sousa, o professor Mauro Vianna Barreto observa a convergência das versões. Em relação às habitações rurais, por exemplo, o mesmo tipo de casa – com paredes de barro, telhada, chão de terra batida e ampla varanda lateral, escassos utensílios, onde a rede assume local de destaque, servindo para uma série de coisas, entre as quais receber visitas, como observou o casal de naturalistas Elizabeth e Louis Agassiz.

O pesquisador do Departamento de Antropologia da UFPA diz que as anotações sobre Óbidos feitas pelo cientista Ferreira Pena em 1868, se tornaram muito importantes porque datam do intervalo do tempo entre “O Caucalista” e “O Coronel Sangrado”. A cidade era então composta de duas praças e nove ruas, entrecruzadas em ângulos retos, de um modo geral estreitas e sem calçamento. Os prédios públicos resumiam-se as duas igrejas, uma delas em ruína, a câmara, a cadeia e ao forte da época da fundação. Ferreira Pena conta que a cidade era bem fornida de estabelecimentos comerciais: tabernas, lojas de tecido, alfaiatarias, padarias, drogarias, açougues, oficinas de ferreiro, ourives, olaria e outras casas de pequeno negócio. Com um movimentado porto, que recebia, além de barcos e canoas a vela, os vapores da Companhia do Amazonas, a cidade era uma das poucas com iluminação pública. A Óbidos da ficção naturalista de Inglês de Sousa bate perfeitamente com o levantamento científico de Pena, na qual a cidade se destaca na região, principalmente se comparada a Faro, um decadente povoado, composto por duas ruas, três travessas e uma praça, com 78 moradores que habitavam casas em péssimas condições. Os moradores ansiavam pela chegada da navegação a vapor, que poderia alterar o quadro desolador da cidade. O ar patético apresentado por Faro ao cientista está presente, de forma soturna, no livro “Contos Amazônicos”, o último que publicou antes de se dedicar inteiramente à bem-sucedida carreira jurídica. Naquele mesmo 1868, Ferreira Pena aportou em Alenquer, cenário de “História de um Pescador”. Apesar de acanhada, a vila lhe pareceu uma das mais conservadas do Pará. Nada mais era que um alinhamento de cerca de cem casas caiadas e telhadas que se distribuíam por duas ruas paralelas, cruzadas por curtas travessas. Tinha cinco casas de comércio bem sortidas, um açougue e uma padaria, Câmara Municipal em bom estado e uma igreja inconclusa.

Mauro Barreto observa que a descrição acima se harmoniza perfeitamente com a de Inglês de Sousa em seu segundo romance: uma vila pequena, situada em uma extensa planície, à beira de um braço do Amazonas, com habitações distantes da margem por causa das enchentes, com duas ou três ruas apenas, onde existem perto de cem casas, pequenas e pobres.

O excelente livro de Mauro Vianna Barreto é um importante documento sobre a sociedade e o meio rural e urbano do Baixo Amazonas na segunda metade do século XIX. Revela ao leitor a importância de um escritor até hoje pouco conhecido, que ousou escrever prosa com rigor quase científico sobre uma região desconhecida dos brasileiros, em momento literário ainda dominado por antigas ideias românticas.

Este texto foi publicado originalmente no Beira do Rio, Jornal da Universidade Federal do Pará (UFPA). Reprodução autorizada.