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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Óleo sobre tela "Cinco horas em Paquin" (1906), do pintor francês Henry Gervex (1852-1929). Na tela mulheres ricas lotavam ateliês de costura como o de Jeanne Paquin.
Por Patrícia Mariuzzo e Adriana Menezes
3/8/16

As obras de ficção operam um movimento duplo: ao mesmo tempo em que são um reflexo do contexto histórico e social em que são criadas, são um poderoso instrumento de instrução e educação, fonte de inspiração de comportamentos e condutas. Não é diferente com a literatura, o escritor bebe na realidade para criar suas histórias e o leitor recria a sua realidade a partir dessas mesmas narrativas. Nesse sentido, a literatura torna-se também um documento histórico que pode nos ensinar, entre outras coisas, sobre os papéis de gênero de hoje e de ontem, ou seja, sobre o modo das pessoas agirem em determinadas ocasiões conforme o gênero atribuído a elas, e que é ensinado desde o nascimento.

Um exemplo nesse sentido é a obra de José de Alencar (1829-1877), um dos mais importantes escritores do romantismo brasileiro. Conforme explica a pesquisadora de literatura brasileira da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mariana Thiengo, ao vincular o destino das personagens à realização amorosa, as narrativas de Alencar dão importantes pistas sobre a identidade feminina no século XIX. “Na medida em que a literatura, especialmente a produzida com o advento da modernidade, fez da identidade um tema, as narrativas românticas podem ter reforçado os estereótipos de feminilidade, contribuindo para definir a mulher nos mesmos moldes propostos por outras práticas discursivas”, escreveu essa pesquisadora.

Em reportagem para a edição sobre romantismo da Pré-Univesp, Fabiano Rodrigo da Silva Santos, professor de literatura brasileira, da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", Unesp, explica que, ao contrário das epopeias clássicas, como a Ilíada e a Odisseia, o romance, desce à esfera comum da vida. Os heróis são pessoas comuns e os temas buscam uma certa verossimilhança com a vida cotidiana. Ora, um tema frequente das narrativas românticas é o amor. E, mais do que isso, conforme afirma Thiengo, “o amor não só é o tema central, como traz subjacente certa maneira de conceber a existência, vinculando o destino das personagens à realização amorosa”. É o que acontece com a personagem Aurélia, do romance “Senhora”, publicado originalmente em 1874 na forma de folhetim. “Ao eleger o amor como objeto supremo de sua existência, confunde-se com o próprio destino, admitindo a ideia de morrer por amor”, explica a pesquisadora da UFMG.

Entre o feminino e o feminista

Aurélia vive em uma sociedade que impõe regras rígidas a homens e mulheres. É esse universo que Alencar busca retratar, um universo que impõe o casamento burguês, monogâmico e indissolúvel, único espaço legítimo para o amor. Embora, a princípio Aurélia simule uma fuga dessa convenção, é esse modelo que ela persegue ao longo do romance.

Para explicar isso Mariana Thiengo utiliza o mito da busca inscrito na tradição patriarcal e que se expressa em um herói buscador e em heroína passiva. “Nessa condição, a mulher torna-se o outro do herói, construindo sua identidade a partir do masculino que irá encontrá-la”, afirma. Nesse sentido não cabe à mulher um papel ativo, pelo contrário, como Penélope, que esperou 20 anos pelo retorno de Ulisses. Segundo ela, em “Senhora”, esse mito se reproduz, às avessas, embora aparentemente esteja sendo encenada uma busca feminista (antipatriarcal), o que ocorre é uma busca feminina (patriarcal). A transgressão e a recusa de torna-se sujeito da busca masculina não se confirmam. “Há uma inversão de papéis, permanecendo-se, porém, dentro dos parâmetros de gênero nas narrativas do patriarcado, pois os estereótipos de masculinidade e de feminilidade, embora questionados, são mantidos”, diz.

Mudanças e permanências em Aurélia

Para identificar essa contradição no romance de Alencar, Thiengo identifica algumas fases da protagonista. Em uma primeira fase da personagem (que é apresentada por Alencar em retrospecto na segunda parte do livro, “Quitação”). Aurélia personifica a heroína clássica, ela espera o que significa se colocar como alvo da busca masculina. Esse herói será Fernando Seixas. Embora iniciem um namoro, Seixas, interessado em um casamento que lhe traga benefícios financeiros, se afasta de Aurélia, que aceita passivamente o rompimento.

A partir daí inicia-se a segunda fase de Aurélia no plano narrativo (que se apresentam nas demais partes do livro: “O preço”, “Quitação” e “Posse”) Reconhecida como herdeira de uma grande fortuna, ela assume uma postura dominadora, voluntariosa e desdenhosa. Alencar passa a mostrá-la como alguém que manipula as pessoas conforme seus interesses. No entanto, trata-se de uma mudança externa pois na essência ela continua a mesma: “o principal móvel de Aurélia será casar-se com Seixas, o homem que a rejeitou, oferecendo a ele o que anteriormente o afastara, o recurso financeiro, em forma de dote”, escreve Thiengo. Se na aparência Aurélia esboça mudanças, porque ela conduz Seixas em sua busca, na essência ela permanece desejando a realização e a felicidade que só são possíveis por meio do amor e do casamento. Trata-se de uma mulher que se coloca como refém de seu destino, refém de um papel prescrito para a sociedade e que a mantém submissa ao desejo masculino.

É o que se vê em uma terceira fase da vida da personagem, que se inicia na noite de núpcias. “Nessa fase, o homem aos poucos irá se elevar, terminando por se transformar no ideal desejado pela heroína. A busca de Aurélia parece antifeminina, devido à submissão imposta ao homem (que acontece quando ela faz questão de lembrar a Seixas que ele fora comprado). Entretanto, não há inversão de papéis, e sim dominação propiciada pelo poder econômico”, explica a pesquisadora. A subjetividade feminina de Aurélia, no entanto, se sobrepõe, e ela tenta seduzir Seixas, gerando avanços e recuos na narrativa, com embates cada vez mais irônicos e ardentes entre o casal. Conforme a análise de “Senhora” feita por Mariana Thiengo, não fossem as circunstâncias, Aurélia teria sido como as outras mulheres, sendo este o ideal da narrativa. Ela foi desviada do destino desejado, mas estes impedimentos podem ser removidos e, então, ela poderá se reconciliar com seu destino de mulher: primeiramente com o dote, depois com o perdão e, finalmente, com a transferência de toda a sua fortuna para Seixas. “O último obstáculo que existia entre o casal, a riqueza de Aurélia, é habilmente removido por ela, na medida em que transfere ao marido o poder econômico que a sociedade espera de um homem, e não de uma mulher. Aurélia se doa por completo a Seixas, abdicando de si em nome do amor. A heroína do romance assume integralmente uma identidade feminina, ou seja, conforma-se ao que de antemão já era”, aponta Thiengo.

Padrões rígidos

Essa configuração de identidade feminina também pode ser encontrada em outro personagem de Alencar, Lucíola, do romance de mesmo nome, publicado em 1862. Conforme analisou Angélica Denise da Silva, em pesquisa na Universidade Estadual da Paraíba (UFPB), Lucíola é apresentada como uma cortesã, mulher dona de seus desejos, forte e determinada, mas que, ao se apaixonar por Paulo, transfigura-se, tornando-se submissa a seu amado e ao amor que purifica sua alma. Nesse sentido, o papel feminino que foge do estereótipo ”anjo do lar” só tem espaço à margem da sociedade. “Alencar cria uma protagonista diferenciada, que tenta se afastar desse padrão, mas que acaba sofrendo as consequências de suas escolhas”, explica Silva.

Mesmo com livre trânsito na corte, Lúcia não se enquadra no que se espera de uma mulher na sociedade burguesa do século XVI. Imagem: "Um grande prémio de noite no Pavilhão d'Armenonville" (1905), do pintor francês Henry Gervex (1852-1929) | Reprodução.

Em “Lucíola” fica ainda mais claro o que a sociedade burguesa espera da mulher: para ser reconhecido como de bom caráter, comportamento e costumes ela deveria se dedicar exclusivamente à organização do lar, ao casamento e aos filhos. Não é incomum a literatura adjetivar os personagens femininos com palavras como doce, frágil, obediente, delicada e casta.

No caso de Lúcia, mesmo sendo rica, podendo circular além da esfera doméstica e decidir sobre seu próprio futuro, ela aspira ao amor e ao casamento. Conforme explica Silva, no momento em que percebe que Paulo é a sua salvação, Lúcia se mostra disposta a mudar seu comportamento. No entanto, Paulo, coerente com os valores burgueses e patriarcais, não aceita o passado de Lúcia. “Ao descobrir que está grávida de Paulo, Lúcia se desespera e adoece gravemente, por se considerar indigna de gerar um filho de seu único amor. Os erros do passado são punidos com a morte da personagem feminina, pois jamais seria permitido a Lúcia e Paulo viverem felizes em uma sociedade de padrões rígidos sobre o casamento e a virgindade”, esclarece Silva. Para ela, a morte de Lúcia simboliza a crueldade de normas que estabelecem o papel que a mulher deve manter para alcançar a felicidade.

Aceitar ou resistir

É importante afirmar, no entanto, que se a literatura teve e tem um papel importante na construção da identidade feminina, ela também pode ser um instrumento de questionamento. “A literatura é um lugar onde a ideologia é exposta”, afirma Thiengo. Assim, uma leitura mais crítica do romance “Senhora” pode ser um meio de vislumbrar o leque estreito de possibilidades das mulheres contemporâneas de Aurélia, cativas de um papel feminino que lhes reservava a submissão dentro do espaço doméstico e a felicidade apenas pelo casamento. Um contexto em que elas eram destinadas à maternidade, aos cuidados com a casa e dos filhos. Até porque o questionamento é o princípio da mudança.

Fontes:

Thiengo, Mariana. O perfil de mulher no romance “Senhora”, de José de Alencar.

Silva, Angélica Denise. A identidade da personagem feminina: uma leitura de “Lucíola”, de José de Alencar