Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Carolina Medeiros
20/7/16

Sexo, gênero, termos de gênero, identidade de gênero. São termos distintos, cada vez mais presentes na mídia, escolas e nas redes sociais. Mesmo que, a princípio, tantas definições possam confundir nossa capacidade de identificar os outros e a nós mesmos, eles ampliam as possibilidades de as pessoas serem o que quiserem ser em um mundo onde a diversidade sexual ocupa mais espaços, ao mesmo tempo em que enfrenta inúmeros tipos de preconceito. Em 2014, após reclamações de usuários que queriam mais opções de gênero em seus perfis, a rede social Facebook passou a oferecer em alguns países, como Estados Unidos, Reino Unido e Argentina, 56 opções de classificação de gênero, além da possibilidade de escolha do pronome pelo qual o usuário deseja ser chamado: “ele”, “ela” ou “neutro”. 

Em entrevista ao jornal inglês The Independent, replicada no portal UOl Vestibular, Simon Milner, diretor do Facebook no Reino Unido, afirmou que, com essas inclusões, “o Facebook está permitindo que os usuários se sintam confortáveis em expressar quem são”. Como o nosso gênero é constituído? E o que isso tem a ver com a nossa identidade?

No guia “Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos”, a psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus, do Núcleo Interdisciplinar de Ações para a Cidadania, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que nós “crescemos sendo ensinados que ‘homens são assim e mulheres são assado’, porque ‘é da sua natureza’. Entretanto, o fato é que a grande diferença que percebemos entre homens e mulheres é construída socialmente, desde o nascimento, quando meninos e meninas são ensinados a agir de acordo como são identificados, a ter um papel de gênero ‘adequado’”. “Como as influências sociais não são totalmente visíveis, fica parecendo que as diferenças entre homens e mulheres são naturais, totalmente biológicas, quando, na verdade, parte delas é influenciada pelo convívio social. Além disso, a sociedade em que vivemos dissemina a crença de que os órgãos genitais definem se uma pessoa é homem ou mulher. Porém, essa construção do sexo não é um fato biológico, é social”, afirma.

Biologia e poder

A historiadora norte-americana Joan Scott defende que o conceito de gênero foi criado para opor-se a um determinismo biológico nas relações entre os sexos, dando-lhes um caráter fundamentalmente social. “O gênero enfatizava igualmente o aspecto relacional das definições normativas da feminidade”, em outras palavras, esta definição coloca homens e mulheres em situação de igualdade, afirma ela no artigo “Gênero: uma categoria útil de análise histórica” (1995). Segundo ela, esta definição binária, usada e aceita por séculos, serviu para consolidar o machismo presente em muitas sociedades. ”A diferenciação entre os sexos pressupõe a definição do que são as características que formam a identidade do masculino e do feminino. Não apenas as mulheres aprendem a ser femininas e submissas, e são controladas nisto, mas também os homens são vigiados na manutenção de sua masculinidade”, argumenta.

Já Miriam Pillar Grossi, da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em seu artigo “Identidade de Gênero e Sexualidade”, explica a mesma sociedade que vê a questão de gênero como algo simples – homem e mulher – também associa a questão da sexualidade ao gênero. “É comum classificar indivíduos que mantêm relações sexuais e/ou afetivas com outros do mesmo sexo como homossexuais, uma categoria que remete imediatamente, no imaginário ocidental, à ideia de doença, perversão ou anormalidade”, explica. A antropóloga defende que, para muitas culturas, a atração erótica de indivíduos de um sexo pelos de outro, é algo ‘instintivo’ da espécie humana, porque a perpetuação da espécie depende disso. No entanto, tanto o gênero quanto a sexualidade são questões mais complexas, que não podem ser respondidas a partir de respostas binárias.

É somente na década de 1960, a partir de movimentos sociais de vertentes variadas, que a questão de gênero realmente ganha força. Segundo Grossi, os movimentos feministas e pelos direitos das pessoas homossexuais trazem à tona discussões sobre identidade de gênero e orientação sexual, na tentativa de desvincular a questão biológica da opção sexual.

Diferenças importantes

De acordo com Jaqueline de Jesus, identidade de gênero é o gênero com o qual uma pessoa se identifica. Ela pode ou não concordar com o gênero que lhe foi atribuído quando de seu nascimento. Diferente da sexualidade da pessoa. Identidade de gênero e orientação sexual são dimensões diferentes e que não se confundem. Pessoas transexuais podem ser heterossexuais, lésbicas, gays ou bissexuais, tanto quanto as pessoas cisgênero. Já a orientação sexual é atração afetivo-sexual por alguém, algo diferente do senso pessoal de pertencer a algum gênero.

São quatro os tipos de orientação afetivo-sexual: os bissexuais (se sentem atraídos pelos dois gêneros); os heterossexuais (pelo gênero oposto); os homossexuais (se sentem atraídos pelo mesmo gênero) e os assexuados que podem apresentar uma orientação romântica, porém não sexual, direcionada a algum dos gêneros (ou a ambos), ou não apresentarem orientação romântica, nem sexual. “A partir destas definições, é possível afirmar que a formação da identidade pessoal serve como base para a formação de uma identidade sexual, isso porque esta se fundamenta na percepção individual sobre o próprio sexo, evidenciado no papel de gênero assumido nas relações sexuais, já os papéis sexuais englobam as formas de agir, pensar, padrões de comportamento criados e regulados pela sociedade e suas instituições”, explica Grossi.

Ainda segundo a antropóloga, o gênero deve ser compreendido como uns dos constituintes da identidade dos sujeitos. Identidade essa que não é fixa ou inata, mas antes, construída e reconstruída nas relações sociais e de poder e que também está relacionada à raça, nacionalidade, etnia, idade etc. Vale destacar que o poder a que ela faz menção é exercido por diversas instituições presentes na sociedade que, conforme seus posicionamentos, atuam moldando essas identidades.

No mundo atual as pessoas se expressam de forma plural, o que exige respeito à singularidade de cada indivíduo e o entendimento de que o outro, independentemente de sua identidade de gênero é alguém que merece respeito bem como a garantia de seus direitos. Conforme afirma Jaqueline de Jesus, nas “Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos”, “toda mudança em favor da justiça e da igualdade começa quando entendemos melhor quem são as outras pessoas, e o que elas vivem, superando mitos e medos. Sem respeito à identidade de cada um(a), não garantimos a cidadania das pessoas e, silenciosamente, calamos sonhos, esperanças, aumentamos os desafios que as pessoas têm de enfrentar na vida”.