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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Reprodução.
Luís Felipe Brandão de Souza
9/11/16

Neste trabalho o objeto de estudo é uma obra de ficção, especialmente uma obra do gênero ficção científica, que une a imaginação fantástica a ideia de modernidade. “Não verás país nenhum” é uma narrativa de futuro pessimista, onde Ignácio de Loyola Brandão conta a trajetória de Souza, por meio de uma cidade sem árvores, sitiada em sua própria estrutura política. Brandão é escritor, jornalista e crítico de cinema, nascido em 31 de julho de 1936, já publicou 32 livros, dentre os mais conhecidos: Zero (1981) e Não verás país nenhum, romances pessimistas sobre o Brasil.

Publicado originalmente em 1982, Não verás é um livro ímpar, seu título faz uma referência ao poema A Pátria, de Olavo Bilac:

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança!
Não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha...
Quem com seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!
(BILAC, 1929) 

O poema de Bilac exalta as características naturais do Brasil em tom de celebração, o discurso aponta como a voz de uma personagem que mostra a uma criança que ela deve amar “com fé e orgulho” o Brasil e exalta “Criança! Não verás nenhum país como este”, acentuando, em tom solene, as riquezas naturais do Brasil. Brandão coloca o verso de exaltação de Bilac como título de uma obra que ironiza o Brasil, como país de infinitas riquezas, mas que o acentua como lugar particular. Tomando sua narrativa em um caminho inverso ao do poeta parnasiano, o escritor paulista expõe o texto como “memorial descritivo”, sugerindo que o que será contado a seguir serão memórias.

As primeiras páginas são descritivas, Brandão detalha de forma minuciosa as características desagradáveis do Brasil em que vivem Souza, o protagonista, e Adelaide, sua esposa. O cheiro é a primeira denúncia do enredo: “mefítico”, “cheiro de morte” causado pelo acúmulo de lixo e cadáveres ao redor de São Paulo, cidade na qual se passa a trama. Além do cheiro, o calor sufocante “condensa uma atmosfera pestilencial” piorada pela presença de formóis que o “Esquema”, regime estatal vigente, não consegue solucionar e tenta mascarar com ventiladores.

Souza é casado com Adelaide a trinta e dois anos e vivem em um casamento dominado pela rotina. Ela é dona de casa, muito religiosa e não gosta de mudanças. Ele trabalha em um escritório do governo no qual sua função é conferir listas de números, está nesse emprego porque foi aposentado compulsoriamente do cargo de professor universitário, acusado pelo “Esquema” de incitar os alunos a questionarem.

A cidade é dividida em zonas de circulação entre os distritos, cujo acesso é feito através de fichas, não existem mais carros de passeio pois o trânsito entrou em colapso e todos os automóveis ficaram paralisados.  A entrada de cada região em que a cidade foi dividida, ou “bocas de distrito”, são vigiadas. A maioria das pessoas se desloca de bicicleta. Souza tem passe para o ônibus, conseguido graças à corrupção na burocracia do “Esquema” e a uma artrose no joelho.

Além de Adelaide e Souza, o sobrinho dela, Dominguinhos, também tem papel importante na narrativa, ele é capitão do Novo Exército que, na prática, é quem governa o país. O sobrinho, como Souza o chama, é uma figura obscura com quem o protagonista sempre discorda, mas de quem aceita receber fichas extras de água e alimento. No seguir da narrativa ele será responsável pelo desaparecimento de Adelaide e a invasão do apartamento de Souza. A geografia do Brasil em que se passa a narrativa sofreu uma série de mudanças desde os “abertos oitenta”, época de grandes transformações políticas em que uma série de acordos e concessões fizeram com que grandes áreas deixassem de pertencer ao Brasil.

São Paulo, uma distopia

O termo utopia, cunhado por Thomas More (1478-1535) em sua obra Utopia, publicada pela primeira vez em 1516, significa “não lugar” ou um lugar que não existe. No livro Morus faz o relato de uma sociedade ideal. A partir de então, essa palavra passou a designar as projeções esperançosas, ou os objetivos de melhorias de condição de vida, um final feliz e mesmo de caminho para uma idade do ouro.

A distopia é necessariamente uma referência a uma utopia a qual ela desmistifica e questiona. Há diversos exemplos de literatura com narrativa distópica: Brave new World, de Aldous Huxley (de 1932, aborda temas como clonagem, sociedade de castas e condicionamento social), Revolução dos bichos, de George Orwell(de 1945, um grupo de animais que, explorados pelos humanos, fazem uma uma revolução que coloca os porcos no poder. O livro é uma sátira da ex-União Soviética URSS stalinista) e 1984, também de G. Orwell (de 1948, história de um operário que vive em uma sociedade opressora vigiada pelo Grande Irmão, onde o passado é constantemente manipulado), Farhenheit 451, de Ray Bradbury (de 1953, descreve um tempo no futuro onde livros serão proibidos e os bombeiros são responsáveis por incendiar as coleções particulares) e O país das últimas coisas, de Paul Auster (de 1987, habitantes de uma cidade decadente são regidos por um governo autoritário e ausente). Todas essas obras têm em comum a construção de narrativas pessimistas com o futuro, seja pelo uso descuidado da tecnologia, guerras ou uma crise ambiental.

A relação de entre o poema A Pátria, de Olavo Bilac, e o título do livro de Brandão é de antítese, ou seja, o otimismo do poema contrasta com o enredo do livro, revelando a relação irônica entre as propostas. A distopia ironiza e ridiculariza as utopias, normalmente utilizando símbolos de progresso para compor a decadência. Em Não Verás país nenhum isso acontece emdiversas passagens, por exemplo, na apresentação da “Nona maravilha”, deserto no qual se transformou a floresta amazônica após extensiva exploração. O governo descreve esse deserto como algo bom, de forma a mascarar o absurdo que é a extinção da maior floresta tropical do planeta.

Uma tarde, célebre, ele declarou na televisão: "Devemos estar orgulhosos pela conquista que acabamos de fazer. Um grande feito deste governo que pensa no futuro. Porque, disse ele, a história vai nos registrar como o Esquema que deu ao país uma das grandes maravilhas do mundo. Não é apenas a África que pode se orgulhar do seu Saara, o deserto que foi mostrado em filmes, se tornou ponto turístico, atração, palco de aventuras, celebrado, glorificado.

A partir de hoje — e ele sorriu, embevecido — contamos também com um deserto maravilhoso, centenas de vezes maior que o Saara, mais belo. Magnificente. Estamos comunicando ao mundo a nona maravilha. Breve, a imprensa mostrará as planícies amarelas, dunas, o curioso leito seco dos rios" (BRANDÃO, 1982, P.56).

No trecho acima o “Esquema”usa sua estrutura de propaganda para perverter o senso dos indivíduos e o autor transforma essa ferramenta em ironia, exagerando intencionalmente para mostrar como os instrumentos de informação e controle são ridículos.

O presente e o futuro nas distopias

As distopias são produtos da modernidade, de um tipo de relação dialética entre desenvolvimento e decadência, progresso e desconstrução. A narrativa de Não verás país nenhum é, portanto, um exemplo de distopia, na qual o pessimismo de uma época é projetado e aumentado até ficar próximo ao inverossímil. Brandão constrói uma história assustadora a partir de temores presentes no imaginário dos seus leitores. As distopias estão necessariamente ligadas ao presente em que são realizadas e consumidas. O pessimismo que ele injeta na narrativa é construído a partir de alguns elementos marcantes: a cidade, a natureza, a política e o homem, esse último personificado na imagem de Souza.

A cidade de São Paulo é o espaço onde se desenvolvem os eventos de Não verás. Uma cidade superpopulosa, mal planejada, repetitiva e agressiva, fétida e insalubre. É uma prisão física e moral, um estado de ânimo, ou melhor, de desanimo”, como nos fala Cecília Salles, professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em sua obra A planta da cidade: uma leitura genética de Não verás país nenhum (2001). A primeira impressão que temos é do cheiro, mefítico. O fedor vem dos cadáveres, logo em seguida vem o calor o mormaço rescalda a cidade, infla a gente (BRANDÃO, p. 11 e 12).

- os carros ficaram parados dois anos em frente à minha casa....
- quase fiquei louco, Souza, naquela noite. Queria matar, pegar alguém. Como buzinavam, aceleravam. Podia ver o ar preto de fumaça. A maioria esgotou a gasolina e o álcool do tanque. Ninguém desligava o motor. Pela manhã, as pessoas continuavam dentro dos carros. Como se pertencessem a ele. Cambio, volante, freio, condutor. Esperavam, não sei o quê.
- na minha rua teve gente que não acreditou no noticiário, tirou o carro da garagem, pela manhã, e foi embora. Voltou a pé.
- teve motorista que ficou uma semana, duas, sem abandonar o carro. De vez em quando batiam, pedindo para ir ao banheiro. Recusei, para todos. O que estavam pensando? Que fossem para suas casas. As famílias traziam mudas de roupas, café, comida. E o desespero quando souberam que não circulariam mais? Choravam diante do automóvel, inconsoláveis, lamentando como se fosse parente morto. Mulheres desmaiavam histéricas (BRANDÃO, 1982, p. 11).

No diálogo acima Loyola descreve o sentimento que as pessoas possuem por seus carros, uma relação construída pela propaganda que transforma os carros em objeto de desejo, mistificando sua posse como fundamental para o sucesso. A partir dessa relação, o autor constrói uma situação dramática, a do abandono, como se o carro fosse um parente morto. Sem carros, a maioria das pessoas se desloca a pé ou de bicicleta, o que não diminui a confusão em uma cidade superlotada. Souza possui artrose no joelho e por isso usa ônibus, com uma ficha de circulação obtida através de corrupção.

Na rua, as bicicletas se amontoam. O antigo barulho dos motores foi substituído pelo ruído seco das correntes girando nas rodas dentadas. Milhares de correntes. As buzinas deram lugar a campainhas, assobios, apitos agudos. Xinga-se muito, como nos melhores tempos dos automóveis.

A ausência de veículos não diminuiu a aglomeração, o congestionamento, as confusões. Os ciclistas invadem as faixas de ônibus sobem nas calçadas, atropelam, muitos se equilibram no meio fio. Quem fica no meio da multidão sofre. Empurrões, apertos, batidas, pontapés, insultos e bolinações (BRANDÂO, 1982, p. 12).

A cidade está recortada em distritos, áreas de circulação rigidamente controladas. Sem as fichas de circulação é impossível se deslocar. A única exceção é o “centro esquecido de São Paulo” onde não ocorre nenhum tipo de interdição. O “centro esquecido” é uma lembrança de antes das transformações que causaram a fragmentação da cidade em zonas de circulação, limitadas pelos “círculos oficiais permitidos”, sucedidos pelos “acampamentos paupérrimos”. A cidade de Não verás é um ambiente hostil, que restringe as pessoas, normalmente fechadas em trajetos duramente vigiados, suas margens são proibidas, onde a simples menção dos “acampamentos paupérrimos” pode levar ao “isolamento”, uma espécie de exílio fora dos limites da cidade. O “isolamento” é citado várias vezes no texto, mas não é explicado, passando a ideia de lugar de esquecimento, fora das margens da realidade, e da segurança do “Esquema”.

A paisagem é composta por um conjunto imenso de prédios parecidos uns com os outros, como nos diz Souza ao encontrar Tadeu: “Era um hall igual, porém não era o meu prédio. Também, são todos semelhantes. Uniformes. Feitos com uma só planta. Arquitetura econômica dos Abertos Oitenta”. A uniformidade dos edifícios faz com que eles funcionem como uma barreira para o sol e acabem retendo a neblina e o mormaço. As “marquises extensas” sintetizam a decadência urbana, onde não sobra chão e as pessoas ficam imprensadas umas às outras, sem nenhum espaço físico, aglomeradas a espera de um desfecho.

Aglomeração em estação do metrô de São Paulo. Foto/Reprodução

A cidade de Não verás país nenhum não é homogênea, existem os grupos privilegiados vivendo em lugares separados, territórios sempre muito vigiados, dos quais as pessoas não saem, mas que funcionam como barreira entre os que fazem parte do “Esquema” e as vítimas das transformações que levaram o país ao caos. Loyola constrói uma representação de cidade dividida, mal planejada, mal gerida em crescimento desordenado, criando assim uma sátira das cidades brasileiras, marcadas por congestionamentos, violência e divisões sociais.

Entendemos distopia como uma obra que ridiculariza e critica os discursos utópicos. Foi a partir dessa premissa que analisamos a obra Não verás país nenhum, uma narrativa sobre a degradação do espaço urbano brasileiro, com foco na cidade de São Paulo, onde a natureza está destruída e estéril, os homens cortaram todas as árvores e transformaram a floresta Amazônica em um deserto, os rios estão secos e o calor massacra os indivíduos. Na obra de Loyola, o Brasil, eternamente o país do futuro, torna-se terreno fértil para a construção de uma distopia.

REFERÊNCIAS

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BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Tradução Carlos Felipe Moisés/Ana Maria L. Ioriatti. Companhia das Letras, São Paulo, 1986. Pág. 15.

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SALLES, C. A. A planta da cidade: uma leitura genética de “Não verás país nenhum

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SALLES, Cecília Almeida. O processo de criação de “Não verás País nenhum”. REEL, Vitória.si, a. 5, n. 5, 2009.

SALLES, Cecilia A. “Criação em processo: Ignácio de Loyola Brandão e “Não verás país nenhum”. Tese de doutorado. PUC/ SP, 1990.

ORWELL, George. 1984. Tradução: Wilson Veloso. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005. 

Este artigo foi publicado originalmente na Contraponto, revista do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil da UFPI. Teresina, v. 2, n. 1, agosto de 2013. Adaptado por Patrícia Mariuzzo, com autorização do autor.

sobre o autor

Luís Felipe Brandão de Souza
Luís Felipe Brandão de Souza

Historiador, mestre em História do Brasil, é pesquisador na área de História contemporânea, literatura, mal-estar, utopia, distopia na Universidade Federal do Piauí (UFPI).