Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Bruna Garabito
Por Marta Avancini
6/11/14

Em três anos, a guerra civil na Síria deixou um saldo de cerca de 190 mil mortes e 2,5 milhões de refugiados, que se dirigiram a países como o Líbano, Egito e Tunísia. A jornalista, doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP) e estudiosa do Oriente Médio, Marcia Camargos, acompanha de perto a situação dos refugiados sírios e, recentemente, concluiu um livro infanto-juvenil sobre o tema, Diálogos de Samira , que deverá ser lançado no início de 2015. Na entrevista concedida à Pré-UNIVESP, Marcia analisa a situação da Síria e fala das particularidades de uma guerra civil. Leia a seguir:

 

Pré-Univesp: O que é uma guerra civil?

Márcia Camargos: Em linhas gerais, a diferença entre uma guerra tradicional e uma guerra civil é que as primeiras acontecem entre países diferentes. Uma guerra civil ocorre dentro de um mesmo Estado, de uma mesma nação, em virtude de antagonismos entre grupos internos. Quando essas diferenças internas não são resolvidas pelos meios democráticos ou pelos meios legais – pelas vias institucionais –, pode se desencadear um conflito armado.

Pré-Univesp: Qual é a particularidade de uma guerra civil em relação às guerras que são travadas entre países diferentes?

Márcia: Numa guerra civil, cada grupo tem um objetivo e luta para assumir o controle de uma região e, a partir daí, ditar suas próprias regras. O objetivo é mudar o governo com o qual estavam descontentes, a fim de criar uma nova realidade política. Muitas vezes, as guerras civis acontecem sob regimes autoritários, justamente porque nesses regimes os mecanismos de representatividade e de discussão política são frágeis ou inexistem.

Pré-Univesp: O caso da Síria, que vive uma guerra civil desde 2011, pode ser explicado dessa maneira – uma luta contra um poder ditatorial?

Márcia: Sim, a Síria está, desde 1971, sob o poder da família de Bashar [al Assad], o atual presidente do país. Bashar herdou o poder de seu pai, Hafez al Assad, quando este morreu. A transição de poder aconteceu da mesma maneira como numa dinastia, na qual o príncipe herda o poder do pai, o rei. Bashar é presidente desde 2000 e governa a Síria com mão de ferro. Na Síria, acontecem eleições, mas existem fortes indícios de que elas sejam fraudadas. O país é controlado por um único partido, chamado Baath, do qual Bashar é secretário-executivo. Esse clima ditatorial cria um cenário de tensão, como uma “panela de pressão”: as insatisfações populares, políticas, religiosas são reprimidas pela força, pelo terror, por ameaças, cerceamento à liberdade de expressão e da mídia.  A população não possui canais para se expressar, nem meios para representá-la. Por isso, as guerras civis geralmente ocorrem nesse tipo de país, onde as pessoas não têm meios para se expressar. A situação chega a um limite e explode, dando margem à selvageria, à barbárie, como acontece na Síria.

Pré-Univesp: O que desencadeou a guerra na Síria?

Márcia: Havia uma insatisfação latente, um cenário em que não se ousava levantar a voz contra o poder de Bashar, até que um grupo de crianças e adolescentes de Deera, no sul do país, em 2011, resolveu fazer um pequeno protesto, incentivadas por um professor. Elas foram massacradas. Foi a gota d’água para estourar a guerra civil na Síria. A reação das forças de segurança gerou mais indignação e protestos, e as pessoas começaram a sair às ruas pedindo a renúncia de Bashar. O governo usou a força militar contra os opositores, mas isso acabou intensificando os protestos e a reação contra eles, gerando uma situação que resultou numa emergência humanitária, com mais de 190 mil mortos.

Pré-Univesp: Por que a guerra na Síria chegou a esta situação de emergência humanitária?

Márcia: Os grupos envolvidos estão fortemente armados e, ao longo do conflito, conforme vão tomando as regiões, vão acumulando mais armamentos. Além disso, existe o apoio de países que dão suporte a determinados grupos em função dos seus interesses. Por exemplo, a Rússia apoia o governo do Bashar e fornece armamentos para seus os apoiadores. O Hezbollah [grupo político e paramilitar islâmico do Líbano] também apoia Bashar. O Irã apoia o governo de Bashar porque não é do seu interesse que os grupos que disputam o poder com ele assumam o poder.  Existe ainda o Exército Livre da Síria, que luta por um governo laico, democrático, com igualdade de direitos entre homens e mulheres. E há o grupo extremista Estado Islâmico, que mata os rebeldes que são contra o Bashar. O Estado Islâmico também é contra o Bashar, mas eles matam os rebeldes porque desejam um Estado islâmico extremista, conforme a sharia [lei islâmica]. Todas essas forças estão em conflito, gerando um contexto cada vez mais distante de uma solução, já que existem interesses internacionais muito fortes em jogo.

Pré-Univesp: Ainda é possível afirmar que se trata de uma guerra civil quando existem esses interesses internacionais em jogo?

Márcia: Embora seja uma disputa interna, os grupos são fortemente financiados por potências estrangeiras. Nesse sentido, embora uma guerra civil seja um conflito interno, entre grupos de um mesmo país, ela também pode ser um conflito entre países, porque há os interesses das potências em jogo que patrocinam grupos diferentes.

Pré-Univesp: Este jogo de interesses colabora para tornar a guerra mais violenta?

Márcia: É muito complicado falar em civis numa guerra civil, porque todos são revolucionários, todos estão envolvidos. Então, mesmo que não estejam pegando em armas, as pessoas participam de uma comunidade e acabam apoiando um ou outro grupo de alguma forma. Por exemplo, abrigando pessoas que estão sendo perseguidas. A guerra civil está na rua onde as pessoas moram; dentro de casa, às vezes. É difícil estabelecer limites.

Pré-Univesp: Esse cenário dá margem a mais violações de direitos humanos do que numa guerra convencional?

Márcia: Sim. No caso das guerras convencionais, existe a Convenção de Genebra que estabelece regras muito claras quando aos Direitos Humanos. Por mais absurdo que seja uma guerra, existem regras mínimas que os países signatários buscam seguir. Há tribunais especiais para receber denúncias de abusos, por exemplo. Em uma guerra civil, acaba sendo uma grande confusão, pois não há regulamentação dos comportamentos. Existe a lei do país, mas não para as situações de conflito. Por isso, a guerra civil tende a se tornar mais violenta, mais incontrolável. Há também o ódio, rancores disputas históricas entre grupos, que são alimentadas durante anos e afloram com força nessas situações de conflito.

Pré-Univesp: Foi esse conflito interno que gerou a crise humanitária na Síria? Como está a situação no país?

Márcia: Sim, esse conflito gerou uma das maiores crises humanitárias do mundo contemporâneo. Muitas cidades estão totalmente destruídas. Damasco [capital da Síria] teve um pouco da infraestrutura preservada, mas outras cidades estão arrasadas. São muitos os refugiados. O Líbano tem sido o principal destino dos refugiados sírios em massa, porque é o país mais próximo. Mas é um país pequeno e não tem infraesturtura para suportar esse fluxo de pessoas. Muitos refugiados vão para o Egito, a Jordânia, além da Turquia. As últimas notícias são que a revolução foi derrotada, que Bashar não vai abrir mão do poder, porque as forças revolucionárias estão sendo derrotadas. Os prejuízos são muito grandes. Não há como medi-los.  A indústria do turismo, uma das principais fontes de renda da Síria, acabou. Mesmo que a guerra termine amanhã, não há como recuperar monumentos, edifícios históricos e ruínas antigas que foram totalmente destruídos. Existem milhares de crianças fora da escola, presenciando violência. Praças foram transformadas em cemitérios clandestinos. A infância foi violentada e a atual geração está perdida. Levará uma, duas gerações para as pessoas voltarem a ter uma vida normal, cicatrizar feridas e reconstruir tudo.

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