Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Por Mariana Castro Alves
3/12/14

É impossível falar em cinema sem supor movimento, nem em fotografia sem levar em consideração o instante captado no contínuo desenrolar do tempo. A ideia de progresso que regeu o século XIX está intimamente ligada à apreensão das imagens. O mundo mudava radicalmente com avanços proporcionados pela Revolução Industrial, ocorrida no fim do século anterior. O homem só conseguiu fixar, reproduzir e multiplicar recortes da realidade com o desenvolvimento técnico e científico dessa época.

Essa noção de avanço e movimento tem tudo a ver com a fotografia, o cinema e com a forma como vemos o mundo hoje. É o que afirma Iara Schiavinatto, historiadora e docente do curso de Midialogia, no Departamento de Multimeios do Instituto de Artes da Unicamp. “Havia a noção de progresso, de que o ontem era pior que o hoje e o amanhã seria melhor. Esse tempo laico, com vetor crescente positivo, capitaneado pela burguesia, abrangeu todas as formas culturais”, explica a professora.

Olha o trem – Não é à toa que o primeiro filme, dos irmãos Lumière, A chegada de um trem na estação (1895), mostra um trem se movendo em direção ao espectador. “Se você olhar aquele primeiro trabalho, os relatos são de assombro, de que o trem poderia chegar até a plateia”, conta a historiadora.

 

“As pessoas são seduzidas pelo movimento. Nos primórdios do cinema, os grandes temas são trabalhadores saindo da fábrica e massas de gente andando pela cidade. Na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos, filmes curtos mostravam o movimento do trem, o movimento do carro, do cavalo, a roda rodando, o cachorro correndo atrás do próprio rabo e a mãe dando comida na boca do neném repetidamente”, ilustra.

Na fotografia, a busca pelo movimento também foi alvo de experiências como a do fotógrafo inglês Eadweard Muybridge e do médico francês Étiènne-Jules Marey, que capturaram corpos no espaço em séries de instantâneos que, mostrados um depois do outro, formavam um protótipo do que seria o cinema.

Velocidade - De acordo com Schiavinatto, a ideia de movimento é forte no século XIX – e assim na fotografia e no cinema – porque havia a sensação de que o globo terrestre teria ficado menor, por conta do transporte e da comunicação. “Todos os territórios são conquistados pela civilização. É uma percepção muito mais acentuada de saber o que se passa ao longe do que antes”, afirma a historiadora. Nesse sentido, ao longo do século XIX, “a fotografia vai permitir que você torne fotografável diferentes partes da Terra, de maneira que a apreensão de lugares, como Torre Eiffel, por exemplo, seja feita primeiramente por meio de uma imagem, de um constructo cultural. A fotografia possibilita conhecer lugares e gentes muito distantes, sem estar lá”, explica.

Para Boris Kossoy, estudioso que comprovou a descoberta da fotografia no Brasil por Hercule Florence (1804-1879), antes do francês Louis Daguerre (1789-1851), o desenvolvimento da fotografia tem conexões diretas com as transformações econômicas e sociais da época: “A expressão cultural dos povos, exteriorizada através de seus costumes, habitação, monumentos, mitos e religiões, fatos sociais e políticos, passou a ser gradativamente documentada pela câmera. O homem passou a ter um conhecimento mais preciso e amplo de outras realidades que lhe eram, até aquele momento, transmitidas unicamente pela tradição escrita, verbal e pictórica”, escreve Kossoy, em Fotografia & História (2001).

Mudança de percepção – Essas transformações alteraram a forma como o mundo é percebido. “O olhar passa a reger a percepção. Você observa, mas faz isso através de um aparato tecnológico”, afirma Schiavinatto, para quem a imagem responde a uma demanda da industrialização. Segundo a pesquisadora, a invenção da fotografia se deparou com duas questões: como fixar em um suporte e como multiplicar a imagem. “São duas perguntas que presidem a necessidade de criação da reprodutibilidade técnica. Alguns inventores, das ciências e das artes, vão se perguntar sobre isso, o que faz a imagem ganhar uma dimensão industrial”, detalha.

Nesse processo, a ciência da visão passa a questionar cada vez mais a natureza fisiológica do olhar humano, desviando-se do estudo mecânico da propagação da luz e da transmissão ótica, que tinham vigido os estudos dos séculos XVII e XVIII. “Assim, a Ótica Física fundiu-se com a Física no comecinho do século XIX. E a Ótica Fisiológica, que trata do estudo do olho e das suas faculdades sensoriais, passou a ser o centro das pesquisas sobre a visão”, expõe Iara.

Montanha de informação - Conforme a pesquisadora, essa percepção das imagens se mantém até hoje. “A gente ainda tem um apego à noção de movimento. Daí a ideia de que, se algo for veloz, moderno, se tiver mudança, é algo positivo”. Porém, com a digitalização, o modo de produção e relacionamento com as imagens teria mudado. “No computador, tablet e celular, há um software funcionando, o qual exige uma capacidade de observação que te joga para um volume de informação enorme e simultâneo, como se você fosse inundado de imagens”, sugere. “Penso que existe uma mudança na cultura visual ótica desse indivíduo contemporâneo, na forma como ela reorganiza seu cotidiano, nas formas do narrar e do compartilhar. É sobre isso que nos interrogamos hoje”, conclui.

 

Obra consultada:

KOSSOY, Boris. Fotografia & História. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.