Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Lucélida de Fátima Maia da Costa
9/12/15

Saberes etnomatemáticos na confecção de cestos indígenas?

É possível falar, olhar e compreender a confecção de cestos indígenas amazônicos a partir de vários ângulos. Aqui, sugere-se um olhar a partir dos princípios da Etnomatemática entendida segundo as ideias d’ambrosianas[i], as quais não se restringem ao uso da matemática como um descritor ou um tradutor da construção do conhecimento de distintos grupos socioculturais como, por exemplo, os indígenas, mas preocupa-se com a compreensão deste e da rede de significados construídos e validados dentro de uma determinada cultura.

O contexto social e suas normas culturais são fatores de forte influência no comportamento dos indivíduos. O viver em sociedade, muitas vezes, exige que o indivíduo elabore estratégias e combine procedimentos para resolver os mais diversos problemas que surgem nessa convivência. A elaboração de estratégias é um processo que implica a combinação de conhecimentos adquiridos com a capacidade de análise de uma situação problema; nesse processo estão implícitas crenças, valores e formas de pensar e posicionar-se frente às situações de acordo ao contexto sociocultural dos sujeitos.

Nessa perspectiva, a matemática é compreendida como uma construção humana que se origina e se desenvolve na tentativa de construir soluções para problemas da vida real como os que se apresentam na construção de uma casa, no plantio e na colheita de uma roça, na construção de artefatos de pesca, na confecção de cestaria, na elaboração de calendários, nos jogos e nas relações de comércio. Em todas essas atividades estão presentes formas de colocar as coisas em relação, valores, significados, modos de pensar matematicamente aprendidos no convívio em sociedade, saberes etnomatemáticos.

Num contexto indígena, as respostas e estratégias que surtem efeito são validadas no grupo/comunidade e passam a ser transmitidas de geração em geração como exemplo do que se pode fazer, frente a determinadas situações, como no caso da necessidade de substituição de uma matéria prima escassa para a confecção de cestos ou na escolha da madeira para a construção de uma canoa. Assim, a vida em sociedade mobiliza um conjunto de conhecimentos, inclusive matemáticos, práticos e teóricos, produzidos ou assimilados em um contexto sociocultural, que supõem modos de quantificar, classificar, ordenar, calcular, medir, organizar o espaço e o tempo, estimar e inferir, ações que podem ser consideradas conhecimentos etnomatemáticos quando trazem implícitas características culturais que servem para identificar determinado grupo social.

Desse modo, o processo de confecção de cestos indígenas, pelas mulheres da etnia Ticuna, no extremo Oeste do estado do Amazonas, está permeado de saberes etnomatemáticos manifestados no modo de obter e selecionar a matéria prima, de preparar os pigmentos, de desenvolver a trama, de definir os motivos decorativos, na utilização de certas unidades e ferramentas de medidas, no estabelecimento das dimensões e no preço dos cestos. Saberes que estabelecem uma relação entre gerações, entre pessoas, entre culturas.

Cesto ticuna. Crédito da foto: Lucélida Costa

Os cestos ticunas

Os povos indígenas amazônicos vêm ao longo dos tempos desenvolvendo, adaptando, modificando seus conhecimentos face às mudanças de vida ocasionadas pela aproximação crescente dos centros urbanos rumo às aldeias que, não raro, contribui para a escassez de matéria prima (plantas, animais) necessária à sobrevivência dos indígenas.

O povo Ticuna, população indígena mais numerosa da região Norte do Brasil, é um exemplo da capacidade de adaptação e substituição de materiais tradicionalmente retirados da natureza, por outros encontrados em comércios das cidades localizadas próximas as aldeias. A maior parte das aldeias Ticuna está localizada na região do Alto Solimões, nas proximidades da fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. Nessa etnia a produção de cestaria é tradicionalmente uma atividade feminina. As mulheres ticunas aprenderam, ao longo do tempo, a substituir materiais utilizados na confecção de cestos, principalmente os pigmentos elaborados a partir de folhas e/ou raízes de plantas, por tintas e pigmentos industrializados. No entanto, o processo de confecção e os significados implícitos nas formas e adornos de tais objetos preservam os ensinamentos culturais desse povo que vão além de processos de contagem, medição, localização, demonstram um modo de ensinar e aprender que se transmite de geração em geração.

Na aldeia Ticuna Umariaçu, localizada no extremo Oeste do estado do Amazonas, no município de Tabatinga, é grande a confecção de cestaria para uso doméstico e para a venda, especialmente os cestos e as esteiras. Estes objetos apresentam uma grande variedade de formas, tamanhos e cores. Os mais comuns são os cestos de fundo circular e as esteiras de forma elíptica, ambos feitos com a fibra da palmeira tucumã, (Arecaceae) Astrocaryum vulgare Mart, encontrada na Amazônia Oriental desde a época da colonização portuguesa. Existem também os cestos confeccionados com as fibras do Arumã, Ischnosiphon spp., da família das marantáceas; uma espécie de haste de caule liso e reto. Este vegetal oferece superfícies planas e flexíveis que suportam o corte de tiras milimétricas; na confecção dos cestos, o caule dessa planta é descascado e raspado, podendo ser tingido ou mantido em sua cor natural; também pode ser usado com casca, que lhe confere maior resistência e uma cor parda claro brilhante.

As atividades desenvolvidas pelas mulheres ticunas, no processo de confecção dos cestos, demonstram a construção de conhecimentos, inclusive matemático, validados no convívio sociocultural Ticuna, os quais não são apenas o reflexo de saberes tradicionais, dados brutos que se opõem aos saberes científicos, são saberes originados numa matriz cultural, mas que constantemente são avaliados, negados, validados, complementados, transformados[ii]

Mulher ticuna trança palha para confecção de cesto. Crédito: Lucélia Costa

Na confecção dos cestos há a realização de práticas tradicionais consideradas trabalho de mulher, nelas está implícita a mobilização de processos cognitivos como a percepção, a linguagem e a memória que direcionam as ações de escolher a matéria prima adequada, de determinar o tamanho da tala a ser usada de acordo ao tamanho do fundo do cesto que se quer confeccionar, de estabelecer preço de acordo ao trabalho realizado e ao que se pretende comprar com o dinheiro obtido da venda, é um processo que requer e expressa o estabelecimento de relações, um pensamento “matemático” que ultrapassa a manipulação de quantidades e a realização de contagem, exige o estabelecimento de relações complexas; é um processo que tem um caráter fortemente artístico e matemático; é a expressão viva de saberes etnomatemáticos.

Referências

ALMEIDA, M. da C. de. Complexidade, saberes científicos e saberes da tradição. São Paulo: Livraria da Física, 2010.

COSTA, L. F. M. Los tejidos y las tramas matemáticas. El tejido ticuna como soporte para la enseñanza de las matemáticas. Dissertação de Mestrado. Universidade Nacional da Colômbia – Sede Amazônia, 2009.

COSTA, L. F. M. A etnomatemática na educação do campo, em contextos indígena e ribeirinho, seus processos cognitivos e implicações à formação de professores. Dissertação de Mestrado. Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Manaus, 2012.

D’AMBROSIO, U. Volta ao mundo em matemáticas. Scientific American Brasil. n. 11, p. 6-9. Ediouro, 2005a.

D’AMBROSIO, U.  Etnomatemática: Elo entre as tradições e a modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2005b.

D’AMBROSIO, U. Sociedade, cultura, matemática e seu ensino. Revista Educação e Pesquisa.  São Paulo, v. 31, n. 1, p. 99-120, jan./abr. 2005c.

D’AMBRÓSIO, U. Etnomatemática: Arte ou técnica de explicar ou conhecer. São Paulo: Ática, 1998.

 




[i] Ideias d’ambrosianas são ideias difundidas por Ubiratan D’Ambrosio (2005a, b, c). Considerado como o precursor da Etnomatemática no Brasil, D’Ambrosio (2005b, p.35), afirma que numa mesma cultura, os indivíduos dão as mesmas explicações e utilizam os mesmos instrumentos materiais e intelectuais no seu dia a dia. O conjunto desses instrumentos se manifesta nas maneiras, nos modos, nas habilidades, nas artes, nas técnicas, nas ticas de lidar com o ambiente, de entender e explicar fatos e fenômenos, de ensinar e compartilhar tudo isso, que é o matema próprio ao grupo, à comunidade, ao etno. Isto é, na etnomatemática.

[ii] A ideia da não oposição de saberes da tradição e científicos é desenvolvida por Maria da Conceição de Almeida em seu livro Complexidade, saberes científicos e saberes da tradição (2010). Para essa autora, diferentemente do senso comum, os saberes da tradição arquitetam compreensões com base em métodos sistemáticos, experiências controladas e sistematizações organizadas de forma contínua. Mesmo que não tenham como princípio primeiro uma crítica coletiva permanente, tais saberes se objetivam numa matriz de conhecimento que pode ser atualizada, refutada, acrescida, negada, reformada. (ALMEIDA, 2010, p. 67).