Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Daniela Klébis
20/3/15

Migrar, viajar de um habitat a outro em busca de recursos. Jornadas que têm um custo energético muito alto, além de riscos difíceis de calcular.  Essas viagens exigem preparos, armazenamento de energia e até alterações fisiológicas. Também requerem estratégias de orientação e habilidades de adaptação. De minúsculos insetos a peixes, aves e gigantescos mamíferos, as espécies migratórias estão presentes em todo o reino animal. Algumas delas, como a andorinha-do-mar-ártica, chegam a viajar 80 mil quilômetros em seus movimentos anuais de migração. “Os animais migram porque os benefícios superam os custos. Porém, embora as vantagens da migração acabem por compensar os gastos, migrar demanda muito em termos de energia empregada e também é arriscado”, comenta Melissa Bowlin, bióloga especialista em comportamento migratório de aves, da Universidade de Lund, Suécia.

Bowlin explica que os animais migram para buscar recursos que estão disponíveis por apenas uma parte do ano em determinada região. “Por exemplo, há uma enorme explosão de insetos na zona temperada do Norte do planeta durante o verão, mas durante o inverno eles morrem. As aves migratórias, então, tiram proveito dessa enorme disponibilidade de alimento”. Em artigo publicado em 2010, a bióloga, juntamente com um grupo interdisciplinar de pesquisadores, define migração como “consequência de interações complexas entre fatores intrínsecos (genética, fisiologia e comportamento) e extrínsecos (de tempo, as condições de habitat, disponibilidade de alimento, predação, topografia)”.

Ou seja, esses animais devem ter desenvolvido, ao longo de sua evolução, capacidades morfológicas, fisiológicas, biomecânicas, comportamentais, bem como experiências de vida, que os tornem aptos a encontrar os novos habitats. Além disso, tanto para o trajeto quanto para o destino a que chegam, eles devem também ter habilidade de interagir com os fatores bióticos e abióticos presentes no ambiente. Migração animal torna-se, assim, um fenômeno muito interessante para compreender as negociações entre estabilidade e mudanças, sugere o estudo.

Preparar para partir

Todos os animais, inclusive os seres humanos, possuem ciclos anuais, como um relógio biológico, regulado a partir de sinais ambientais: dias mais longos ou mais curtos, chegada de chuvas, mudanças na temperatura etc. Assim que detectam esses sinais, o organismo dos animais que migram entendem que é o momento de se preparar para partir.

As espécies migrantes desenvolvem características morfológicas, fisiológicas e comportamentais que os beneficiam durante a migração. Isso inclui, em alguns casos, a redução ou supressão de órgãos para poupar energia. Aves que voam por muitos dias, por exemplo, podem reduzir drasticamente seu sistema digestivo (estômago, intestino, fígado e rins) antes de partir, já que ele não é utilizado durante o vôo. Uma vez que aterram, elas são capazes de reconstituir os órgãos e, assim, obter a máxima nutrição dos alimentos disponíveis. Já os órgãos utilizados para maximizar a eficiência do voo, tais como o coração e os músculos de propulsão, aumentam de tamanho. No caso das borboletas-monarca, um dos insetos migratórios mais conhecidos, os órgãos sexuais são suprimidos quando elas migram para o sul da América do Norte, no outono, e voltam a se desenvolver somente quando chega a primavera.

O armazenamento de energia é fundamental. A maioria dos animais migrantes ingere gordura em quantidades excessivas para garantir vigor suficiente para todo o trajeto. Essa ingestão exagerada de alimento, também chamada hiperfagia, é um processo desencadeado pelo próprio relógio biológico. A gordura é a fonte de combustível predileta, por ser capaz de gerar de oito a 10 vezes mais energia que a mesma quantidade de carboidratos e proteínas. Os pássaros, por exemplo, chegam a acumular o equivalente a seu peso antes da partida, ou seja, partem com duas vezes seu tamanho normal. Já a baleia-franca-austral passa quatro meses de sua estadia no Oceano Antártico alimentando-se de zooplanctons que se encontram na superfície das águas e acumulam, assim, gordura suficiente para um ano de viagem, até seu retorno à região.

Destino Incerto

Migrar representa sempre se colocar em risco porque não é sempre que o almejado ambiente abundante estará disponível. Bowlin ressalta que o destino dos animais migratórios é sempre incerto. “Por exemplo, os migrantes muitas vezes param em áreas desconhecidas, sem saber onde os predadores locais estão. Isto significa que a predação e outros riscos são mais elevados durante a migração”, aponta.

A atividade humana afetando os ambientes, fragmentação ou destruição de habitats dos migrantes, exploração de populações migratórias, esgotamento de recursos e alterações no clima são alguns dos fatores que vem contribuindo para a diminuição das migrações animais. “O declínio nos animais migratórios é muito grave. Os custos começam a superar os benefícios e apenas os animais que não migram sobrevivem e se reproduzem. Vemos muito isso quando as aves são alimentadas durante o inverno ou (no caso de gansos canadenses, por exemplo) quando os seres humanos alteram a paisagem para proporcionar muita comida para eles (neste caso, colocando grama em todos os lugares)”, comenta a bióloga.

O declínio das migrações afeta diretamente o meio ambiente, que depende desses animais para o transporte e controle de toneladas de biomassa. Um exemplo são os salmões que, quando viajam dos habitats marinhos para os habitats pluviais, levam toneladas de biomassa das quais dependem muitos animais, como as águias, os ursos e os lobos. Outros exemplos são os morcegos e aves, que comem toneladas de insetos por ano, controlando importantes pragas agrícolas. “Embora muitas das espécies migratórias não estejam necessariamente correndo risco imediato de extinção, o declínio dessas populações ou de suas atividades pode conduzir a alterações na estrutura e funcionamento de ecossistemas inteiros”, ressalta o estudo do qual Bowlin fez parte.

De migrantes a invasores

Quando os animais migrantes começam causar danos aos ecossistemas, habitats ou ainda a outras espécies, eles passam a ser considerados como espécies invasoras. A migração dessas espécies, que pode ser voluntária ou involuntária (quando transportados por seres humanos, por exemplo), coloca importantes discussões sobre o conceito de limites territoriais, institucionais e conceituais do Estado. “Se as ações humanas têm impacto sobre a mobilidade de seres vivos não-humanos, a incidência é recíproca: animais e humanos constituem e afetam os ambientes uns dos outros, o que inclui as condições e possibilidades de sua mobilidade, bem como as consequências que ela pode produzir”, comenta a antropóloga Ciméa Bevilaqua, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Por suas próprias características, animais migratórios não podem ser considerados como pertencentes a um país específico. Seus deslocamentos desconhecem as fronteiras e as normas impostas pelo sistema geopolítico humano. “O conceito espécies ‘invasoras’ supõe uma noção de fronteiras e pertencimento e, por isso mesmo, a regulamentação e o controle dos deslocamentos através de fronteiras. Até certo ponto esse controle é possível e, em muitos casos desejável, considerando os potenciais danos socioambientais e econômicos decorrentes de alguns desses deslocamentos”, aponta a antropóloga.

Em um estudo, publicado em 2013, Bevilaqua aponta que existem, atualmente, cerca de quarenta acordos internacionais, além de outros documentos, como códigos de conduta e protocolos técnicos, relacionados às espécies exóticas invasoras. Um dos primeiros acordos internacionais de proteção aos animais migrantes foi a Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS, na sigla em inglês), conhecida também como Convenção de Bonn. O tratado, em vigor desde 1983, conta atualmente com 118 países membros e visa estabelecer medidas de conservação tanto a esses animais quanto aos habitats frequentados.

Além da migração natural, as espécies podem tornar-se invasoras involuntariamente. É o caso, por exemplo, de cobras, ratos, formigas, caracóis e outros animais frequentemente transportados em meio às cargas comerciais de exportação e importação. “Não são apenas espécies, mas também Estados, que cruzam as fronteiras uns dos outros”, aponta. E uma das principais lacunas nos acordos regulatórios vigentes, de acordo com Bevilaqua, é justamente a inexistência de normas relativas a esses animais, pois, apesar de considerados potencialmente invasores, eles não são classificados como pragas. “O aspecto mais importante não é a insuficiência ou a fragmentação das normas existentes, mas a ambiguidade inerente a essas iniciativas regulatórias, uma vez que a introdução não intencional de espécies invasoras ocorre exatamente pelas mesmas vias que sustentam a circulação intencional, autorizada e desejável de pessoas, animais e bens através das fronteiras físicas dos Estados”, comenta.

Entretanto, segundo a pesquisadora, não existe ainda nenhuma lei ou norma internacional que responsabilize um Estado pelos danos causados a outro em decorrência da invasão de espécies exóticas. “Enquanto a teoria política e o direito internacional sustentam que o território de um Estado não pode ser simultaneamente o de outro, a circulação incessante dos seres vivos ditos invasores enuncia a possibilidade de existência simultânea de diferentes territórios no mesmo espaço, constituídos por uma multiplicidade de movimentos que se entrecruzam e se sobrepõem, sem nunca coincidirem inteiramente”, finaliza.