Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Por Patrícia Mariuzzo
27/1/16

Thiago de Mello nasceu em 1926, em Barreirinha, pequena cidade as margens de um dos braços do Rio Amazonas. Cresceu, portanto, sob o abraço do rio e da floresta, que só deixou para ir estudar no Rio de Janeiro, na década de 1950. É lá que, longe de rio, mas perto do mar, que decide assumir-se poeta, após abandonar o curso de medicina. Em 1951 publica seu primeiro livro, Silêncio da palavra. Segundo o professor de literatura e poeta amazonense, Tenório Telles, Thiago de Mello faz parte daquela linhagem de homens que dedicam o melhor de si à vida, colocando seu trabalho, sua poesia a serviço da liberdade e da crença na redenção dos homens. Defensor da Amazônia, da floresta e de seus povos, Thiago escreveu vários livros para, segundo ele, “contar, revela, conscientizar”. O autor foi perseguido pela ditadura militar implantada no Brasil em 1964, situação que o obrigou a deixar sua terra, tendo se exilado no Chile, até a queda de Salvador Allende. Foi lá que escreveu um de seus poemas mais famosos “Os estatutos o homem” (1964). Um dos escritores brasileiros mais conhecidos no mundo, seus trabalhos foram publicados em mais de 30 idiomas. Thiago interrompeu a redação do seu próximo livro Os Outros Comigo para esta conceder esta entrevista que fecha a edição da revista Pré-Univesp sobre Amazônia.

Divulgação: Editora Global

Pré-Univesp: Você já morou em cidades grandes, como o Rio de Janeiro e em outros países, quando ficou exilado, durante a ditadura. Por que escolheu morar “no coração da floresta”?

Thiago de Mello: Moro em Barreirinha (não na cidade-sede do município), mas no distrito Freguesia do Andirá, pequena comunidade onde construí, faz uns trinta anos, a casa que o meu amigo Lucio Costa projetou para mim. Ali, no silencio sonoro do coração da floresta, onde estão as minhas bibliotecas, é o meu lugar preferido para estudar e escrever. Só saio de lá para atender convites de trabalho, palestras ou recitais, na capital, no Sul ou no exterior. Mantenho um estúdio na sofrida Manaus, cidade que me fez e que a Zona Franca desfez. Decidi morar na floresta, porque voltei do exílio (foi na Alemanha que mais aprendi sobre a crueldade do desmatamento e do genocídio de índios, principalmente dos Yanomami) com a decisão de escrever para ajudar, não mais somente a preservação, mas a salvação da vida da floresta e do seu povo. Sem o povo, que vive nela e dela, a floresta é só uma espantosa paisagem. Acho que fiz a minha parte com os livros Amazonas, a menina dos olhos do mundo, O coração encantado da floresta, ABC da Floresta Amazônica (com Pollyanna Furtado), Águas. Pássaros, Peixes e Milagres e principalmente o Amazonas, Pátria da Água, que serviu de roteiro para um documentário da Globo News. Livros que contam, revelam e conscientizam.

Pré-Univesp: No livro Amazônia, pátria da água, você escreveu: “Porque é aqui no coração do silêncio da Floresta Amazônica que criaturas simples e humildes constroem há centenas de anos a civilização da água, cujas leis e valores são tão diferentes das que marcam a vida atormentada dos grandes centros urbanos. Aqui não existem as angustias e as urgências que devoram a vida do aflito animal da selva de pedra”. Pode nos contar um pouco sobre a rotina de uma vida tão perto da Floresta? De que forma você acha que os ritmos da floresta e do lugar onde você vive influenciam a forma com que você escreve?

Thiago de Mello: Na sua pergunta você já responde com um trecho do meu livro. Minha rotina? Conviver – dar e receber com o povo – as crianças e adolescentes sabem muito. Aprender com as águas, os ventos, as estrelas, os temporais, as árvores e suas virtudes. Como todo escritor, tenho jeito e ritmo de dizer. Mas a floresta enriqueceu o meu vocabulário. Uso feliz expressões e construções de sintaxe da linguagem cabocla.

Pré-Univesp: Talvez a veiculação excessiva de imagens aéreas mostrando a Amazônia como uma grande rede de rios acabe resultando em certa visão distorcida da floresta como um lugar desabitado, isolado, longínquo. Você, no entanto, você mesmo afirma que os homens são parte essencial da floresta. Pode falar um pouco sobre isso?

Thiago de Mello: Consideradas as dimensões dos seus verdes, suas incontáveis veredas, as vastas extensões de terra firme, a floresta é pouco habitada. Mas o labirinto fluvial que as enchentes dos rios acrescentam de furos, atalhos e igarapés favorece a comunicação, o comercio entre comunidades e até municípios e sobretudo facilita as viagens de estudantes e até professores que vão para a escola remando em suas canoas.

Pré-Univesp: Seus livros exaltam a sabedoria popular, o conhecimento dos homens da Amazônia e dos indígenas que sabem ler e ouvir a floresta, que são parentes das águas. Ao mesmo tempo você se mostra bastante otimista com os avanços da ciência. Em “Pátria da água”, ao mencionar o encontro da floresta com a ciência, você afirma que “a magia já se aconchega na mão da ciência”. Para você esses (ciência e o conhecimento tradicional) são dois caminhos separados ou podem ser complementares?

Thiago de Mello: São caminhos complementares. A ciência gosta de beber na mão da magia.

Pré-Univesp: Em dezembro de 2015 aconteceu a Conferência do Clima, em Paris (COP 21). Uma das principais expectativas era criar uma lei global obrigando todos os países signatários do encontro a reduzir as emissões de CO2. Você, um defensor das utopias, o que achou dos resultados do Encontro?

Thiago de Mello: De todos os signatários de encontros ou conferências do clima realizadas para fundar uma lei obrigue a redução do CO2, os países poderosos são os primeiros a descumpri-la e aumentar, cada vez mais, a emissão dos gases de efeito-estufa.

Pré-Univesp: O aquecimento global afeta a todos nós. Há um imenso trabalho em termos de políticas públicas para controlar o aquecimento e para minimizar seus efeitos, mas há, por outro lado, uma questão de mobilizar cada indivíduo para comportamentos mais conscientes em relação à sua cidade, ao meio ambiente em que ele vive? Em sua opinião, por que isso é tão difícil? O que está faltando para sensibilizar as pessoas, em especialmente os jovens, para as questões relacionadas ao meio ambiente?

Thiago de Mello: Falta um trabalho de conscientização que comece em casa e na escola. Tarefa de pais e professores. Palestras nas universidades. O Ministério da Educação pode se valer dos meios de comunicação de massa para fazer cada indivíduo responsável pela redução do aquecimento do lugar em que vive, sua casa, seu bairro, sua cidade.

Pré-Univesp: Você pode nos falar um pouco sobre o papel da poesia e do poeta como portadores de uma mensagem para o mundo?

Thiago de Mello: Você já disse: a poesia pode ser, sim, portadora de uma mensagem ao mundo de amor à vida.