Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Crédito: Editora Record
Por Chris Bueno
10/6/15

Há beleza em envelhecer. Segundo a antropóloga Mirian Goldenberg, professora do programa de pós-graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o envelhecimento pode ser vivido como um momento de ganhos, realizações, conquistas, descobertas e, especialmente, de maior aceitação das mudanças nas diferentes fases da vida. Em seu livro A Bela Velhice (Record, 2013), Goldenberg aponta que homens e mulheres envelhecem de modo diferente, que ainda há muito preconceito com os idosos e medo do envelhecimento, mas que também há muita oportunidade de aproveitar a vida e ser feliz após os 60 anos. Confira a entrevista.

Pré-Univesp: O que é uma “bela velhice”?

Mirian Goldenberg: Escrevi o livro A Bela Velhice inspirada em Simone de Beauvoir. Nas 711 páginas do livro A Velhice (Nova Fronteira, 2003), da filósofa francesa, a ideia de “bela velhice” aparece raríssimas vezes. Apesar disso, me coloquei o desafio de aprofundar a reflexão sobre essa ideia, adotando a estratégia de destacar uma categoria marginal para Simone de Beauvoir e torná-la central no meu livro. Como então é possível construir uma “bela velhice”? Encontrei na própria Simone de Beauvoir a resposta para esta questão.

Pré-Univesp: Quais são as principais dificuldades de se envelhecer nos tempos atuais?

Mirian Goldenberg: Muitos velhos sofrem por se sentirem invisíveis socialmente, serem ignorados e praticamente transparentes. No entanto, essa invisibilidade social parece produzir um resultado positivo: a libertação da ditadura da aparência jovem e uma mudança importante de foco. Nas pesquisas que tenho conduzido sobre esse tema, muitas pessoas de mais de 60 anos, especialmente as mulheres, afirmaram que não se preocupam mais em serem olhadas, elogiadas e admiradas pelos homens. Elas disseram que, pela primeira vez na vida, buscam respeitar a própria vontade e cuidar mais de si mesmas e que, portanto, podem finalmente ser “elas mesmas”. 

Pré-Univesp: Então, como fica a relação com o corpo e com a “ditatura da juventude”?

Mirian Goldenberg: Em uma cultura em que o corpo é um capital importante, o envelhecimento pode ser vivenciado como um momento de grandes perdas (especialmente de capital físico). No entanto, para muitas mulheres pesquisadas, que passaram a valorizar outros capitais, o envelhecimento parece ser vivido como um momento de inúmeros ganhos, realizações, conquistas, descobertas, amadurecimento, cuidado e, especialmente, de maior aceitação das mudanças nas diferentes fases da vida.

Pré-Univesp: Em seu livro, a senhora afirma que homens e mulheres envelhecem de maneira diferente. Quais são as principais características do envelhecimento de cada um?

Mirian Goldenberg: Na minha pesquisa, as mulheres demonstraram ter muito mais medo de envelhecer do que os homens. Entre os pesquisados de até 59 anos, 38% das mulheres e 25% dos homens disseram ter medo de envelhecer. É interessante observar que o medo diminui acentuadamente com o correr dos anos. Após os 60 anos, 19% das mulheres e 10% dos homens afirmaram que têm medo de envelhecer. Os medos de homens e de mulheres são os mesmos: doenças, limitações físicas, dependência, dar trabalho aos outros, perder a memória, solidão, abandono, desrespeito, falta de dinheiro e morte. Só os homens, no entanto, mencionaram medo de ter arrependimentos, frustrações, de se tornarem inúteis, chatos ou deprimidos e de falta de emprego. Quando perguntei: “Quem envelhece melhor: o homem ou a mulher?”, em todas as faixas etárias, ambos os sexos concordaram que os homens envelhecem melhor do que as mulheres.

Pré-Univesp: Por quê?

Mirian Goldenberg: As mulheres disseram que os homens ficam mais interessantes quando mais velhos, que os cabelos brancos tornam os homens ainda mais charmosos e que os homens maduros são atraentes. Apenas um grupo discordou dessa afirmação, onde apareceu a ideia de que as mulheres envelhecem melhor do que os homens. Esse grupo específico acredita que os homens ficam mais dependentes do que as mulheres na velhice, que os homens têm mais problemas de saúde e não vão ao médico, morrem mais cedo, bebem mais, comem mal, são sedentários, ficam deprimidos depois da aposentadoria, têm menos amigos, não sabem aproveitar o tempo livre, não gostam de sair, viajar e dançar. Esse mesmo grupo acredita também que, inclusive na aparência física, as mulheres envelhecem melhor do que os homens. Os homens ficam barrigudos, carecas e desdentados, usam roupas fora de moda e deixam de cuidar da aparência; por exemplo, não disfarçam os cabelos brancos. Como também não fazem uso de recursos e tratamentos cosméticos, a pele deles fica pior com a idade. As mulheres mais velhas se cuidaram mais, além de serem mais saudáveis, têm uma aparência mais bonita do que os homens mais velhos. Que grupo seria este, afinal, que se diferencia dos demais? Curiosamente, apenas as pesquisadas com mais de 60 anos acreditam que as mulheres envelhecem melhor do que os homens. Justamente aquelas que já envelheceram negam a crença que sempre alimentaram: a de que o envelhecimento masculino é melhor do que o feminino. É importante ressaltar que quando mais jovens, elas alimentam a ideia de que o homem envelhece melhor do que a mulher.

Pré-Univesp: E o que mudou essa visão?

Mirian Goldenberg: A experiência concreta da velhice parece mostrar que elas estavam equivocadas. Ao associar essas respostas aos medos que as mulheres têm de envelhecer, medos relacionados à decadência do corpo e da aparência, é possível pensar que o enorme investimento que elas fazem no cuidado do corpo produz um efeito positivo: elas vivem mais e melhor do que os homens. 

Pré-Univesp: Ainda há muito preconceito em relação ao envelhecimento?

Mirian Goldenberg: Quando perguntei: “Você toma algum cuidado para envelhecer bem?”, apenas nas respostas femininas apareceu: vou ao médico, uso filtro solar e creme hidratante. Nenhum homem deu esse tipo de resposta. Por outro lado, apenas nas respostas masculinas apareceu: tenho bom humor, mantenho a alma e o espírito jovens. Antes dos 60 anos, as mulheres demonstram ter muito medo de envelhecer em função das transformações do corpo: rugas, cabelos brancos, facilidade para engordar, flacidez, celulites, estrias. Nas respostas das mulheres com mais de 60 anos esse tipo de preocupação quase não aparece. Quando perguntei: “Você deixaria de usar algo porque envelheceu?”, a diferença de gênero foi marcante: 96% das mulheres disseram que sim; 91% dos homens disseram que não. Os homens pesquisados disseram que não mudariam nada em sua forma de vestir, permanecendo, quando mais velhos, fiéis ao estilo que sempre tiveram. As mulheres enfatizaram que não usariam minissaia. Para as pesquisadas, uma mulher mais velha que usa minissaia é “ridícula”. É interessante perceber que a minissaia, que foi um dos símbolos da libertação feminina nos anos 60, foi o item mais citado como proibido para as mulheres que envelhecem. A proibição do uso da minissaia parece sintetizar a rejeição do corpo e da sexualidade da mulher mais velha. A aposentadoria da minissaia e de outras roupas consideradas de jovens revela um controle social muito maior sobre o envelhecimento feminino do que sobre o masculino, especialmente com relação ao vestuário. Fugir da acusação de “velha ridícula” provoca, nas pesquisadas, a busca por uma aparência ideal para uma mulher mais velha. Ser discreta e elegante contribui para essa concepção de ser mulher, especialmente para a concepção de ser uma mulher mais velha. Não é à toa que a atriz Fernanda Montenegro apareceu, em primeiro lugar, como exemplo de uma mulher que envelheceu bem. Betty Faria, ao ser criticada por ir à praia de biquíni, deu um belo exemplo de luta contra o preconceito. Ela disse que não muda sua vida apenas por medo do olhar dos outros, inclusive aqueles que gostariam que ela vestisse uma burca só porque envelheceu.

Pré-Univesp: Em seu livro, a senhora afirma que o trabalho com criatividade e a condução de projetos pessoais fazem da velhice uma oportunidade para a construção de uma nova vida. Como?

Mirian Goldenberg: Uso uma ideia de Simone de Beauvoir. Ela sugeriu, nas entrelinhas de A Velhice, um possível caminho para a construção de uma “bela velhice”: o projeto de vida. Ela mostrou que os criadores, por terem uma situação privilegiada na sociedade, poderiam revelar as possibilidades de uma “bela velhice”. Os trabalhadores intelectuais seriam menos afetados do que os outros pelo declínio fisiológico. Os criadores teriam, em sua relação com a sociedade, uma singular autonomia. Apesar de não serem muito numerosos, a sua situação privilegiada faria deles exemplos reveladores de como aprender a envelhecer bem. Por meio desses indivíduos singulares seria possível pensar quais as possibilidades práticas do idoso vivenciar o máximo de oportunidades lhe é oferecido. Ao priorizar a busca de significado para sua existência, os criadores recusariam uma “morte simbólica” ou uma “morte social”, criando novas e positivas representações sobre a velhice.

Pré-Univesp: O que aprendeu com os idosos que pesquisou?

Mirian Goldenberg: Como as mulheres que pesquisei, sinto-me mais livre para colocar o foco nos meus próprios desejos, para não me preocupar tanto com a opinião dos outros ou com a autoimagem. Passei a rir muito mais, a buscar momentos de prazer com as minhas amigas, meus amores ou mesmo sozinha. Sinto-me mais disponível para brincar e para me divertir. Sou mais livre para “ser eu mesma”. Apesar de acreditar que não existem segredos ou receitas para construir uma “bela velhice”, descobri que rir muito, especialmente de mim mesma, está sendo o meu melhor remédio. Procurei, em cada capítulo do meu livro, destacar o que aprendi de mais importante para inventar a minha própria “bela velhice”: encontrar o meu projeto de vida, buscar o significado da minha existência, conquistar a minha liberdade, almejar a felicidade, cultivar as verdadeiras amizades, viver intensamente o presente, aprender a dizer não, respeitar a minha vontade, vencer os meus medos e aceitar a minha idade.

Pré-Univesp: Como podemos nos preparar para ter uma bela velhice?

Mirian Goldenberg: É impossível negar as perdas que cada um de nós experimenta com o envelhecimento. Não é nada fácil pensar em risadas, bom humor e leveza na velhice. Para muitos, é uma fase de doenças, graves ou não, de problemas financeiros ou crises de relacionamentos. Pode ser uma fase de solidão, de medos, de inseguranças, de perdas. Talvez, o ideal fosse aprender, em fases anteriores da vida, a exercer a capacidade de brincar, de rir dos outros e especialmente de si mesmo, de ser meio “Leila Diniz1”. O que mais me emociona é ver avós, mães e netas, compartilhando os mesmos ideais e projetos de vida. Independentemente da geração, a saúde é o bem mais valioso e a principal riqueza em todas as fases da vida. É a saúde que permite que elas usufruam tudo o que conquistaram com mais prazer e autonomia, no presente e no futuro. Elas dizem que merecem o melhor e preferem se cuidar desde cedo para prevenir doenças e se manterem independentes e com mobilidade. As avós são uma inspiração para as netas quando afirmam categoricamente: “Este é o melhor momento da minha vida, é a primeira vez que eu me sinto livre, é a primeira vez que posso ser eu mesma”. As netas respondem: “Não quero esperar os meus 60 anos para ser livre e feliz. Quero ser eu mesma desde já. Quero ser a melhor versão de mim mesma agora”.

1 Leila Diniz (1945-1972) foi uma atriz brasileira que quebrou tabus de uma época em que a repressão dominava o Brasil, por exemplo, ao usar biquíni quando estava grávida.