Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Mariana Castro Alves
21/5/14

Poro é uma dupla de artistas formada por Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada! Criado em 2002, em Belo Horizonte, o trabalho desses artistas busca apontar sutilezas, criar imagens poéticas e trazer à tona aspectos da cidade que se tornam invisíveis pela vida acelerada nos grandes centros urbanos. Eles fazem isso por meio de intervenções urbanas. “Intervenções são quase sempre efêmeras. Duram o tempo de uma panfletagem no centro da cidade ou o tempo de uma folha de ouro cair de uma árvore. Duram o tempo do deslocamento do ritmo cotidiano para um ritmo poético, questionador. É possível ressensibilizar o espaço urbano?” Esse é o principal questionamento da dupla, pergunta que repetimos nessa entrevista com Marcelo Terça-Nada!, artista de 35 anos, um dos componentes desse grupo, cuja arte já ultrapassou os limites de Belo Horizonte, alcançou outras cidades brasileiras e até outros países.  

 

<em>Marcelo Ter&ccedil;a-Nada, integrante do Poro</em>

 

Pré-Univesp: Como vocês se relacionam com a cidade, com o urbano?

Marcelo Terça-Nada!: Desde o início de suas atividades, o Poro, em 2002, investiga alguns aspectos da cidade. Um deles é como acontece com a comunicação, um tema que apaixona a gente. Outra coisa é entender como as cidades estão se transformando e como, através da intervenção urbana, podemos colocar uma carga poética, crítica e política, criando um novo olhar, um outro jeito de abordar as questões da cidade.

PU: Que tipos de trabalho vocês já fizeram?

Marcelo: Temos uma gama bem diversa de intervenções. Na linha das investigações sobre como a comunicação acontece, temos os trabalhos que, por exemplo, são faixas que, ao invés de ter mensagens comuns – essas de vendas de apartamentos, ou de perda de cachorro ou dessas coisas ligadas ao mais óbvio –, a gente entra com mensagens poéticas, irônicas ou desconcertantes, para cutucar um pouco esses automatismos da cidade. 

PU: Então, vocês esperam uma reação? Qual o sentido da arte? De resistência talvez?

Marcelo: A arte que acontece no espaço urbano serve para disputar um terreno simbólico. A maior parte das mensagens veiculadas na cidade são publicidade, com um objetivo claro de estimular o consumo. A gente tem que pensar formas de ocupar esses espaços para ter outro tipo de discurso, mais reflexivo, mais poético. Acho que temos que recuperar o encantamento desse espaço público e, ao mesmo tempo, tirar um pouco desse pragmatismo – dessa preocupação em resolver alguma coisa, de estar com pressa. Você não está pensando o que é o lugar em que você está pisando, no trajeto em que está passando, como a cidade está crescendo, como ela se transforma… Então, quando a gente propõe intervenções no contexto específico da cidade, estamos trazendo à tona aspectos que estão desaparecendo, fazendo um tipo de ressensibilização. A intervenção urbana tem um papel de aproximar a arte do cotidiano, trabalhar os problemas que acontecem de modo poético, sensível.

PU: E como as pessoas reagem? Elas são tocadas pelo estranhamento? O que vocês têm percebido nesse tempo de trabalho?

Marcelo: É um trabalho bem simples, não é hermético. É aberto para qualquer tipo de pessoa. As reações são diversas. Uma coisa interessante nessa proposta é que, fora do espaço institucional, a relação das pessoas com o nosso trabalho é muito direta. Elas não têm receio, medo ou algum tipo de etiqueta para se relacionar com o trabalho. Na maior parte das vezes, somos bem-recebidos e os debates são muito ricos. A melhor reação seria as pessoas pararem para pensar e olhar a cidade de um jeito diferente. Voltar a olhar para a cidade.

PU: Que outros projetos o Grupo Poro tem?

Marcelo: Ao longo dos anos, a gente tem realizado uma série de publicações sobre a questão da arte como uma forma de repensar a cidade, em diálogo com outras áreas, como a arquitetura, a literatura expandida1, o design. Temos chamado as pessoas a participar, escrever. Depois disponibilizamos esse material na internet, justamente para criar um espaço de discussão sobre a cidade que não seja somente os espaços da intervenção, mas que esteja em outras áreas.

PU: E onde fica armazenado esse material?

Marcelo: Todas as publicações estão no site do Poro (www.poro.redezero.org), disponíveis para download. Nossos livros também podem ser encontrados em versão impressa, caso alguém se interesse. Disponibilizamos também uma série de matrizes. Alguns trabalhos podem ser impressos para que as pessoas experimentem fazer intervenções ou utilizem nos espaços domésticos. Há panfletos, materiais que convidam as pessoas a se aventurarem a fazer intervenções e também a pensar a questão da arte efêmera. A partir desses materiais, elas podem escolher o contexto para algum tipo de atividade, algo que as faça sair do seu espaço de conforto e ir para a cidade… Então é isso, além de fazer, a gente tem uma preocupação de criar uma circulação do trabalho de modo a fazer com que as pessoas queiram atuar na cidade, pensá-la. A gente fala que um dos objetivos é reivindicar a cidade para a arte, para as pessoas.

PU: Vocês pensam em levar isso para outras cidades? A maior parte está em Belo Horizonte?

Marcelo: Na verdade, nosso trabalho já está bem pulverizado. Para citar algumas cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Fortaleza, Curitiba… O que acontece: além da gente mesmo ir aos lugares fazer as intervenções, algumas propostas do Poro são trabalhos impressos. A obra “Azulejo de papel”, por exemplo, nós distribuímos na internet e convidamos as pessoas a experimentarem e mandarem fotos. No site, temos obras no Canadá, no interior da Bahia, Acre, em Portugal. Enfim, muitos lugares.

 

Quer saber mais?

Assista ao vídeo: 

 




1 Literatura expandida é um conceito que diz respeito ao transbordamento do texto literário para outros suportes (hipertextos, livros eletrônicos etc.), que não o livro, e às consequências disso, ou seja, novas formas de escrever e de ler desse processo.