Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Imagem: Reprodução
Por Patrícia Mariuzzo e Márcia Azevedo
16/4/14

A língua é uma das formas pelas quais expressamos nossa percepção do tempo. Por meio dela, definimos as ações que estão acontecendo agora, no presente, as que aconteceram no passado e as ações futuras: fiz, faço, farei. Nesta entrevista, conversamos sobre isso com Luiz Carlos Travaglia. Ele foi professor do ensino fundamental e médio por quase duas décadas e, hoje, é pesquisador do Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

 

Pré-Univesp: A linguagem apresenta algumas formas ou categorias para expressar a noção de tempo. Quais são elas?

Luiz Carlos Travaglia: O tempo aparece na língua basicamente de duas formas: por meio das categorias gramaticais de tempo (pelas flexões modo-temporais do verbo) e aspecto (que é expresso por algumas flexões do verbo, mas também por outros recursos como as perífrases verbais). O tempo é uma categoria gramatical dêitica, isto é, relacionada com o momento da enunciação, pois indica se o processo expresso pelo verbo tem ocorrência: a) anterior ao momento em que se fala (passado): João leu o livro / João lia o livro quando você ligou / João tinha lido / lera o livro quando você chegou; b) simultânea ao momento em que se fala (presente): João está lendo o livro ou c) posterior ao momento em que se fala (futuro): João vai ler / lerá o livro.  

PU: E o que seriam essas perífrases verbais?

LCT: Além desses valores temporais, o verbo, por meio de perífrases, pode exprimir as seguintes noções de tempo – do passado até o presente: João tem lido o livro todas as tardes; do presente para o futuro: Vocês vão lendo o livro enquanto eu vou à diretoria; o onitemporal, ou seja, algo que vale para o passado, presente e futuro: João muitos livros. O aspecto é uma categoria gramatical não dêitica, porque se refere ao tempo interno da situação ou processo indicado pelo verbo, registrando sua duração e/ou uma de suas fases, que podem ser: a) as fases de realização (não começado, começado, acabado); b) as fases de desenvolvimento (início, meio, fim) e c) as fases de completamento (completo, incompleto).  

PU: Todas as línguas utilizam os verbos para expressar a percepção do tempo?

LCT: Geralmente, sim, mas existem outros recursos. O tempo também pode ser comunicado pela expressão de momentos e períodos. Fazemos isso usando advérbios (hoje, amanhã etc.); sintagmas adverbiais (à noite, no meio do dia, nessa manhã, às três horas etc.); orações adverbiais (quando eles chegaram /enquanto esperávamos, logo que você nos chamar etc.), substantivos (semana, dia, ano, era etc.); datas (25 de março de 2014, em 2030 etc.); etc.

PU: O senhor poderia definir o que são os verbos?

LCT: De modo bem simples, podemos dizer que os verbos são uma classe de palavras que pode ser identificada pelas seguintes características básicas: a) semanticamente, os verbos exprimem processos de vários tipos: ações, ou seja, algo que se faz (lavar, escrever, correr etc.); fatos, isto é, algo que acontece (morrer, cair etc.); fenômenos da natureza (chover, ventar, nevar etc.) ou ligam uma característica a um ser – são os chamados verbos de ligação – (ser, estar, parecer, ficar etc.); b) morfologicamente, o verbo se caracteriza por ter flexões, mudando de forma para indicar tempo e modo e c) sintaticamente, os verbos são considerados o centro da oração, pois eles se referem a um sujeito e pedem complementos ou não. 

PU: O aspecto verbal apresenta, muitas vezes, uma noção de tempo que difere do tempo verbal específico. Por exemplo, quando dizemos "Almoço aqui todos os dias”, o tempo verbal, que é presente, se alarga e deixa de se referir a uma ação que se restringe ao exato momento do enunciado. De onde se origina esse valor paralelo dado ao sentido temporal do verbo?

LCT: Na verdade, não é um alargamento do tempo verbal, referente ao presente. Nestes casos (como o do exemplo “Almoço aqui todos os dias”), você tem a forma verbal “presente do indicativo”, indicando o onitemporal, sobre o qual falamos acima. Temos que tomar cuidado para não confundir a forma verbal com o tempo (categoria) que ela indica. As gramáticas registram que o presente do indicativo (forma verbal), por exemplo, pode indicar passado (é o presente histórico), futuro, presente ou onitemporal (que é o presente de conhecimento que aparece muito nas dissertações). O alargamento, que se sente em casos como o do exemplo, vem também da noção aspectual de duração ilimitada descontínua que caracteriza o que chamamos de aspecto “habitual”, porque, quando temos essa duração ilimitada, descontínua, tem-se geralmente a expressão de algo que é habitual.

PU: Isso é mais frequente na língua falada do que na escrita?  

LCT: Não. Esse uso do presente do indicativo com valor temporal de “onitemporal” e aspectual de “habitual” aparece tanto na língua falada quanto na escrita.

PU: Na língua falada parece haver uma predileção pelo presente quando se deveria utilizar o futuro. No caso do verbo ir, por exemplo, parece ser mais comum as pessoas dizerem “vou a sua casa amanhã” do que “irei a sua casa amanhã”. Há algum fator que determine essa alternância do tempo no uso verbal?

LCT: A predileção a que você se refere seria o uso do presente do indicativo pelo futuro do presente para exprimir tempo futuro. Na verdade, essa é uma questão de variação linguística, e a sociolinguística (ramo da linguística que estuda a relação entre a língua e a sociedade) poderia explicar as condições que regulam a alternância. Todavia, posso dizer que há hoje uma tendência muito grande para exprimir o futuro pela perífrase “ir (no presente do indicativo) + infinitivo” (João vai comprar um carro) e não pelo futuro do presente (João comprará um carro). Isto acontece não só na língua falada. No caso do verbo ir, para não usar a perífrase que soaria mal (João vai ir a sua casa), usa-se apenas o verbo ir no presente do indicativo que, como já falamos, pode indicar o futuro.

PU: De forma parecida, o gerúndio, na sua forma simples, pode expressar uma ação em curso, simultânea ou até mesmo a ideia de progressão indefinida. Percebemos, entretanto, que essa forma verbal sendo utilizada para reforçar uma ideia de processo no futuro, como nos exemplos: “Senhor, vou estar transferindo sua ligação…”; “Senhor, vamos estar verificando …” Em sua opinião, este uso constitui um vício de linguagem?

LCT: Realmente o gerúndio tende a expressar algo incompleto, em curso, em oposição ao particípio, que tende a exprimir algo completo, acabado, como já ensinava Mattoso Câmara Jr., nosso famoso linguista brasileiro. Esta oposição é, na verdade, um valor aspectual. Quando você considera as perífrases verbais, essa tendência permanece de modo geral: Eu estou lendo o livro (presente, ação de ler em curso) x Eu tinha lido o livro (passado, ação de ler já terminada). O uso que você refere é o chamado “gerundismo”. Não é propriamente um “erro”, mas é estigmatizado por muitos por ser visto como uma forma esteticamente pouco recomendável, havendo, portanto, restrições ao seu uso. Assim, via de regra, nas abordagens normativas, recomenda-se que seria preferível dizer: “Senhor, vou transferir sua ligação…”; “Senhor, vamos verificar …”A gramática normativa que trata do que seria uma norma culta tem muitos critérios para recomendar ou banir um determinado uso: a estética é, sem dúvida, um deles. Esse uso seria perfeito em situações como a que se pode deduzir de um texto como: Não me ligue amanhã cedo, porque vou estar viajando para São Paulo. Ou seja, tem-se aqui algo que efetivamente vai estar em curso em um dado momento do futuro e a forma não é vista com nenhuma restrição nesses casos. Alguns defendem o gerundismo, dizendo que, apesar do valor de futuro, se coloca a perífrase “estar + gerúndio”, usada atualmente para marcar o presente, para dar a ideia de que é tão certo o que se está dizendo que o falante o apresenta até como já em curso. Mas, realmente, do meu ponto de vista, não é esteticamente bom.

PU: Como o professor poderia tratar dessa questão em sala de aula, já que é comum ensinar os tempos verbais, mas esse aspecto parece ser pouco trabalhado nas aulas de Língua Portuguesa.

LCT: Creio que, ao abordar este tipo de fato com os alunos, o professor deve referi-los tal como expliquei na questão acima, sendo honesto com os alunos sobre a possibilidade de variação e que há restrições ao uso de uma forma em determinadas circunstâncias, e que estas restrições podem desaparecer em outras. Aliás, a variação linguística tem sido um aspecto do estudo da língua que sempre se apaga nas salas de aula e nem sempre com uma razão plausível.  É preciso mostrar que ela existe e nem sempre é uma questão de certo ou errado.  

 

Sugestão de leitura: Na trilha da gramática: conhecimento linguístico na alfabetização e letramento. São Paulo: Cortez, 2013. (Coleção biblioteca básica de alfabetização e letramento)