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Nº.57 Liberdade Maio 2016

Bruna Garabito
Por Chris Bueno
15/4/15

A observação nua e crua dos fenômenos físicos da renovação constante do ciclo morte-vida e a indagação sobre a finalidade da vida; o fascínio pelas palavras chocantes, exóticas e termos científicos, o pessimismo e o fatalismo associado a um panteísmo de fundo místico. Essas são algumas das características marcantes de Augusto dos Anjos, um dos principais nomes do ultrarromantismo no Brasil. Apesar de ter escrito apenas um livro, o poeta paraibano é um dos maiores autores nacionais. Recentemente, a exposição Esdrúxulo! 100 anos da morte de Augusto dos Anjos recebeu mais de 32 mil visitantes na Casa das Rosas, em São Paulo (SP). Com 29 poemas, diversos manuscritos e documentos, além de vídeos sobre o poeta, a mostra resgatou sua obra a partir de três grandes temas: a morte, as ciências e a transformação permanente da vida. “A poesia de Augusto dos Anjos, até hoje, provoca repulsa e atração”, afirma o poeta e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-São Paulo, Júlio Mendonça, curador da exposição e coordenador do Centro de Referência Haroldo de Campos. Em entrevista para a Pré-UNIVESP, Mendonça fala sobre a exposição, o poeta, o ultrarromantismo e o fascínio que essas obras ainda causam nos leitores.

 

Júlio Mendonça. Crédito: Christian Piana

 

Pré-Univesp: Muitos estudiosos afirmam que o Romantismo não se encerrou no seu período áureo, mas transformou-se em outros movimentos, como o simbolismo e o surrealismo.

Júlio Mendonça: Em seu importante livro “Os Filhos do Barro”, Otávio Paz (2013) defende essa ideia de que o Romantismo não se restringiu ao período histórico de predomínio do movimento e que era possível observar algumas de suas características manifestarem–se em movimentos literários posteriores, principalmente nas vanguardas. Dentre essas características, há uma que ele destaca como a principal: “a mais notável das semelhanças entre o romantismo e a vanguarda, a semelhança central, é a pretensão de unir arte e vida”. Penso que, de fato, este é um traço comum bastante claro e, se associarmos esse traço aos da revolta e da transgressão – que também estavam presentes no Romantismo, podemos entender que essas características românticas retornaram, de diferentes formas, com maior ou menor intensidade, pelo menos até as vanguardas do imediato pós-guerra.

Pré-Univesp: E o sr. vê esta continuidade romântica presente até hoje? Como ela se relacionaria com o mundo pós-moderno?

Júlio Mendonça: Como escreveu o próprio Octavio Paz, “a modernidade é um conceito ocidental”. Acontece que, a partir da segunda metade do século XX, o processo de mundialização intensifica-se, ampliam-se os contatos entre as diferentes tradições culturais das diversas partes do mundo e, com isso, começa a ocorrer uma forte crítica – interna e externa – das grandes narrativas que buscavam expandir a influência da cultura, da literatura e das artes ocidentais (majoritariamente euro-ocidentais). Assim, se a modernidade era a “expressão da nossa consciência histórica”, de acordo com Paz, a partir de então tivemos que passar a entender que havia várias histórias e que a tradição moderna era uma tradição. Além disso, o chamado tempo “pós-moderno” (expressão que não me convence) é um tempo em que as coerções à criação e ao pensamento livres tornaram-se mais sutis e eficazes; a revolta e a transgressão tornaram-se mais raras e assimiláveis pelo sistema. Elas existem, mas resistem com dificuldade. Não consigo perceber muita presença dessa transgressão na literatura de hoje.

Pré-Univesp: Agora, falando um pouco sobre os autores, o que diferencia os românticos dos ultrarromânticos?

Júlio Mendonça: No ultrarromantismo, a exaltação da paixão e do genuíno, paradoxalmente, resulta numa literatura, muitas vezes, artificial. O pessimismo e a exaltação da morte têm origem no egocentrismo e sentimentalismo o mais das vezes blasé encontrados nesses autores. O pessimismo de Augusto dos Anjos é de cunho realista e está marcado pela reflexão filosófica e sua obsessão pela morte está associada à sua visão não-antropocêntrica que entende a vida como constante transformação da matéria.

Pré-Univesp: O que torna Augusto dos Anjos tão peculiar?

Júlio Mendonça: Algumas características atraem fortemente a atenção do público para a poesia de Augusto dos Anjos: a observação nua e crua dos fenômenos físicos da renovação constante do ciclo morte-vida e a indagação sobre a finalidade da vida; o fascínio pelas palavras chocantes, exóticas e termos científicos, o pessimismo e o fatalismo associado a um panteísmo de fundo místico.

Pré-Univesp: A morte é um tema muito importante na obra desse autor. Como ela se apresenta em seus textos?

Júlio Mendonça: O tema essencial da poesia de Augusto dos Anjos é o da consciência da morte, isto é, da consciência da finitude da vida humana expressa na locução latina memento mori, que significa “lembre-se de que vai morrer”. Este é um tema muito antigo nas artes e na literatura, presente na Bíblia, por exemplo: “porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gênesis 3:19).

Pré-Univesp: A poesia de Augusto dos Anjos também é considerada escatológica. Por quê?

Júlio Mendonça: Outra característica marcante da poesia de Augusto dos Anjos, associada à consciência da morte, é a escatologia, o mais das vezes, nas duas acepções do termo: sua poesia é escatológica por expor nossa limitada e finita condição material com uma profusão de imagens do corpo não sublimado, perecível e sujeito a excrescências; e o é, também porque fala do destino humano em meio ao mistério da vida que os seres humanos buscam angustiadamente entender.

Pré-Univesp: E a questão do cientificismo...

Júlio Mendonça: Uma terceira e marcante característica de sua poesia é a tendência filosófica e cientificista. Ela geralmente é associada à influência da poesia científica que, no Brasil, a partir de Recife (PE), teve alguma repercussão na segunda metade do século XIX. O crítico Anatol Rosenfeld escreveu que o termo científico na poesia de Augusto “é como a costela de prata que se introduz no corpo linguístico”, “arrebentando-lhe o turvo conformismo”.

Pré-Univesp: A exposição sobre o Augusto dos Anjos foi um sucesso – tanto que teve que ser prorrogada. Como você avalia o sucesso dessa exposição?

Júlio Mendonça: Em primeiro lugar, o sucesso da exposição se deve à popularidade da poesia de Augusto dos Anjos. Portanto, se deve também, à decisão acertada da Casa das Rosas de homenageá-lo com essa exposição. Além disso, acredito que a concepção conceitual, a escolha do título, a excelente expografia e a ótima programação visual também foram decisivas.

Pré-Univesp: Em tempos de apologia à felicidade e a um estado de bem-estar perpétuo, essa poesia ainda é atraente?

Júlio Mendonça: O historiador francês Philippe Ariés realizou um grande estudo da história da percepção social e cultural da morte no livro Historia da morte no ocidente - da idade media aos nossos dias (2003). Ariés ressalta que, a partir do final do século XIX, a morte começa a desaparecer da vida social: “o interdito da morte ocorre repentinamente após um longo período de vários séculos, em que a morte era um espetáculo público do qual ninguém pensaria em esquivar-se, e no qual acontecia o que se buscava”. A conformação de uma civilização cada vez mais urbana e burguesa, acostumando-se à intermediação crescente da técnica na vida social e valorizando concepções higienistas, baniu a morte e suas representações do convívio sócio-cultural. Mas, embora ela não esteja na nossa vivência cotidiana, ela retorna na arte, inclusive nos produtos da cultura de massa. Penso que a poesia de Augusto dos Anjos, até hoje, provoca repulsa e atração. Embora seu vocabulário, frequentemente, seja estranho e pouco acessível, sua maneira direta, nua e crua de tratar da nossa condição material e da nossa mortalidade é capaz de tocar o público, principalmente o público popular.