Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Carolina Cantarino
16/7/14

Acompanhando, da Austrália, a Copa do Mundo da Fifa no Brasil, o professor da University of Western Sidney analisa temas e assuntos bastante presentes na mídia e nas redes sociais durante o torneio esportivo. Sociólogo do esporte – e brasileiro –, Jorge Knijnik problematiza o tão discutido “legado” da competição para o país e avalia a cobertura da mídia, nacional e estrangeira, antes e durante a competição.

Pré-Univesp: Desde a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, o “legado” dos megaeventos esportivos para o país vem sendo discutido: as obras de modernização dos estádios, a renovação da infraestrutura dos aeroportos, a ativação do mercado da construção civil, o incremento do turismo… O altíssimo custo dessas obras foi posto em foco, assim como as remoções forçadas de moradores próximos aos estádios, as mortes de operários nas obras dos estádios, a repressão aos protestos nas ruas etc. Enfim, o legado tem sido abordado, as redes sociais e movimentos políticos, de maneira bastante, crítica quando se pensam os benefícios efetivos para o país. Da sua perspectiva, o que pode ser destacado em relação a isso? Qual a sua avaliação a respeito do tão discutido “legado” da Copa do Mundo? Como pensá-lo em relação a outras situações e contextos, em relação a outros países que já sediaram megaeventos esportivos?

Jorge Knijnik: Acredito que existe uma grande ansiedade em relação à história do “legado”.  Inicialmente, penso que devemos mudar a perspectiva e passar a chamar tudo o que está ocorrendo de “impacto” na vida do país e de seus habitantes, mais do que legado. Qual o impacto que esta verdadeira “invasão” do país, promovida pela Fifa e sua Copa, causou? Primeiro, claro, existe o legado tangível, visível, que são as obras, a infraestrutura necessária para sediar o evento, mas também para melhorar o  país como um todo. E, como em todas as grandes obras (e mesmo as médias), no Brasil, existe uma suspeita grande de desvios, superfaturamento e corrupção. Mas isso não é um legado. Os brasileiros estão acostumados com isso. O legado seria os desvios serem apurados e os responsáveis presos. Agora, em segundo lugar, existem os legados e os impactos não visíveis, culturais, políticos, educacionais que ficam com o país depois que o circo da Copa for embora. Uma avaliação destes impactos deverá ser feita nos próximos meses e anos. Não é possível fazer uma avaliação imediatista disso tudo. O que a Copa significou para os brasileiros que a acompanharam? E para os que a vivenciaram? Houve uma ampliação do acesso aos equipamentos esportivos? E às práticas esportivas? Ou, ao contrário, uma elitização maior? Houve algum impacto nas escolas? Nas mentes? Eu escrevi bastante sobre isso nas minhas colunas no site The Conversation.

Pré-Univesp: O senhor vive na Austrália e tem acompanhado a Copa do Mundo daí. Como tem sido a cobertura e o acompanhamento do evento por parte dos australianos?

Jorge Knijnik: A cobertura pela TV é fantástica. Há um canal aberto chamado SBS, que mostrou todos os jogos ao vivo, durante as madrugadas. Ele tem diversos programas futebolísticos com melhores momentos, análises, prognósticos. Exibe replays das partidas e jogos clássicos antigos, como Brasil X Holanda, na Copa de 1974! Eles também criaram programas humorísticos, como o The full brazilian, que vai ao ar todas as noites, com um australiano brincando com a Copa, com coisas brasileiras etc. Agora, quanto ao “clima de Copa” e do acompanhamento pelos australianos… Nas ruas, durante os jogos, o silêncio é ensurdecedor. Nenhum feriado, pouquíssimas pessoas sabendo que está acontecendo uma Copa, ninguém para discutir os jogos… Não havia grandes expectativas em relação ao time da casa e seu avanço na competição. Escrevi sobre a sensação de acompanhar a Copa fora do Brasil em meu blog.

Pré-Univesp: A cobertura da imprensa internacional, por vezes, tem levantado questões interessantes, como por exemplo o quão visível a desigualdade do Brasil ganha expressão nos torcedores presentes nos estádios: majoritariamente brancos e com maior renda. Na sua avaliação, o “país do futebol” está ganhando outras e novas imagens com a Copa do Mundo?

Jorge Knijnik: O SBS que mencionei tem um canal alternativo (SBS2), também aberto, que está passando um programa chamado 31 noites no Brasil. Todo dia, eles apresentam um filme brasileiro: Cidade de Deus (2002), Carandiru (2003), Lula, o filho do Brasil (2010), entre outros. O programa é apresentado por uma brasileira que vive aqui e também participou de uma série de outros programas. Durante o This is Brazil, ela visitou todas as cidades-sede da Copa, contando as histórias e o cotidiano destes lugares. Enfim, a cultura brasileira está em alta por aqui, de um jeito positivo. Mas os noticiários também cobrem e mostram documentários sobre favelas, exploração sexual de crianças etc. Bom, os próprios filmes acima citados, juntamente com Tropa de Elite 1 (2007) e 2 (2010) etc., também não mostram uma realidade muito rósea do país, não? Enfim, mostram a realidade mas, para quem não conhece e tem um pouco de sensibilidade social, é muito chocante e diferente do que eles conhecem por aqui…

Pré-Univesp: Se antes do início da Copa do Mundo o que predominava era um ambiente crítico e muito cético, com o andamento do torneio o apelo popular e o conhecido “clima de Copa” se intensificaram no Brasil depois do início dos jogos. Por vezes, o que se tem é a exacerbação do próprio nacionalismo e ufanismo, que vieram fortemente à tona com a eliminação de Neymar e as manifestações racistas nas redes sociais em relação a Zuñiga, o jogador colombiano que machucou o brasileiro, tirando-o da competição. Qual a sua análise desse cenário?

 Jorge Knijnik: Era claro e óbvio que, quando a Copa começasse, o nacionalismo iria imperar – não é esse um dos objetivos da Copa e destas competições mundiais, aliás? A enxurrada de estrangeiros querendo festa – obviamente eles não estariam preocupados com os problemas sociais brasileiros – e o massacre midiático que a Copa e o futebol fazem… Adicione tudo a isto à inédita e enorme repressão policial para qualquer protesto, e temos um prato cheio para este apelo popular que você menciona. Neymar machucado e o drama que se espalhou na mídia convencional e nas redes sociais certamente ampliaram este nacionalismo, gerando um clima de “união” contra o outro, o estrangeiro. Acho que o tal do racismo contra o colombiano vem de coisas profundas de um Brasil desigual e dividido em classes sociais. Mas é uma coisa terrível mesmo. Tem que ser combatido.

Pré-Univesp: E questão do ufanismo?

 Jorge Knijnik: O ufanismo (que é diferente do nacionalismo) aconteceu porque se pintava uma tragédia na batalha política das eleições que se avizinham. A imprensa conservadora com uma pauta “# não vai ter Dilma” se aproveitou da tradicional e esperada confusão que as obras causam (ainda mais no Brasil, com suas empreiteiras, com a falta de gente preparada para fiscalizar etc.) para pintar um quadro péssimo e pessimista para a Copa. Quando a coisa dá certo, o futebol rola; todos estão felizes; poucas tragédias acontecem (lembremos o caso do viaduto em Belo Horizonte); o ufanismo toma conta desta nação, que só enxerga os extremos; o tudo ou nada, ou dá certo ou não dá, sem posições intermediárias: conseguimos realizar a Copa do Mundo, então somos o máximo? Mas a quais custos? Quais impactos sociais, educacionais, políticos? Quando acabar a festa, passar a ressaca, vamos ter que refletir… Isso vai doer. Reflexão sempre dói. Não é fácil.