Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Patrícia Piacentini
27/8/14

O brasileiro Hermano Igo Krebs, engenheiro naval pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1980) e doutor em 1997 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), trabalha desde 1989 com reabilitação e terapia robótica. Acompanhe os detalhes de sua pesquisa no MIT e sua análise sobre o potencial de desenvolvimento da tecnologia robótica, principalmente na área de serviços. Para ele, a robótica representa a próxima revolução científica e econômica.

Pré-Univesp: Na mídia, há muito destaque para o desenvolvimento de robôs, principalmente os produzidos no Japão, com características humanoides e voltados para interação com as pessoas. Mas sabemos que existem muitas pesquisas nessa área, em diversos campos do conhecimento. Quais as principais áreas em que são feitas pesquisas com tecnologia robótica atualmente?

Hermano Krebs: No MIT, temos diversas linhas de pesquisa e provavelmente me esquecerei de mencionar algumas. Existem pesquisas em robótica para operações espaciais, navais ou petrolíferas (para uso militar) na área industrial (que recebe muitos incentivos do governo norte-americano), na área de emergência e resgate, em nanorrobótica, em robótica médica, reabilitação e biorrobótica. O mais importante a ressaltar é que houve uma transformação para o que traduzirei como “o ser humano como elemento central.” Os primeiros robôs focavam em tarefas em ambientes distantes, perigosos ou repetitivos, e o ser humano não fazia parte do cenário. Hoje, a maioria dos desenvolvimentos inclui o ser humano interagindo diretamente com robôs. Esta mudança de paradigma requer uma lógica e desenvolvimento diferenciados do passado. Agora que o desenvolvimento está basicamente concluído, iremos ver grandes avanços.

Pré-Univesp: Em que áreas especialmente?

Hermano Krebs: Creio que o crescimento maior da robótica será na área de serviços, como robôs que façam companhia e assistam a pessoas idosas ou que façam companhia a crianças, robôs que limpem partes da casa, que transfiram os itens comprados on-line das prateleiras nos pacotes e enviem as compras aos destinatários, para dirigir carros, robôs para auxiliar em cirurgias ou em fisioterapia de pacientes com AVC, etc. É importante ressaltar: a robótica representa a próxima revolução científica e econômica.

Pré-Univesp: Quais os objetivos dos robôs produzidos pela Boston Dynamics, empresa que surgiu no MIT e recentemente foi comprada pela Google?

Hermano Krebs: O objetivo dessa companhia era criar biorrobôs para uso militar. Exemplo: um robô “mula” para carregar a carga para soldados em locais isolados e de difícil acesso. Não sei quais são os planos da Google para essa empresa. A Google comprou pelo menos uma meia dúzia de empresas em robótica. Pode ser que eles tenham uma visão bem-definida dos objetivos ou simplesmente entendam que a robótica é uma área de enorme potencial em curto prazo e somente queiram se preparar para essa “explosão”. mesmo sem uma visão bem concreta.

Pré-Univesp: O senhor trabalha com reabilitação em robótica. Quais os fatores que propiciaram as pesquisas nessa área?

Hermano Krebs: Existem dois aspectos básicos. O primeiro é que, ao longo das décadas de 1970 e 1980, os pesquisadores da área de neurociência entenderam que o cérebro de um adulto também é “plástico.” Essa ideia de plasticidade cerebral é central ao conceito de reabilitação robótica. Sem ela, não haveria porque assumir que exercitar um membro parético [que perdeu motricidade muscular ou nervosa] auxiliaria o cérebro a recuperar funções e habilidades. Em segundo lugar, ideias disruptivas, em geral, utilizam componentes que já existem e são de uso comum, como por exemplo, o computador. Em 1989, quando comecei minhas pesquisas como aluno de doutorado no MIT, os fundamentos mencionados acima já estavam razoavelmente bem-definidos e a reabilitação robótica que temos hoje deve ser vista como uma evolução natural desses aspectos. Além disso, tive bastante sorte de encontrar um médico americano de uma família de muitas posses que era o diretor de um hospital de reabilitação perto de Nova Iorque. Ele ofereceu pagar os custos de meu PhD usando fundos de sua fundação, desde que eu fizesse algo voltado à área de reabilitação. Mas é importante entender que isto não é atípico nos Estados Unidos. Pelo contrário, o suporte filantrópico é crítico para os estágios iniciais de pesquisa e possibilita os passos iniciais de ideias pioneiras.

Pré-Univesp: Para quais casos a robótica de reabilitação é indicada? Como é feita essa interação entre robô e paciente?

Hermano Krebs: Tenho dados para o Acidente Vascular Cerebral (AVC) e paralisia infantil. Os resultados para esses dois grupos são, em média, ótimos. Digo em média porque 66% dos pacientes se beneficiam muito desta intervenção, mas os outros 33% veem benefícios pequenos. Meus colegas usam a tecnologia para outros grupos de pacientes com lesão medular, traumatismo craniano, esclerose múltipla e até em casos ortopédicos. Com relação à interação entre o robô e o paciente, esse é o aspecto crítico do sucesso de robôs para o membro superior e talvez seja a chave para obter resultados semelhantes para o membro inferior. Utilizamos um tipo de videogame em que os pacientes têm que movimentar os braços, pulsos, e/ou mãos para completar movimentos requeridos pelos jogos. Essa experiência lúdica com o paciente tem que ser interativa. O robô tem que se adaptar constantemente ao que o paciente é capaz de fazer e só auxiliar o mínimo possível, quando o paciente não é capaz de completar movimentos. O objetivo durante a terapia é não somente auxiliar o paciente, mas incentivá-lo a tentar fazer mais. Não é à toa que dizemos que a reabilitação motora utiliza muitos dos conceitos do aprendizado motor.

Pré-Univesp: Quais os resultados obtidos em suas pesquisas até agora? Quais os próximos passos e desafios a enfrentar?

Hermano Krebs: Os resultados foram muito positivos para o membro superior. Tanto que a American Heart Association (Associação Americana do Coração) passou a recomendar o uso da tecnologia robótica depois de um AVC como terapia para o membro superior. Os resultados para o membro inferior também são promissores. Nosso foco atualmente é identificar as falhas nessa área para atingir os mesmos resultados na terapia com auxílio de robôs para o membro superior.

Pré-Univesp: Hospitais de quais países utilizam a robótica de reabilitação? O Brasil já utiliza essa tecnologia?

Hermano Krebs: Talvez a maioria dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento já utiliza essa tecnologia: Estados Unidos, México, Canadá, Equador, Chile, Uruguai, Japão, Coreia do Sul, Cingapura, Hong Kong, Reino Unido, Alemanha, Itália, França, Espanha, Suíça, Israel, Finlândia, etc. No Brasil, a Rede Lucy Montoro, em São Paulo, utiliza em torno de 24 robôs distribuídos em algumas de suas unidades para atender adultos que sofreram AVC ou que têm outros problemas neurológicos. Além disso, a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), também em São Paulo, utiliza robôs no tratamento pediátrico. Na China, com o envelhecimento acelerado da população, devido à política de um filho por casal, o governo está investindo muito na área de robótica de reabilitação. Considerando a pressão demográfica, veja que oportunidade econômica e de fazer bem à sociedade! Difícil imaginar um incentivo melhor para as novas gerações. A robótica de reabilitação veio para ficar.