Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Patricia Piacentini
5/11/15

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um plano global para eliminar as doenças tropicais negligenciadas que atingem principalmente as populações mais pobres e vulneráveis, sem acesso à água potável, higiene e saneamento. A meta da organização é erradicar essas doenças até 2020. Um relatório da OMS apontou que em 2015 mais de 660 milhões de pessoas não tem acesso a fontes de água limpa, cerca de 2,5 bilhões de pessoas não têm acesso a saneamento básico e são registradas mais de 500 mil mortes por ano em decorrência das doenças tropicais negligenciadas. Para esclarecer como vai funcionar o plano e quais seus objetivos, conversamos com Maria Neira, diretora de saúde pública e meio ambiente da OMS, que destacou a importância de ações no combate a essas doenças.

Maria Neira, diretora de saúde pública e meio ambiente da OMS (divulgação).

Pré-Univesp: Como vai funcionar o Plano Global da OMS para eliminar as doenças tropicais negligenciadas (DTNs)?  Ele já está andamento?

Maria Neira: É uma questão de juntar esforços da OMS com as pessoas e instituições que trabalham no combate às doenças tropicais negligenciadas e oferecer acesso à água potável e saneamento às populações mais vulneráveis. É nesses locais que temos que reforçar nossa atuação. Com isso, vamos conseguir dar um bom impulso para a erradicação das doenças tropicais negligenciadas. Fazer este plano estratégico é beneficiar essas populações com o objetivo de interromper a transmissão dessas doenças, como dengue e tracoma (ver infográfico nessa edição), que tem bastante relação com a higiene. O plano já começou a funcionar: já apresentamos a muitos governos, ONGs e parceiros que trabalham conosco e, a partir de agora, é uma questão de avançar o mais rápido possível.

Pré-Univesp: Quais as principais ações para combater as DTNs?

Maria Neira: São ações em nível nacional. Queremos que os ministros da saúde trabalhem articulados com ministros das áreas de água e saneamento. Depois vamos reunir informações sobre as localidades que não têm acesso à água potável. Sabemos que mais de 1 bilhão de pessoas não têm saneamento básico e já temos um mapa muito claro de onde temos essas dificuldades e são essas localidades onde queremos reduzir as desigualdades. Levar água potável para essas populações, além de ser importante no combate a essas doenças, vai trazer outros benefícios, como eliminar o sofrimento de muitas pessoas que perdem horas em busca de água e vai melhorar ainda as condições de saúde e de educação.

Pré-Univesp: Quais são as doenças tropicais negligenciadas e quais suas principais causas?

Maria Neira: São doenças como tracoma, dengue, esquistossomose, leishmaniose, lepra, todas têm uma relação com os vetores transmissores e com a pobreza porque elas incidem mais frequentemente em lugares onde a população tem dificuldade de acesso à higiene, água potável e a saneamento.

Pré-Univesp: Quais as regiões do mundo mais afetadas pelas DTNs?

Maria Neira: O problema com as doenças tropicais negligenciadas é global, mas está, sobretudo, na África. Ásia e América Latina também apresentam números preocupantes, com elevados índices de casos de dengue, por exemplo.

Pré-Univesp: Quantas pessoas são atingidas por dessas doenças? Qual a faixa etária que mais sofre?

Maria Neira: Ainda temos mais de 1 bilhão de pessoas afetadas por essas doenças que causam incapacidades crônicas e também mortes. Elas afetam populações que já estão muito vulneráveis e contribuem também para a marginalidade de muitas pessoas, ou seja, contribuem para a desigualdade social. Dependendo da doença, pode afetar mais crianças, como os casos de leishimaniose, já a lepra acomete mais adultos, mas sempre são doenças ligadas à pobreza.

Pré-Univesp: O plano da OMS será viável em países envolvidos com guerras civis?

Maria Neira: Nos países em guerras a OMS trabalha em campanhas de vacinação. É sempre muito mais difícil. É uma questão de analisar as prioridades para saber como vamos entrar nesses países. Como é uma questão de levar água potável e saneamento, serviços tão básicos, isso tem que ser assegurado para as populações dentro do possível mesmo em um cenário de guerra.

Pré-Univesp: As mudanças climáticas podem aumentar o problema com as DTNs em algumas regiões do mundo?

Maria Neira: Com certeza. Se a temperatura aumenta, vai favorecer esses vetores que transmitem as doenças como a dengue. Com as mudanças climáticas, vai haver mais dificuldade de ter acesso à água potável porque as fontes de água vão ficar mais escassas. Está tudo muito ligado. Temos evidência de que as mudanças climáticas vão aumentar os casos dessas doenças se nós não tivermos uma resposta adequada.