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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Expansão de mina de ouro em Paracatu, Minas Gerais. Reprodução Fotos Públicas
Por Por Nicolau Schoenmaker
17/2/16

Geólogo e diretor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roberto Perez Xavier concedeu entrevista à revista Pré-Univesp. Ele explica em que consiste a atividade de mineração, seus custos e etapas. Explica ainda como reduzir os impactos ambientais e minimizar os riscos dessa atividade por meio de avanços tecnológicos e através de marcos regulatórios. Finalmente o geólogo destaca a dependência que a sociedade moderna em relação à extração de minérios, e chama a atenção para o fato de que esses recursos são finitos.

Crédito: Antoninho Perri – Ascom – Unicamp

Pré-Univesp: Qual o conceito de mineração?

Roberto Xavier: Alguns tipos de rochas e de minerais que ocorrem na crosta do planeta Terra são úteis economicamente e isso faz com que eles sejam valiosos no mercado. Essas rochas e minerais de valor são chamados de minérios. A mineração é a atividade de extração de minérios da crosta terrestre que posteriormente são beneficiados para serem utilizados de forma direta ou indireta no atendimento das necessidades da sociedade moderna. Por exemplo, rochas e minerais podem conter metais importantes, tais como ferro, alumínio, zinco, cobre, manganês, ouro, prata, platina, nióbio, titânio etc., que são extraídos para aplicações industriais e tecnológicas.

Figura 1: O mineral hematita (óxido de ferro), maior fonte de ferro do planeta. Crédito: Divulgação
 
Minério de cobre representado pelo mineral calcopirita (sulfeto de cobre e ferro, cor amarela) da mina de cobre de Sossego, Carajás (PA). Crédito: Divulgação.

Rochas e minerais também podem apresentar propriedades físicas e químicas especiais para a indústria da construção civil, como argilas, talco, areia e brita, ou para aplicações na agricultura como no caso dos minerais de potássio (sais minerais), fósforo (apatita – fosfato de cálcio – fosfato de cálcio; e calcário (rocha rica em carbonato de cálcio). 

O mineral apatita (fosfato de cálcio), minério de fosfato para uso na indústria alimentar e para a agricultura. Crédito: Divulgação
 

Pré-Univesp: A exploração de água e petróleo também são atividades da mineração?

Roberto Xavier: A mineração abrange a extração, elaboração e beneficiamento de recursos físicos da crosta terrestre que se encontram no seu estado natural sólido (minerais e rochas), mas também líquido, como o petróleo bruto e água, e gasoso, como o gás natural. 

Pré-Univesp: Sem a mineração o mundo seria outro? Qual sua importância?

Roberto Xavier: A mineração vem sendo exercida pelo homem desde a pré-história: extração de argila para confecção de artefatos de cerâmica, o uso de rochas resistentes para fabricar armas e objetos de corte, além do uso de pigmentos para pinturas e inscrições rupestres. A mineração é uma das principais atividades responsáveis pela produção e distribuição de matérias-primas para fabricar mercadorias. O mundo é altamente dependente dos bens minerais extraídos e beneficiados na mineração. Vejamos alguns exemplos: (1) a montagem de um automóvel utiliza aproximadamente 39 minerais e metais diferentes, enquanto a de um computador necessita de 66 minerais na sua constituição; (2) uma lâmpada contém filamentos de tungstênio e sílica, fios de cobre são utilizados nas redes elétricas; (3) ao escovar os dentes consumimos compostos de cálcio, titânio e magnésio; (4) o piso ou pia do banheiro de sua casa foi confeccionado utilizando diferentes tipos de argilas. Todos esses produtos são provenientes direta ou indiretamente da mineração. É importante salientar que os minérios (rochas, minerais, petróleo, água, etc.) extraídos na mineração não podem ser repostos ou regenerados pela natureza em uma escala comparada a do seu consumo ou no nosso tempo de vida, sendo, portanto, finitos. 

Pré-Univesp: Quais são as etapas dessa atividade?

Roberto Xavier: A etapa inicial de um empreendimento minerário é a localização de concentrações anômalas de minerais ou rochas na crosta terrestre que contenham elementos ou substâncias que possam ser extraídos para fins econômicos. Essas concentrações – também denominadas depósitos minerais – se formaram devido a uma série de processos geológicos ao longo da história do nosso planeta. Quando têm sua comprovação econômica definida, os depósitos minerais são classificados como jazidas. Esta comprovação é feita por meio de estudos geológicos, o que inclui mapeamento geológico com auxílio de imagens de satélite e análises químicas de rochas para a seleção de áreas com anomalias e potencial para conter depósitos minerais. Uma vez selecionadas estas áreas, são empregadas outras técnicas para detalhamento das anomalias, como sondagens rotativas, instalação de poços de pesquisa, trincheiras. Todo esse trabalho visa confirmar, com um nível razoável de segurança, a existência, extensão, profundidade, concentrações (ou teores) dos elementos de interesse e tonelagem total (reserva) do depósito mineral. A etapa final consiste em definir se a extração e beneficiamento do minério serão lucrativos ou não. Com esta questão econômica definida, inicia-se a atividade de mineração propriamente dita. A extração de minerais e rochas pela mineração ocorre de forma mecanizada em minas que podem se localizar no subsolo (minas subterrâneas) ou na superfície (minas a céu aberto), como no caso de pedreiras.

Mina subterrânea de cobre da mina de Caraíba (BA). Crédito: Divulgação

Pré-Univesp: Como é determinada a viabilidade econômica para a exploração? Quais são os custos envolvidos?

Roberto Xavier: A viabilidade econômica de depósito mineral, ou seja, se vai se tornar jazida ou não, depende de uma série de fatores geológicos, técnicos e de mercado. Fatores geológicos incluem a concentração mínima do elemento ou substância no minério para que haja lucro na sua extração. Os fatores técnicos envolvem o tipo de extração (mina subterrânea ou a céu aberto) e custos envolvidos nesta atividade (equipamentos e mão de obra), tipo de beneficiamento e métodos metalúrgicos a serem utilizados, além da restauração ambiental após a exaustão da mina. Já os fatores de mercado têm a ver com a relação preço do metal ou substância no mercado internacional versus o custo estimado de extração do minério. Além disso, a localização geográfica da futura mina e a situação política da região ou país onde a mina será implantada também podem influenciar na decisão se valerá ou não a pena investir em um empreendimento de mineração. Logo, considerando as etapas envolvidas e os fatores que determinam a economicidade de uma mina, a mineração é considerada uma atividade cara, complexa e de retorno não imediato. Os custos envolvidos na abertura de uma mina variam de forma significativa, a depender se a mineração for de grande ou pequena escala, mas em geral encontram-se na ordem de dezenas a centenas de milhões de dólares a dezenas de bilhões de dólares.

Pré-Univesp: Como as tecnologias atuais podem impedir ou minorar problemas ambientais como contaminação, erosão etc.?

Roberto Xavier: A implantação e operação de uma mina subterrânea ou a céu aberto afetam o meio ambiente. De uma forma geral, a depender de sua escala e do tipo de minério a ser extraído, a mineração pode implicar a derrubada de árvores em áreas de floresta, erosão, emissão de poeira ou gases na atmosfera, poluição sonora ou mesmo riscos de contaminação de águas superficiais e subterrâneas por metais (mercúrio, arsênio, chumbo) ou substâncias químicas (acido sulfúrico, cianeto) que têm potencial para afetar flora, fauna e as comunidades no entorno. A história da mineração tem exemplos de áreas que foram abandonadas sem o devido cumprimento das normas ambientais após o término de exploração da mina. Apesar disso, avanços na legislação quanto a questões ambientais, a tecnologia e mudanças em técnicas de gerenciamento por parte das empresas de mineração têm reduzido consideravelmente os impactos ambientais desta atividade ao longo do ciclo de vida de uma mina. Uma mineração que se inicia hoje tem que ter um impacto ambiental negativo 60% a 70% menor que uma mineração que começou a operar há 20 anos atrás. A mineração é uma atividade temporária e sua vida útil pode durar de alguns anos a várias décadas. Durante a sua operação as empresas devem ter mecanismos para o controle da qualidade da água, ar e ruído na área de influência da atividade da mina. Além disso, após sua vida útil, as empresas também devem ter programas de restauração do meio ambiente no entorno da área da mina.

Pré-Univesp: Quais são os benefícios gerados por essa atividade econômica?

Roberto Xavier: Uma vez em operação, a mineração tende a ser uma fonte expressiva de geração de renda e de emprego, colaborando com a modernização da infraestrutura econômica e social nas comunidades localizadas no seu entorno, contribui com o pagamento de impostos no nível municipal, estadual e federal, promove a expansão da oferta de mão-de-obra qualificada e empreendedora, dinamizando as atividades comerciais locais, atrai a instalação de redes de ensino técnico e superior para formar futuros profissionais, contribuindo para e elevação do nível socioeconômico das comunidades envolvidas.