Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Juan Mattheus
13/1/16

A introdução da pecuária na Amazônia remonta ao século XIX e tinha por objetivo suprir as necessidades dos centros urbanos na Região Norte. Em idos do século XX, a partir de projetos que envolviam agropecuária, a atividade adentrou a floresta tendo como suporte o lema “integrar para não entregar”. Para se ter uma ideia, somente entre os anos 1990 e 2005 houve um aumento de 40% no rebanho brasileiro, segundo o IBGE. Isso fez com o Brasil se tornasse o maior exportador de carne bovina do mundo. Esse aumento o rebanho vem ocorrendo principalmente na Amazônia, com o desmatamento de novas áreas para criação de pasto. Para falar sobre isso e outros aspectos da pecuária na Amazônia conversamos com Paulo Barreto, pesquisador sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), engenheiro florestal e mestre ciências florestais pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos.

 

Pré-Univesp: Porque a Amazônia é tão visada para a pecuária?

Paulo Barreto: São vários motivos cuja importância tem variado ao longo do tempo. Para incentivar a colonização da região na década de 1970, o governo federal subsidiou e incentivou o desmatamento. Quem realizasse benfeitorias – entenda-se desmatamento – teria direito ao título da terra. A pecuária extensiva (sem muitos cuidados e infraestrutura) é uma forma barata de ocupar a área, pois basta derrubar a floresta e plantar capim. A criação de gado é uma atividade possível de ser realizada em regiões com infraestrutura escassa e com baixa tecnologia. Por exemplo, se a estrada está intransitável, o pecuarista pode levar o gado caminhando até o ponto de venda ou pode adiar a venda. Isso é inviável na agricultura porque os produtos têm um prazo para colheita que não é possível adiar. Nesse sentido, a pecuária tem um risco relativamente menor do que a agricultura. Por esses motivos, a pecuária – plantio de pastos – também é usada para a apropriação de terras públicas. Ou seja, a pessoa desmata uma terra pública para depois tentar obter ou forjar documentos e se tornar proprietário legal da área. O baixo custo e a flexibilidade da pecuária facilitam esta ocupação. Um efeito colateral deste tipo de ocupação é que existem muitos pastos mal utilizados na região Norte. Na Amazônia, em 2012, cerca de 10 milhões de hectares de pastos estavam sujos – ou seja, com pouco capim –, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Pré-Univesp: Qual a relação entre pecuária, desmatamento e mudanças climáticas?

Paulo Barreto: A maioria da área desmatada, cerca de 65%, é ocupada por pastos segundo dados do Inpe e Embrapa. O desmatamento leva a emissão de gases do efeito estufa, quando a vegetação é queimada para limpar o solo. Por exemplo, a queima da área desmatada na Amazônia em 2014 emitiu gás carbônico equivalente a 2,1 vezes a emissão de todos os 50 milhões de automóveis existentes no Brasil. A pecuária também contribui para as mudanças climáticas devido a emissão de gases pelo gado. Como animal ruminante, o gado bovino emite gás metano durante a digestão. Este gás tem um potencial de aquecimento da atmosfera que é cerca de 25 vezes maior do que o gás carbônico. Como o rebanho do Brasil é de aproximadamente 212 milhões de reses (animais que são abatidos para consumo), as emissões da pecuária são expressivas: aproximadamente 23% do total do Brasil em 2014, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg).

Pré-Univesp: De acordo com o IBGE, a pecuária no Brasil cresceu cerca de 40% somente no período de 1990 a 2005. Se essa tendência continuar, quais seriam os principais efeitos na região amazônica? É possível realizar a atividade pecuária de forma sustentável, sem degradar a floresta?

Paulo Barreto: O rebanho bovino poderia continuar a crescer sem aumentar o desmatamento no Brasil e na Amazônia. Isso seria possível aumentando a produtividade (quanto é produzido em uma área) nas áreas já desmatadas. Já existem tecnologias que permitem aumentar a produtividade de cerca de 80 kg de carne por hectare por ano para 300 kg de carne por hectare por ano, sem desmatar.

Pré-Univesp: O Sistema de Desmatamento da Amazônia (SAD) apontou que houve uma redução de 5% no desmatamento em 2015, em relação da 2014: de 244 km2 para 230 km2. Quais foram as causas dessa diminuição?

Paulo Barreto: Esse número é apenas do mês de outubro de 2015. Portanto, não representa bem a tendência geral. O último número oficial divulgado pelo Inpe, que cobre o ano todo de medição (agosto de 2014 até julho de 2015), mostrou o aumento de 16% na taxa do desmatamento em comparação com o período anterior. Esse aumento parece refletir o fato de que o preço do gado aumentou 22% no ano anterior. Além disso, a realização de grandes obras de infraestrutura, como a construção de hidrelétricas,  envolve o desmatamento direto, na construção, e o indireto, ao atrair imigrantes. Finalmente, o governo federal e alguns governos estaduais reduziram unidades de conservação nos anos anteriores. O desmatamento nas áreas que foram excluídas da proteção aumenta expressivamente.

Pré-Univesp: Quais as opções para conciliar o eventual crescimento da pecuária com a conservação ambiental e ecológica?

Paulo Barreto: O aumento da produtividade requer vários investimentos, que incluem melhorar a produção do pasto, fazer com que o gado aproveite melhor o pasto existente e treinar a mão de obra. Por exemplo, em muitas fazendas o pasto é mal dividido, daí o gado come apenas em áreas próximas das fontes de água enquanto o capim das áreas mais distantes fica inaproveitável. Para melhorar o aproveitamento desse alimento, é necessário dividir melhor os pastos e disponibilizar água (em tanques) de maneira uniforme em toda a fazenda. Além disso, para assegurar a conservação, é necessário manter parte da vegetação nativa na fazenda. Por exemplo, as margens dos rios e os terrenos mais inclinados, chamados de Áreas de Preservação Permanente – (APP) segundo o Código Florestal –, devem ser mantidos para assegurar a proteção do solo, da água e dos animais. Além disso, uma porção da vegetação nativa, chamada de Reserva Legal, que pode ser de 50% ou 80% na Amazônia, deve ser mantida independentemente da condição do solo.

Pré-Univesp: Na sua opinião, o sistema de fiscalização do desmatamento no Brasil é eficiente?

Paulo Barreto: É parcialmente eficiente. A aplicação maior da lei ajudou a reduzir o desmatamento em cerca de 80% entre 2005 e 2012. Desde então, o desmatamento tem ficado em torno de cinco a quase seis mil km2 por ano. Um indicador simples da ineficiência: menos de 2% do valor das multas ambientais no Brasil são pagas.