Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Afresco na Tumba do Mergulhador, em Pesto, Itália, século V a.C. Reprodução Wikipédia.
Por Patrícia Mariuzzo e Erik Nardini
27/7/16

Luiz Mott é o fundador e presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB). É doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre pela Universidade Sorbone, de Paris. Mott, como é conhecido, já escreveu diversos livros sobre escravidão, homossexualidade e religião bem como publicou diversos artigos em jornais e revistas especializadas sobre estes temas. Hoje aposentado, foi professor de Antropologia na Universidade Federal da Bahia, UFBA. Sua história de vida confunde-se com a história de sua militância sendo reconhecido mundialmente pelo trabalho em defesa dos direitos da comunidade LGBT. Nesta entrevista para a revista Pré-Univesp, ele fala homofobia, sobre a atuação do Grupo Gay da Bahia e critica as políticas públicas brasileiras, ainda incapazes de tirar o Brasil de um triste ranking, o primeiro lugar em violência contra os LGBT

O antropólogo e historiador Luiz Mott. Reprodução.

PRÉ-UNIVESP: Sabemos que a forma como a sociedade vê relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo tem variado ao longo da história. Qual a origem do conceito de homossexualidade como o conhecemos hoje?

LUIZ MOTT: O escritor alemão Goethe (1749-1832) dizia que a homossexualidade é tão antiga quanto a própria humanidade. Já o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), afirmava que a homossexualidade faz parte da própria natureza por conta da sua universalidade e indestrutibilidade, apesar de toda repressão. De fato, a homossexualidade foi documentada em mais de 300 espécies de animais. Existem documentos de mais de quatro mil anos referindo-se ao amor entre o deus egípcio Hórus e Seth, bem como referências durante toda a Antiguidade, na Grécia, Japão, China e entre indígenas na América do Norte e do Sul, comprovando a prática do homoerotismo. Durante a Idade Média houve muita perseguição contra os sodomitas, como eram chamados os homossexuais, o fato é que foi somente no século XIX que se cria a palavra homossexual e se passa a classificar através da ciência da sexologia as diferentes condutas humanas como por exemplo, bissexualidade, heterossexualidade, a homossexualidade e outras práticas chamadas de perversões ou parafilias sexuais. Como historiador e antropólogo, eu considero que é perfeitamente aceitável e epistemologicamente correto o uso da palavra homossexual ou homoerotismo para se referir ao comportamento dos homens e mulheres da Antiguidade ou das sociedades tribais da África e das Américas que amavam pessoas do mesmo sexo. Há uma corrente de intelectuais e militantes LGBT que acham impróprio o uso da palavra homossexual fora do século XX. Em minha opinião, nós temos que valorizar nos nossos heróis desde o tempo de Sócrates, Alexandre Magno, Tchaikovsky, Oscar Wild que, embora não usassem o termo homossexual, mantinham relações homoeróticas. É importante resgatar o nosso passado porque existe no mundo um verdadeiro complô de silencio sobre “o amor que não ousava dizer o nome”, para usar uma frase que o escritor Oscar Wild utilizava para se referir à homossexualidade. Eu defendo que se use o termo homossexual em TODOS os contextos históricos e culturais.

Fragmento de escultura grega. Reprodução.
 
PRÉ-UNIVESP: Recentemente um atentado em uma boate LGBT, em Orlando, nos Estados Unidos, resultou na morte de dezenas de pessoas? A homofobia remete a um medo irracional da homossexualidade, com uma conotação profunda de repulsa, total aversão, mesmo sem motivo aparente. Quais seriam as raízes da homofobia?

LUIZ MOTT: A homofobia foi um conceito criado apenas em 1967 por um psicólogo norte americano chamado George Weinberg. Hoje, no entanto, os grupos LGBT, ao invés de usarem esse termo como um conceito guarda-chuva, que engloba todas as discriminações contra as diferentes tribos do segmento LGBT, preferem LGBTfobia ou homotransfobia. A origem da homofobia ou da LBGTfobia no Ocidente tem a ver, infelizmente, com a tradição judaico-cristã. No Antigo Testamento, no livro “Levítico”, está escrito que o homem que dormir com outro homem, como se fosse mulher, deve ser apedrejado. Esse trecho foi interpretado de uma maneira fundamentalista, ou seja, ao pé da letra. É importante notar que não há nenhuma referência à mulher que dormisse com outra mulher, o que prova a insignificância do sexo feminino na tradição judaico-cristã. O cristianismo, sobretudo através do apóstolo Paulo, recuperou essa intolerância do Antigo Testamento contra os sodomitas. E durante a Idade Média, sobretudo a partir do século XIV, a igreja católica e depois a protestante, lideraram a perseguição contra o chamado mau pecado ou abominável e nefando pecado de sodomia.No caso de Portugal, por exemplo, em 1536 é instalada a Inquisição, ou Tribunal do Santo Ofício, que passou a perseguir os sodomitas, especialmente os homossexuais masculinos. As lésbicas, a partir do século XVII, não são mais julgadas pela Inquisição, mas seguem sendo perseguidas pela justiça civil. Em síntese, podemos afirmar que a homofobia tem raízes na tradição bíblica que, ao ser interpretada de maneira fundamentalista, considerou que o amor entre pessoas do mesmo sexo era causador da ira divina que castigava a terra com pestes, inundações e secas. Esse preconceito se espalhou por toda a sociedade e hoje, quando um pai como o deputado Jair Bolsonaro afirma que preferiria um filho morto do que um filho gay, ele está reproduzindo essa ideologia do Antigo Testamento de quatro mil anos. 

PRÉ-UNIVESP: Por que há tantos casos de homofobia no Brasil?

LUIZ MOTT: No caso específico de países escravocratas, como o Brasil e outros países latino americanos, como os donos do poder, os machos brancos, eram uma minoria que tinha que dominar todas as mulheres, todos os escravos e índios, era fundamental que esse homem americano fosse extremamente violento, muito mais do que o português ou espanhol, na Península Ibérica. Portanto, um homem efeminado ou que se travestisse era uma ameaça à hegemonia não somente dos próprios machos brancos, mas à continuidade da colonização em uma sociedade onde a maioria da população era de cor, escravizada e explorada. É por isso que nos países latino americanos a violência homofóbica é muito mais cruel do que nos países europeus. Claro que existe o fato de que na Europa os direitos humanos são mais respeitados e as igrejas católica e protestante, durante muitos séculos, reprimiram condutas violentas (embora seguindo a lógica ódio ao pecado da homossexualidade e amor ao pecador para converter essas pessoas). O certo é que a América do Sul e particularmente o Brasil, se tornaram líderes mundiais em violência contra os homossexuais. Aqui, a cada 28 horas, um LGBT é barbaramente assassinado, vítima de intolerância, de um crime de ódio. Em 2015 foram assassinadas 338 pessoas LGBT. Esse ano já são 176. São Paulo já tem 25 casos e a Bahia, 22, o que é extremamente preocupante se pensarmos que a Bahia tem uma população quatro vezes menor do que São Paulo e quase o mesmo número de assassinatos. A terra da felicidade como é chamada a cidade de Salvador, é, na verdade, a terra da infelicidade para as pessoas LGBT. Bahia rimando com homofobia e não com alegria e com cidadania.

PRÉ-UNIVESP: O senhor pode enumerar quais seriam as medidas urgentes para que gays, lésbicas e transgêneros brasileiros tenham sua plena cidadania respeitada?

LUIZ MOTT: Consideramos que, para erradicar a homotransfobia em nosso país, quatro medidas são fundamentais:

  • Educação sexual e científica em todos os níveis escolares. Ensinar a verdade sobre sexo, a livre orientação sexual e sobre o papel de gênero das travestis e transexuais.
  • Políticas públicas que garantam segurança nos espaços frequentados pela população LGBT, atendimento de saúde, contra o HIV e a AIDS, enfim que garantam cidadania plena para essa população que representa por volta de 10% dos brasileiros.
  • Legislação severa que equipare a homofobia ao racismo, punindo exemplarmente as violações dos direitos humanos da comunidade LGBT.
  • Finalmente, um apelo à própria comunidade de gays, travestis, lésbicas que afirmem sua identidade, tenham orgulho e coragem para trocar carinhos com seu parceiro em público, da mesma forma que os heterossexuais e que, ao mesmo tempo, se protejam, não se exponham a situações de risco desnecessariamente. Esses cuidados estão reunidos em um texto no site do Grupo Gay da Bahia, intitulado “Gay vivo não dorme com o inimigo”.

PRÉ-UNIVESP: Pode nos contar um pouco da história da militância LGBT no Brasil?

LUIZ MOTT: As primeiras reações contra a homofobia surgiram já no período colonial. Alguns gays protestaram contra as prisões. Aqui na Bahia houve um “fanchono” que destruiu os processos que o condenariam pela prática da sodomia. Era o que o historiador marxista, Eric Hobsbawm (1917-2012) chamou de rebeldes primitivos. É somente em 1969 que, em um bar chamado Stone Wall, em Nova York, Estados Unidos, surge o moderno movimento gay, protestando contra as prisões arbitrárias que a polícia fazia nas boates e bares gays. A partir daí surge o dia do orgulho gay, com as paradas, passeatas em todos os lugares. No Brasil, o movimento surge oficialmente no final dos anos 1970. Em São Paulo é fundado o grupo “Somos”. Em 1980, eu fundei o Grupo Gay da Bahia, em Salvador, que já completou 36 anos de militância LGBT. É o grupo mais antigo do Brasil. Hoje existe a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT), uma rede nacional de 308 organizações afiliadas. É a maior rede LGBT na América Latina. O Grupo Gay da Bahia tem uma sede no Pelourinho, onde recebe muitos gays, travestis que buscam informações, estudantes que fazem pesquisas, ou pessoas que vão buscar preservativos. Nós produzimos um vasto material sobre direitos humanos da comunidade LGBT. Mantemos também o maior banco de dados do mundo sobre assassinatos de LGBTs, atualizado diariamente e mantido sem nenhum recurso do Estado. Os dados estão disponíveis no site: Quem a homotransfobia matou hoje?

Crédito: Acervo Fotos Públicas.

PRÉ-UNIVESP: Pode falar da atuação do Grupo Gay da Bahia?

LUIZ MOTT: Desde que eu fundei o Grupo Gay da Bahia, em 1980, eu considerei importantíssimo e documentar os assassinatos de homossexuais LGBT já que o Estado nunca fez essa estatística e fazer uma campanha pela despatologização do homossexualismo. Fizemos um abaixo-assinado envolvendo personalidades como Fernando Henrique Cardoso, o historiador Raimundo Faoro e ainda deputados, senadores e intelectuais e conseguimos que o Brasil, cinco anos antes que Organização Mundial da Saúde (OMS), retirasse a homossexualidade da classificação internacional de doenças no nosso país. A partir daí, então, nós consideramos que também era fundamental que a homofobia fosse criminalizada igual o racismo. Não há nenhuma lógica que alguém que insulte um negro seja preso de forma inafiançável e uma pessoa que insulte ou espanque um LGBT não tenha uma caracterização de crime de ódio para esse tipo de agressão.

PRÉ-UNIVESP: Como você avalia as políticas para o público LGBT no Brasil?

LUIZ MOTT: Infelizmente o Brasil é campeão mundial de assassinatos de LGBTs no mundo. A situação é tão grave que são mortos em média 300 LGBT por ano em nosso país. Nos Estados Unidos, com uma população com 100  milhões de pessoas a mais que brasileira, são 20 mortes por ano. Isso mostra a importância da intervenção do poder público para garantir a sobrevivência dessa população. Gay no Brasil morre ou assassinado ou de AIDS por falta de políticas que conscientizem e protejam esse segmento populacional. Embora a visibilidade LGBT seja maior nos últimos anos, que tenha aumentado a repercussão das paradas gays, a presença de travestis no carnaval e em ambientes públicos e tenha surgido cenas de um homoerotismo leve na televisão, o certo é que o Brasil, em termos de políticas públicas, não realizou o que prometeu. Dois exemplos recentes que considero graves foram a proibição da distribuição do kit anti-homofobia nas escolas e o arquivamento, no ano passado, do Projeto de Lei 122, que criminalizava a homofobia.