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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Por Patrícia Mariuzzo e Victória Flório
14/12/16

Quando tinha 12 ou 13 anos, ela leu uma notícia sobre a inauguração do planetário em São Paulo. Encantada com a possibilidade de explorar o céu, ela decidiu: é isso que eu quero fazer. Estamos falando da astrofísica Sueli Viegas. Graduada em Física pela Universidade de São Paulo (1965) e com doutorado em Astronomia pela Université de Paris VII (1973), ela foi professora-titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas  (IAG/USP), hoje aposentada. Tem trabalhado em várias áreas da Astronomia, em particular, em galáxias, quasares e meio interestelar, atuando principalmente nos seguintes temas: núcleos ativos de galáxias, quasares e a estrutura do universo, regiões de formação estelar e nebulosas planetárias, assim como mecanismos físicos de emissão e absorção de energia. Em 2005, recebeu o título de Pesquisador Emérito do CNPq. Dedica-se também à divulgação científica da Astronomia, com várias livros e artigos publicados. Fã de ficção científica, nesta entrevista para a revista Pré-Univesp, ela fala sobre seu gosto por levar seu conhecimento de Astronomia para além da academia e sugere que as escolas deveriam ensinar astrofísica para aproveitar uma curiosidade natural que as pessoas têm pela origem do universo.

 

Pré-Univesp: Você se graduou e fez mestrado no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP, 1965), em uma década muito produtiva para as ciências físicas, entre o primeiro homem no espaço (Gagárin - 1961) e o primeiro homem a pisar na Lua (Armstrong - 1969) passaram-se apenas oito anos. Como e por que resolveu mudar sua área para a astronomia?

Sueli Viegas: Na verdade, desde pequena eu queria estudar o céu. Passei minha infância em Botucatu, meu pai era médico e ele assinava dois jornais, a Folha de S.Paulo e o Estadão. Quando eu tinha 11 ou 12 anos, li uma notícia sobre a inauguração do planetário em São Paulo (trata-se do Planetário Aristóteles Orsini, inaugurado em janeiro de 1957, no Parque do Ibirapuera. Foi o primeiro planetário do Brasil). No final da reportagem dizia que se uma pessoa quisesse ser astrônoma ela teria que estudar física ou matemática, porque não havia o curso de astronomia no Brasil. Isso ficou na minha memória. Depois que meu pai faleceu, minha família se mudou para São Paulo e, quando eu estava no segundo ano do ensino médio dois professores de física me ajudaram muito. Ao final, eu já sabia o que eu queria fazer: astronomia. Prestei vestibular na USP e entrei em uma turma de 30 pessoas. Nos dois últimos anos do curso eu fiz um estágio no Observatório da USP. Meu mestrado foi em teoria de campo. Somente depois, eu segui para a França onde iniciei meu doutorado em astrofísica, com um dos maiores nomes da área, o astrofísico e matemático Evry Schatzman, com quem eu passei a estudar a origem do universo e a formação das galáxias. Foi um caminho em que eu tive muita liberdade, eu fui navegando até achar o que eu queria fazer, algo fundamental no meu percurso.

Pré-Univesp: Tanto em seus anos de formação na USP, como na atualidade, o Brasil e o mundo passam por momentos delicados. Você acha que esses momentos interferem na produção científica?

Sueli Viegas: A ditadura foi uma fase muito difícil para a pesquisa brasileira. A pesquisa depende de total liberdade, uma vez que você não pode discutir tudo, isso compromete a produção científica. Eu presenciei algo complicado na USP quando os militares fecharam uma livraria russa que existia dentro do campus. É algo pequeno, diante dos graves problemas que aconteceram, mas mostra que alguns eventos limitam a pesquisa. Há também as questões econômicas: a pesquisa é algo cujos resultados acontecem em longo prazo. Por isso os investimentos têm que ser contínuos. Existe a pesquisa básica, que pode gerar algum tipo de tecnologia, que, por sua vez, pode gerar novas pesquisas. É como uma roda que não pode parar.

Pré-Univesp: Você já ocupou muitos cargos importantes em sua carreira científica (chefe de departamento, assessor do CNPq nas áreas de física e astronomia, etc.). Qual o espaço das mulheres na pesquisa em astronomia e como foi para você buscar e ocupar um espaço nesses meios, também como administradora?

Sueli Viegas: Como eu mencionei antes, meu pai era médico em Botucatu, interior de São Paulo, em uma época em que as meninas eram enviadas para colégios de freira e os meninos para o ginásio. Mas meu pai fez diferente e isso me marcou profundamente. Ele dizia que as escolas públicas eram as melhores e, portanto, era onde nós deveríamos estudar. Ele nunca diferenciou homens e mulheres e acho que eu aprendi isso com ele. Eu nunca pensei que ser mulher fizesse diferença. Eu fiz tudo o que homens fizeram e as vezes isso, de fato, incomodava. No CNPq, onde fui assessora para seleção de pesquisas, eu era a única mulher em um grupo de oito pessoas. E, ao longo da minha carreira, eu encontrei poucas mulheres. Há dados que mostram que apenas 30% dos astrônomos são mulheres. Em cargos de comando é bastante raro. Muitas vezes as mulheres têm que se “disfarçar” de homens para trabalhar, como se os atributos femininos fossem ofensivos. Minha estratégia era a ironia e a brincadeira, nunca o confronto. Quando você quer alguma coisa, você tem que seguir em frente!

Pré-Univesp: Como avalia o nível de envolvimento e entendimento na sociedade brasileira com a pesquisa científica hoje (especialmente na astronomia)?

Sueli Viegas: No caso da astronomia existe um grande interesse das pessoas de modo geral por conta da beleza. É uma diferença em relação a outras áreas da ciência: desvendar a origem do universo e o infinito. O entendimento não é o ideal. Uma das razões pode ser o afastamento do currículo escolar em relação à astronomia. Os professores não têm essa formação. Precisaria mudar o currículo das escolas. Basicamente, os alunos estudam o movimento da terra ao redor do sol, a lua ao redor da Terra, um conteúdo que é parte do que chamamos de astronomia fundamental. A questão é que quando olhamos para o céu, nós vemos muito mais, são estrelas que se movem e que se modificam. Nosso olhar alcança muito mais. Mas, infelizmente, as escolas não estão preparadas para isso. Eu defendo a ideia de capacitar os professores em astrofísica. Astronomia pode ser uma ótima ferramenta para ensinar os conceitos de física. Sobre isso, eu, juntamente com dois colegas do IAG estamos organizando um livro com atividades para ensino de física por meio da astronomia. A previsão é que seja lançado no primeiro semestre do ano que vem. Temos um problema de base que é a má qualidade da escola pública. Eu frequentei ótimas escolas públicas. Mas hoje temos um ensino público destruído. A pessoa tem que aprender a pensar desde cedo. No Brasil tivemos a destruição da escola pública, especialmente a partir da ditadura. A população que não pode frequentar uma escola particular deixa de contribuir como poderia. Todo o país perde com isso, em vários aspectos.

Pré-Univesp: Quais foram as principais motivação e inspiração para lançar a coleção Jogo do Universo?

Sueli Viegas: Eu queria escrever um texto sobre divulgação de astronomia, contar a história da origem do universo. Não pensei em um público com idade específica, mas em produzir um texto com linguagem simples em um texto informativo e leve. No caso do primeiro volume, “No início tempos”, 2009, as ilustrações complementam o texto de forma bastante harmoniosa, foi um grande desafio porque tratava-se de representações de algo bastante abstrato. Eu dividi o projeto em quatro partes, pensando episódios separados. O primeiro livro aborda o início do universo até a formação das primeiras partículas. Depois, no livro “Entre estrelas e galáxias”, as partículas se juntam para formar as galáxias. No terceiro livro “Um passeio pela Via Láctea”, eu abordo a formação da Via Láctea e, finalmente, no último livro chego no Sistema Solar. Para isso eu usei a figura do próton, uma partícula inicial, que conta sua própria história.

Pré-Univesp: Como foi a recepção da coleção Jogo do Universo?

Sueli Viegas: O primeiro livro foi finalista do Prêmio Jabuti de 2010 na categoria paradidáticos. Nos fascículos seguintes a editora teve problemas para divulgar o livro, o que comprometeu as vendas. Temos essa dificuldade no Brasil, que é ainda maior no caso de livros de divulgação de ciência, de fazer uma conexão com as escolas, alunos e professores.

Capa do quarto livro da série " O jogo do universo". A autora utiliza metáforas para facilitar a compreensão de temas complexos.

Pré-Univesp: Que elementos você acha indispensáveis em um bom texto sobre o assunto. Os títulos dos livros da coleção Jogo do Universo, por exemplo, são cheios de comparações e metáforas.

Sueli Viegas: O título tem que ser chamativo. A metáfora é muito importante, embora nem seja muito fácil utilizar metáforas e não incorrer em erros.

Pré-Univesp: Quais os principais desafios da astronomia hoje?

O assunto do momento é a matéria escura e a energia escura, que ninguém sabe o que é. Matéria escura pode ser um tipo de matéria que não conseguimos ver porque não está iluminada. Essas duas linhas devem crescer. Além disso, com a melhoria dos telescópios, abrem-se enormes possibilidades, poderemos ver bem mais longe. Outro assunto, são os neutrinos, partículas ínfimas que circulam pelo universo, mas não interagem. Alguns vem de muito longe, o que traz o desafio de determinar sua fonte. E claro, a teoria dos buracos negros que está ficando cada vez mais interessante.

Pré-Univesp: Com Copérnico deixamos de ser o centro do Universo. No início do século 20, nosso “endereço” no cosmo mudou novamente quando vimos que não estamos localizados no centro da Via Láctea. Em um futuro próximo, há perspectivas de que a compreensão do nosso lugar no Universo possa mudar mais uma vez?

Vamos estudar melhor as galáxias que estão perto da nossa. Sabemos que pertencemos a um grupo de galáxias, chamado “grupo local”, com uma galáxia gêmea da Via Láctea, chamada Andrômeda. Ao redor, há outras, as galáxias anãs. O que temos que entender: o universo está em expansão. Tudo está se distanciando. Mas, por enquanto, a força gravitacional arrasta de “grupo local” de forma compacta. Quando essa força for mais baixa, esse grupo pode de dissolver. Por ora, no entanto, isso não vai acontecer. Em nossa galáxia é possível ver as “Nuvens de Magalhães” (chamadas assim porque a olho nu ela se parece uma mancha no céu) são duas galáxias que estão atreladas à Via Láctea por causa da força gravitacional. Ela é maior do que a força que empurra para a separação. O universo em expansão prevê, portanto, um final em que tudo estará separado.

Pré-Univesp: Como você vê a ficção científica que têm como tema Astronomia?

Sueli Viegas: A série Star Treck tem o mérito de tornar interessante a vida no espaço. Com roteiros inteligentes, a séria traz um conteúdo que desperta o interesse de pessoas de todas as idades. São maneiras de aproximar o público da Astronomia. Ela nos dá esperança de um dia, de fato, chegar onde o homem nunca esteve.