Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Mariana Castro Alves
19/8/15

Para o café da manhã, raízes como mandioca, batata doce ou cará. Para beber, iogurte feito em casa, com o leite produzido na fazenda. Para o almoço e jantar, beldroega, bertalha, taioba, ou seja, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), além das frutas da estação. Parece coisa do começo do século passado, mas é o cotidiano dos jornalistas Dayana Andrade, 33, e Felipe Pasini, 37 anos. Os dois vivem na zona rural do interior do Rio de Janeiro, no município de Casimiro de Abreu, e há cinco anos mudaram seu estilo de vida: comem alimentos produzidos por eles mesmos. “Nós ainda vamos ao mercado, mas cada vez menos. Por dois motivos: primeiro porque nossa produção tem aumentado e se diversificado e, segundo, porque quanto mais você aprende a comer alimentos frescos, menos os produtos do mercado lhe interessam. Sabe aquela história de que depois que você se acostuma com o luxo não consegue mais voltar atrás?”, conta Dayana. O casal é adepto dos preceitos do agricultor e pesquisador Ernst Gotsch, suíço que chegou ao Brasil no início dos anos 1980 e que se dedica ao desenvolvimento de cultivos com técnicas que recuperam o solo, mimetizando a regeneração natural das florestas. Hoje, além de produzirem vídeos para empresas como Natura, os jornalistas dividem seu tempo entre o trabalho com a terra e a divulgação das técnicas de Gotsch. Esse estilo de vida, que parece impossível para grande parte da população, é exemplo de produção alternativa de alimentos e de manejo da terra.

Revolução verde – A partir da segunda metade do século XX, um modelo de agricultura industrial se impôs. O crescimento da população forçou a busca de novos modelos que aumentassem a produção de alimentos. Inovações tecnológicas, especialmente na indústria química, introduziram novos insumos, como fertilizantes minerais, e agrotóxicos, além de sementes melhoradas e maquinário. Nas décadas de 1960 e 1970, essas mudanças, conhecidas como Revolução Verde, permitiram um aumento vertiginoso na produção agrícola, especialmente nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil.

Entretanto, além dos ganhos de produção, a Revolução Verde também teve consequências negativas, como aumento da concentração fundiária, êxodo rural e, evidentemente, os impactos ambientais do uso desses produtos químicos. Os produtores passaram a depender de empresas que vendem esses insumos, conforme explica José Antônio Espíndola, pesquisador da Embrapa Agrobiologia (Seropédica/RJ).

Os agrotóxicos podem ser de três tipos: herbicidas, que agem sobre as ervas daninhas; inseticidas, que combatem as pragas; e fungicidas, que atuam sobre fungos nas plantações. Atualmente, cada brasileiro consome em média 5,2 litros de insumos agrícolas por ano, colocando o país no topo do ranking dos que mais usam agrotóxicos, conforme dado divulgado em dezembro de 2014 por ambientalistas.

Transgênicos – Fruto do avanço da biotecnologia, ciência que permite manipular genes de diferentes organismos, as plantas transgênicas surgem com a justificativa de diminuir o uso de agrotóxicos, aumentar a resistência das plantas e a produtividade na agricultura. De acordo com João Lúcio de Azevedo, engenheiro agrônomo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), as primeiras plantas transgênicas foram utilizadas na China no início da década de 1990. Nos Estados Unidos, a primeira aprovação de uso comercial de uma planta transgênica ocorreu em 1994, quando a empresa Calgene lançou um tomate com elevada resistência ao armazenamento.

A produção em larga escala teve início em 1996, com introdução de soja resistente ao herbicida glifosato, produto comumente utilizado pelos agricultores no controle de plantas daninhas e limpeza de áreas antes do plantio de uma cultura. As moléculas do glifosato se ligam a uma proteína vital da planta, impedindo seu funcionamento e ocasionando sua morte. Conforme descrito no site da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, que também produz sementes de soja transgênica, o gene introduzido na soja foi extraído de uma bactéria do solo, conhecida por Agrobacterium e patenteado por uma empresa privada com o nome CP4-EPSPS. Estruturalmente, é muito parecido com os genes que compõem o genoma de uma planta. Quando inserido no genoma da soja, tornou a planta resistente à aplicação do herbicida. Com a tecnologia, ficou mais fácil para os agricultores controlarem a planta daninha sem afetar a soja.

Ainda não há consenso sobre os efeitos para o meio ambiente e o organismo humano. No artigo “Transgênicos e evolução dirigida(2000), Azevedo afirma que a soja é um exemplo bem sucedido de tecnologia transgênica. “Embora o vetor de DNA utilizado para transferir o gene da bactéria à planta contivesse outros genes, como os de resistência a antibióticos, estes não foram introduzidos na soja, de modo que ela praticamente só possui o gene que interessa, ou seja, o que confere resistência ao herbicida”, escreveu. “Sendo a soja uma planta que se reproduz quase exclusivamente por autofecundação, fica difícil — embora não seja impossível — transferir para outras plantas o gene inserido”, completou. Ainda segundo ele, após mais de 20 anos de utilização no Brasil, não foi detectado o aparecimento de resistência em plantas daninhas ou o surgimento de efeitos em animais e pessoas alimentados com grãos da soja RR.

Mas, para ambientalistas, os transgênicos representam perigo para a agricultura e para a biodiversidade. Hoje, cerca de 90% da soja e do milho comercializados no Brasil têm produtos transgênicos em sua composição.

Caminho alternativo – Como contrapartida a esse cenário de incertezas quanto à qualidade e aos riscos de consumir esses produtos, juntamente com as preocupações com o meio ambiente, a procura por orgânicos vem aumentando. “A agricultura orgânica é uma forma de produção sem a utilização de determinados insumos e que, ao mesmo tempo, leva em consideração a questão social, de forma a dar mais viabilidade para o produtor rural, promovendo seu desenvolvimento”, diz o pesquisador da Embrapa. No Brasil, a Lei 10.831/2003 postula o que é produto orgânico e a instrução normativa (nº 46, de 2001), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) detalha normas técnicas para esses produtos. Entretanto, diante dos preços desses produtos, ainda bem mais altos do que os dos produtos convencionais, faz sentido perguntar: qual a real viabilidade dos orgânicos?

Para Espindola, os preços mais altos derivam da pouca oferta. “Quando você vai procurar esses produtos, orgânicos ou agroecológicos, eles não existem em quantidade suficiente para atender a toda a população”, assevera. Produtos em transição agroecológica são aqueles que assumem determinados princípios da agroecologia – ciência que estuda agricultura de uma perspectiva ecológica – mas que não seguem todas as regras da agricultura orgânica. “Vale aqui a lei da oferta e da procura: se um produto é muito procurado e existe em pequena quantidade, a tendência é que o preço aumente”, explica. Para ele, se houvesse o incentivo de políticas públicas, esse quadro mudaria. “É como a história de quem veio primeiro, o ovo ou a galinha. Se políticas públicas estimulassem a compra desses produtos por determinados públicos, por exemplo, hospitais e escolas para merenda, haveria uma valorização, o agricultor teria uma fonte de renda certa. Aí, com uma produção maior, os orgânicos chegariam à mesa de todos por um preço mais em conta”, acredita.

Mais pesquisas – De acordo com o pesquisador da Embrapa, há questões também relacionadas a desenvolvimento científico, capacitação técnica e difusão. Há necessidade de maiores estudos para adaptar o sistema de produção de orgânicos a diferentes realidades de clima e solo no país. Um exemplo ocorre na chamada adubação verde. Essa prática utiliza determinadas plantas, que crescem em certos solos. Cortadas, são adicionadas a esse solo para fornecer matéria orgânica e nitrogênio para as plantas. “Dependendo das condições climáticas, um tipo de planta é utilizada. Aqui na Baixada Fluminense, de clima quente, usamos adubos verdes de verão ou leguminosas tropicais como mucunas (Mucuna pruriens), feijão de porco (Canavalia ensiformis) e uma série de plantas que se adaptam bem a essas condições. Mas, para um clima mais frio, outras plantas terão que ser utilizadas. E isso demanda pesquisas”, explica O adubo verde pode ser plantado em rotação, antes da cultura principal, ou juntamente com ela. As chamadas variedades ou cultivares (plantas com materiais genéticos diferentes) e sua adaptação a caldas e insumos também demanda investigações mais profundas. “Em um clima mais frio, um fertilizante pode se decompor mais devagar e fornecer mais lentamente os nutrientes necessários para as plantas; já numa região mais quente e chuvosa a rápida decomposição pode determinar outro nível de eficiência”, exemplifica Espíndola. Outro desafio para a produção de orgânicos é a ponte entre a pesquisa e a extensão rural: “Muitos técnicos não conhecem os resultados de pesquisa. É fundamental que eles tenham acesso a esse conhecimento e possam levá-lo até os agricultores”, destaca.

E o que pensa Dayana Andrade: “Quando pesquisamos sobre agricultura percebemos que existem tantas opções de manejo ecológico que o uso de agrotóxicos se mostra não como uma necessidade, como muitos querem nos fazer acreditar, mas sim como uma escolha orientada pela falta de informação”. Segundo Felipe, os gargalos são muitos e vão desde o desenvolvimento de máquinas à formação de recursos humanos. “Mas precisamos olhar para os bons exemplos e criar redes colaborativas para ajudar a disseminar soluções. O maior insumo da agricultura do futuro será o conhecimento”, conclui.

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