Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Wagner Xavier de Camargo
28/8/14

Provavelmente você já se maravilhou com alguma invenção tecnológica que se apresenta como facilitadora da vida contemporânea. Tablets, iPads, smartphones, relógios interativos, videogames com censores de movimento e afins são invenções que trazem a sensação de conforto, interatividade, bem-estar e agilidade. Mais do que isso, conferem uma sensação de certeza e de segurança. Frente às conexões virtuais atuais, nunca a velocidade foi um valor tão aclamado. Com algumas horas se cruzam continentes; por meio de um aplicativo de conversa instantânea, é possível interagir com algum habitante do outro lado do país ou do planeta. Para as gerações mais novas, nascidas sob o domínio da era da informática, tudo parece estar à base de um clique no mouse ou de um toque na tela.

Cada vez mais nosso cotidiano está informatizado e temos a impressão de domínio absoluto sobre isso. Afinal, objetos inanimados estão a serviço e sob as ordens de seres humanos, numa relação hierárquica. Esse raciocínio baseia-se na velha oposição natureza versus cultura e já teve sua lógica, mas está hoje, certamente, equivocado.

Nunca natureza e cultura estiveram tão misturadas. Não somos um bando de primatas com alta capacidade cognitiva a controlar e manipular objetos tecnológicos. Tanto a morfologia individual quanto a social estão em processo contínuo de transformações. Há autores que discutem o que pode e o que não pode um corpo ou quais são seus verdadeiros limites tangíveis, se é que ele os têm? Outros ainda defendem que vivemos numa era de uma indistinguível mistura do corpo biológico com seu entorno cultural, mas, definitivamente, as relações nunca foram tão horizontais entre humanos e não humanos.

A ciência da guerra em nossas vidas

Se desenvolvemos de modo pronunciado a ciência e a tecnologia nos últimos 100 anos, certamente isso se deve, em grande parte, à produção tecnológica originada das Guerras Mundiais e, particularmente, da Guerra Fria, em que atingimos os mais altos graus de sofisticação de nossas ferramentas e utensílios. Esse período de oposição entre as duas superpotências econômico-militares (respectivamente, os capitalistas Estados Unidos e a então socialista União Soviética) gerou um acúmulo de conhecimento nunca visto antes em toda a história. A “corrida armamentista”, como foi chamada, além de provocar a latência de uma guerra eminente, conferiu um plantel de invenções e patentes, que ainda insistem em aparecer em nosso cotidiano. Quem não ouviu falar no travesseiro com espuma especialmente projetada pela Nasa, agência espacial norte-americana?

Quem explorou esse período em termos fantásticos e imaginativos foi a ficção científica (nomeadamente o cinema e a literatura), onde humanos e máquinas aparecem lado a lado e os limites e contornos de um e de outro apresentam-se difusos. Num primeiro momento dessa produção, a máquina toma forma de robô e surge para servir ao homem. Mais tarde, aparece o ciborgue, um organismo mais sofisticado, meio homem, meio máquina, que se apresenta como o próximo passo da “evolução” máquina e, subsequentemente, da humanidade – do inglês cyborg, a referência é a um “organismo cibernético” e resultou da contração de cybernetic e organism.

Talvez você conheça um dos ícones ciborgues do cinema através da recente produção cinematográfica norte-americana Robocop, dirigida pelo brasileiro José Padilha. Clássico dos anos de 1980, a história é dos restos humanos do corpo de um policial que são aproveitados num projeto secreto para construir um superpolicial. O filme é um, dentre tantos, exemplos onde cinema e a literatura (via ficção científica) desenvolvem um tipo de narrativa que equaciona e considera dúvidas e incertezas sociais sobre a ciência e a tecnologia, ou como se interagem, como se comportam, de que modo se interconectam. E tais elementos nos mostram que pode haver uma simbiose entre humanos e não humanos (máquinas e robôs), ou talvez ainda um desaparecimento das fronteiras entre o considerado “natural” e o “artificial”.

Fronteiras entre corpo e máquina se diluem

De qualquer forma, os avanços científico-tecnológicos e técnicos colocam em questão os limites da estrutura biológica e orgânica, além de provocarem a expansão deles. Há tempos que o corpo não termina nos contornos da pele. A simples tendência contemporânea de “estar conectado” a dispositivos móveis, por exemplo, mostra muito mais do que isso: há uma complexidade no fenômeno, há uma interface humano-máquina, há uma captura do “eu” no nível dos afetos (ou da subjetividade).

Indubitavelmente, como cientista social, chego à constatação de que o comportamento social humano é condicionado pelas invenções técnicas/tecnológicas que o circundam. Desde a remota e longínqua história de surgimento do homem, criações e invenções não foram (e não são) meras protagonistas. E atualmente desafiam certezas instituídas e promovem infinitos processos de composição de híbridos.

Se as próteses desenvolvidas desde o período de guerras, para dar “sobrevida” às pessoas lesionadas em combate, deixavam o homem menos humano e mais maquínico, no sentido de maquinizar o corpo e possibilitar-lhe restaurar movimentos perdidos (principalmente de corpos então considerados “deficientes”), hoje a engenharia genética, a nanotecnologia e a genética sintética trazem a recombinação em pequenas escalas (de humanos e máquinas), isto é, uma fusão e “hibridação” (mistura) desde a criação ou gestação, promovendo o aparecimento da figura que poderíamos chamar de pós-humano – um ciborgue “mais híbrido”, por assim dizer.

Assim, novas pesquisas científicas partem da constatação de que existe uma integração homem-máquina-tecnologia que vem ocorrendo há tempos e de formas diversas (em intensidade e em qualidade), uma fusão de seres humanos com a técnica, desde uma simples adaptação de prótese ao corpo até a reconversão de toda a estrutura fisiológica em nível genético – como exemplo interessante aqui podemos citar a terapia gênica, modalidade terapêutica comum na biomedicina, que consiste na transferência de material genético para células-alvo (isso já se iniciou no esporte com o intuito de melhorar a performance atlética).

Todos estamos, portanto, sofrendo uma metamorfose ou interação com o entorno técnico. A mulher que necessita de sessões de hemodiálise para sobreviver; o homem que coloca óculos de manhã e sai de bicicleta; a jovem que decidiu ter um corpo masculino e depende de testosterona; e vocês, estudantes, que não vivem sem suas redes sociais, acessadas por meio de celulares, computadores e tablets. Todos demonstram que a matéria viva (corpo) acopla-se a dispositivos cibernéticos e os têm sempre ao lado, numa conexão de último grau, ou em outras palavras: de “vida ou morte”. Se isso não é de todo uma novidade, resta saber se conseguiremos nos separar deles.

A vida destes corpos (de nossos corpos) não se dá tão somente na “realidade dos fatos” – ou, como se convencionou chamar na era da informática, no “universo off-line”. Ela se desenvolve, em grande parte, no mundo virtual, on-line, que criamos para nós mesmos e que hoje encampa todo o nosso mundo “real”. Nunca tais fronteiras entre natural e artificial estiveram tão borradas; nunca humanos estiveram tão dependentes de objetos inanimados – inclusive para viverem. A proposta da “ciborguização da vida”, se pudermos assim denominar, é a de uma interface total entre orgânico e inorgânico, que sobrepassa o âmbito humano e adentra na natureza exterior (dos animais, das plantas ou mesmo do próprio entorno).

Acima de tudo, é importante notar o papel fundamental que tem a tecnologia, não apenas na definição dos outros (os objetos), mas sim na definição e redefinição de nós mesmos. As máquinas estão em nós. Nós somos as máquinas, os seres hibridizados, os ciborgues. Não do futuro, mas do agora.