Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Fraturamento de gás de xisto. Fonte: Pixabay
Por Patrícia Santos
3/2/16

No mundo todo, o gás de folhelho, popularmente conhecido como gás de xisto, é usado para aquecimento em residências, no comércio e na indústria ou como fonte de energia elétrica (termoelétricas). Composto por metano (de 75 a 95%) e outros elementos, o gás é obtido a partir do folhelho, rocha sedimentar de grãos muito finos, como os de argila. Essa rocha resulta de sedimentos – grãos de areia – e matéria orgânica – como plantas e carcaças de animais – que se depositam durante milhões de anos. Conforme a temperatura aumenta ao longo dos períodos geológicos, essa sedimentação se transforma em óleo e depois em gás, como explica Alessandro Batezelli, geólogo e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Na bacia sedimentar do Paraná, por exemplo, há duas camadas dessas rochas, chamadas de geradoras, portanto, potenciais para geração de petróleo e gás. A formação Ponta Grossa tem idade estimada em 350 milhões de anos e a de Irati, 265 milhões de anos.

Com o passar do tempo, óleo e gás podem migrar da rocha sedimentar para uma camada superior, de rocha permeável, de onde é mais fácil extraí-los. Podem também permanecer em profundidade, situação em que se faz a extração não convencional. Esse é o tipo de produção tem colocado em foco o setor energético.

O gás de folhelho é extraído desde os anos 1800. Nos anos 1970, foi criado o chamado fraturamento hidráulico ou fracking, em inglês. Com essa técnica, representada na imagem abaixo, a perfuração de um poço vertical é feita a cerca de três mil metros de profundidade, seguida por outra perfuração horizontal a uma distância entre 500 a mil metros do poço central. Injeta-se um composto de água, areia e produtos químicos sob alta pressão, de forma a fraturar uma grande área da rocha de folhelho. O gás ou óleo migram para as fraturas na rocha de onde são então bombeados. Nos anos 2000, o fraturamento foi aprimorado permitindo uma produção economicamente significativa nos Estados Unidos.  

Ilustração mostra a ocorrência de gases no subsolo; técnica de fraturamento hidráulico adota perfurações verticais e horizontais para romper a camada de rocha que libera o gás de folhelho (Fonte: Total Exploration and Production – 2011, mod.).Reprodução: IPT

Impacto ambiental

O impacto ambiental dessa forma de exploração, porém, é controverso. Por um lado, a queima do gás natural emite menos poluentes na comparação com o carvão mineral e o petróleo. Por outro lado, sua extração consome grandes quantidades de água – um único poço usa cerca de 15 milhões de litros. Cerca de 40% dessa água retorna à superfície, mas com os aditivos químicos iniciais e sais naturais das rochas precisa de tratamento para ser reutilizada ou descartada.

Outra questão é que a produtividade inicial dos poços é alta, mas em até três anos cai em torno de 50%, sendo necessário fazer novas perfurações continuamente. Nos Estados Unidos, mais de 2 milhões de poços já foram abertos por fraturamento hidráulico desde que o uso dessa fonte de energia começou há 150 anos, segundo o Escritório de Energia Fóssil americano.

Um dos riscos é o vazamento de gás nas regiões fraturadas. Isso contaminaria o solo, aquíferos (reservatórios de água doce que estão a uma camada acima do folhelho e que abastecem as cidades), entre outras consequências, como explosões e possíveis tremores de terra. Há meios técnicos para prevenir esses problemas como a proteção das perfurações com camadas de aço e concreto para evitar vazamentos. A questão é o quanto as empresas estarão dispostas a investir na prevenção de acidentes e os órgãos públicos nas medidas de fiscalização. “Há situações em que escapam o controle. O que aconteceu em Mariana, Minas Gerais, não poderia acontecer, mas acontece porque teve um momento em que a política da empresa aparentemente foi aumentar a produção sem todas as garantias que poderiam evitar um desastre. Faltou fiscalização? Não é possível fiscalizar todas as empresas, como não é possível fiscalizar 10 a 50 mil poços necessários para ter uma produção significativa de gás”, afirma Luiz Fernando Scheibe, geólogo e professor emérito da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

No mundo e no Brasil

Segundo a Agência Internacional de Energia, os maiores produtores de gás de folhelho atualmente são Rússia, Estados Unidos, Canadá, Catar e Irã. No Brasil, há áreas de exploração já leiloadas em todas as regiões: as bacias sedimentares de Parnaíba, Sergipe-Alagoas, Recôncavo, Paraná e Acre. No entanto, ainda não há produção por fraturamento hidráulico no país. A atividade tem regulação definida pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombistíveis (ANP), mas há mudanças à vista.

Um grupo de representantes de ministérios (PROMINP – Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural) realiza estudos para aprimorar as normas. Há também um projeto de lei (PL 6904/2013) em discussão que pretende suspender a exploração do gás de folhelho por cinco anos para que o tema seja mais estudado e debatido. Quem defende a nova lei chama a atenção para o fato de que países como a França, Bulgária e alguns estados americanos, por exemplo, já decidiram até mesmo pela proibição da atividade. Scheibe comenta que estudos mais aprofundados sobre o tema poderão esclarecer os riscos ambientais, definir formas de controle, fiscalização e de tratamento da água. “Eventualmente esses estudos podem até mesmo indicar que podemos passar bem sem esse gás, usando outras fontes de energia”, diz.

Para a ANP, a proposta do projeto de lei já está sendo atendida porque a própria exploração requer alguns anos de estudo antes de ser iniciada. Enquanto isso, o Ministério Público Federal tem conseguido, através de liminar da Justiça Federal, a suspensão da exploração e produção de petróleo e gás natural em áreas leiloadas, sendo a mais recente na região entre os estados do Acre e Amazonas, em dezembro de 2015. Ao mesmo tempo, ativistas e organizações não governamentais também têm atuado contra a atividade por fraturamento hidráulico. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e diversas entidades do setor de engenharia, saneamento e meio ambiente enviaram cartas à presidente Dilma Rousseff alertando para os riscos e pedindo a suspensão de leilões e da extração do gás.

No mundo, há diversas iniciativas conhecidas como anti-fracking como aCampanha de Energia da ONG Greenpeace promovendo o uso de recursos renováveis e propondo o uso reservas de gás convencional para atender a demanda dos setores industrial e elétrico.

Impacto geopolítico

Desde a Revolução Industrial, as principais fontes de energia foram o carvão mineral e depois o petróleo. Seria o gás de folhelho o próximo combustível fóssil predominante? A previsão é que até 2020 os Estados Unidos consigam ser autossuficientes no setor graças ao crescimento da produção de gás de folhelho. Se isso acontecer, um impacto geopolítico é possível. Na análise do professor Lucas Kerr de Oliveira, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), a posição da Rússia, país que usa sua produção de combustíveis para fazer pressão política, assim como a Arábia Saudita e o Irã, se enfraqueceria.

Porém, Oliveira pondera que a atual queda no preço e aumento da oferta de petróleo e gás natural não favorecem o gás de folhelho. “Pequenos produtores de gás de xisto nos Estados Unidos faliram no último ano por causa da queda do preço do petróleo e porque concorrem com os grandes produtores. Preço baixo restringe o mercado de xisto de um lado, ao mesmo tempo em que dificulta, para o Irã e a Rússia, protegerem sua esfera de influência”, diz.

Para o Brasil, uma vantagem em produzir gás de folhelho seria diminuir a dependência do gás. Mais da metade do gás natural consumido aqui é importado: 27% da Bolívia, 25% da Nigéria ou Catar (o restante produzido no país). De acordo com o pesquisador da Unila, o gás de folhelho seria um bom substituto para o gás natural, mais barato que o importado, mas com riscos ambientais.

Para Oliveira, no caso brasileiro, o melhor caminho é diversificar as opções aumentando as fontes de energia renováveis como eólica, termossolar, biomassa e biocombustíveis, além da hidrelétrica, mantendo a produção de petróleo e o investimento em energia nuclear. Essa produção poderia ser integrada à dos países vizinhos. “No longo prazo, vai nos dar mais segurança energética e é possível esperar um pouco mais para ver o andamento dessas tecnologias [de gás de folhelho]”, diz Oliveira.

Scheibe, porém, ressalta que é preciso analisar a real necessidade de aumentar a produção energética. “É preciso pensar numa sociedade que não seja tão vorazmente consumidora de energia. Nunca vamos conseguir produzir a quantidade de energia que o capital precisa para construir todos os produtos que quer que a gente consuma. Por que correr tantos riscos para obter mais energia para manter o nível de consumo que temos até agora? Temos que reconsiderar a vida, especialmente esta vida que depende de quantidades tão grandes de energia para termos o que chamamos de conforto, mas que não implica necessariamente em qualidade de vida”, finaliza.