Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Eline Dias Moreira
20/4/16

Nos anos oitenta, na hoje extinta União Soviética, um jovem judeu foi barrado em uma das melhores escolas de matemática do país. Mas, talvez essa tenha sido uma das melhores coisas que aconteceram com ele. Impedido de ingressar na Universidade Estadual de Moscou, ele foi estudar no Instituto de Petróleo e Gás de Moscou (Kerosinka), onde concluiu sua graduação com desempenho brilhante. Aos 21 anos, já circulava pelos corredores da Universidade de Harward e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Cambridge, Estados Unidos. Estamos falando de Edward Frenkel, matemático e professor da Universidade da California. Ele é o autor de Amor e matemática: o coração da realidade escondida, um convite para descobrir a beleza por trás dos números.

Foto: Elisabeth Lippman

Neste livro, publicado no Brasil em 2014, Frenkel alterna relatos de sua vida com as teorias da matemática, mostrando que esta ciência é universal e que se aplica a todas as dimensões do conhecimento, ideia que vai ao encontro do pensamento de Charles Darwin quando ele afirma que a matemática nos dota de um “sentido extra”.

Quando você se apaixona…

O interesse de Edward Frenkel pelo mundo dos números começou quando ele tinha 16 anos. Na graduação, quanto mais fundo mergulhava nesse universo, mais crescia sua fascinação: “Isso é o que acontece quando você se apaixona”, afirma.

No livro, ele destaca o papel fundamental que seus professores tiveram em sua trajetória. Foi um deles que, percebendo o brilhantismo do jovem estudante, lhe propôs um desafio cuja solução elevou Frenkel a uma posição de destaque no meio acadêmico.

Um dos fatos importantes em sua carreira foi o contato com o matemático ucraniano Israel Gelfand, então professor na Universidade Estadual de Moscou e que se destacava por defender um conhecimento matemático unificado em uma época em que, cada vez mais, a matemática se torna superespecializada. Frenkel via Gelfand como um remanescente do Renascimento, um homem que condensava a unidade da matemática com maestria. Com Gelfand, Frenkel aprendeu que as partes distintas do conhecimento matemático, por exemplo, o teorema de Fermat, a teoria dos grupos, geometria, simetria, teoria dos números, superfícies de Riemann, curvas sobre corpos finitos, análise harmônica, teorias quânticas de campos bidimensionais, entre tantos outros se encaixam e conversam entre si.

Frenkel destaca também a trajetória de Évariste Galois, matemático francês que viveu de 1812 a 1832, e que desenvolveu a teoria dos grupos, revolucionando todo o conhecimento matemático dali em diante. A obra de Galois é um exemplo do poder de um insight matemático: diante de um antigo problema, que diversos pesquisadores já tinham tentado resolver, o matemático francês buscou uma ótica totalmente diferente para achar a solução. Galois mudou para sempre a maneira pela qual as pessoas pensavam a respeito de números e equações.

Aos 21 anos de idade, Frenkel foi convidado a seguir seus estudos de doutorado na prestigiosa Universidade de Harvard, Estados Unidos. Em 1997, ingressou na Universidade da Califórnia, onde permanece como professor e pesquisador.

Amor, ódio e liberdade

Para Frenkel, os motivos que levam alguns alunos a ver a matemática como “uma tortura” é seu caráter abstrato, o que a difere das outras disciplinas. Além disso, a matemática que a escola ensina é uma parcela diminuta dessa área do conhecimento, estabelecida há 2.300 anos. Os verdadeiros tesouros da matemática moderna continuam distantes dos alunos.

Nesse sentido, ele afirma que, em um mundo cada vez mais orientado pelos números, o acesso ao conhecimento matemático deve ser um direito de todos, porque a matemática é uma ferramenta para que as pessoas possam questionar decisões arbitrárias tomadas por alguns poucos poderosos: “Onde não existe matemática, não há liberdade”, acredita.

Frenkel insiste em um conhecimento matemático único. Para ele não há distinções entre matemática aplicada e pura. Todo conhecimento aplicado se baseia em pesquisa pura, sofisticada. A ciência não precisa ser dividida e desconexa. A erudição faz parte da boa formação em matemática.

Transitando em outras áreas

Mas erudição não significa isolamento. Frenkel se preocupa em disseminar o conhecimento matemático para, talvez, contaminar tanta gente quanto possível com sua paixão pelos números. Isso certamente o levou a outros campos criativos como o cinema, a literatura e a divulgação científica. Sobre esse assunto, ele conta sobre a parceria com o escritor e também professor da Universidade da Califórnia, Thomas Farber, para escrever o roteiro do filme “The two-body problem” (2010), que conta a história de um matemático que acredita ter descoberto a “fórmula do amor”. A ideia do projeto é fazer uma reflexão sobre o aspecto moral do conhecimento matemático: uma fórmula tão poderosa pode ser utilizada para o bem e para o mal.

“Amor e matemática” vai despertar a curiosidade por algo rico e misterioso que se oculta sob a superfície, como se uma cortina fosse erguida e o leitor pudesse vislumbrar uma realidade cuidadosamente escondida durante muito tempo: as maravilhas da matemática no mundo moderno. A obra de Frenkel é um convite para alunos e professores adentrarem nesse universo com coragem e entusiasmo.

Serviço: Amor e matemática: o coração da realidade escondida. Edward Frenkel. Editora Casa da Palavra, 2014.