Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Juliana Passos
23/11/16

Cooperação, produção local de alimentos, construções que utilizam técnicas alternativas e de baixo impacto, permuta de serviços, permutas entre os sócios e “humanização” do dinheiro são algumas das práticas que elas adotam. Em 1998 a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu essas comunidades entre os 100 melhores modelos de prática sustentável no mundo contemporâneo. Estamos falando das ecovilas: lugares onde grupos de pessoas buscam viver de modo conectado com a natureza, buscando um modelo mais sustentável de vida. De acordo com a Rede Global de Ecovilas, (GEN, na sigla em inglês), uma ecovila “é uma comunidade tradicional ou criada intencionalmente que utiliza processos de participação local para integração holística nas dimensões ambiental, econômica, social e cultural de sustentabilidade, com o objetivo de regenerar o ambiente social e natural”. A GEN é organização sem fins lucrativos que articula mais de 15 mil ecovilas de todo o mundo para o fortalecimento da proposta e troca de experiências. Hoje a organização dá consultoria sobre o assunto à ONU.

Pesquisador de economia solidária na Universidade Federal do Cariri (UDC), Eduardo Cunha, lembra que muitas comunidades que hoje são consideradas ecovilas surgiram nos países centrais no período pós Segunda Guerra Mundial, como movimentos de contestação e que propunham novas formas de relação com a natureza. “Eles ficaram conhecidos genericamente como contracultura e incluíam temas como ecologismo, feminismo, pacifismo, movimento negro, hippies etc”, afirmou ele, em artigo de 2010, publicado na Revista de Gestão Social e Ambiental.

A partir dos anos 1990, no entanto, com a crescente preocupação que relaciona o modo de produção capitalista, o esgotamento dos recursos naturais e o aumento da desigualdade social, as ecovilas voltaram a atrair a atenção de especialistas e indivíduos que buscam novas formas de vivência em sociedade. Não existe um modelo único de ecovila, mas dois princípios regem boa parte das experiências: intencionalidade e sustentabilidade.

A comunidade Clareando, localizada na Serra da Mantiqueira, entre as cidades de Piracaia e Joanópolis, a cerca de uma hora e meia da capital paulista, é um exemplo. Conforme informa o site dessa ecovila, a ideia surgiu quando dois integrantes de um grupo de pessoas que acampavam com frequência, uma advogada e um agrônomo, quiseram dar continuidade às reuniões que faziam em datas especiais. Sempre morei no campo e trabalhei com agricultura. Meus filhos cresceram brincando com insetos, nadando em rio e subindo em arvores. A ecovila Clareando nasceu desse embrião. Morar numa fazenda com amigos”, conta Hiroshi Séo, um dos fundadores. Hoje local já conta com uma boa infraestrutura e uma comunidade que investe e constrói nos lotes adquiridos. Atualmente moram 15 famílias e 30 casas construídas. “Outras famílias estão na cidade enquanto constroem aqui”, explica Hiroshi. Cada família integrante ainda se envolve em atividades ligadas à permacultura, apicultura, horticultura, construção com materiais alternativos, entre outras. Entre os valores que norteiam a vida da comunidade estão: amorosidade, alegria, respeito, cooperação, simplicidade autoconhecimento, espiritualidade, arte e beleza. Em comum, as pessoas têm o desejo de viver mais perto da natureza. Um dos objetivos atuais da Clareando é plantar o maior número de árvores nativas e servir de modelo para outras ecovilas. Ao longo de 15 anos foram plantadas cinco mil árvores na área, o que fez triplicar a vazão das cinco nascentes.

Uma das casas da ecovila Clareando. Os moradores devem ter uma horta orgânica para consumo próprio.

Viver perto da natureza também foi o principal motivo que levou a terapeuta paulistana Fernanda Catarucci a se mudar para a ecovila de Tibá, em São Carlos, interior de São Paulo. “Eu tinha uma ótima relação com meu então marido, bons amigos e um bom emprego e ainda me faltava algo essencial. Por conta do meu trabalho com a medicina chinesa, passei a frequentar lugares mais afastados, retiros, e o vazio que eu sentia parecia que era preenchido quando eu estava em contato com a natureza”, disse. Antes da mudança definitiva, ela passou por uma espécie de estágio probatório, tanto para ela quanto para os demais moradores. Passado esse período, ela comprou uma cota da associação e passou a integrar formalmente a Associação de Moradores de Tibá. Para a terapeuta, mais do que fugir da metrópole, a opção de viver em uma ecovila remete a escolher com quais problemas você quer lidar. “A visão de que a gente está largando tudo não é real. As pessoas trabalham, estudam, as crianças vão à escola, a gente compra muita coisa de outros grupos. Nós somos um grupo fechado e isolado.

A diferença é o tipo de problema com que você tem que lidar. Na cidade tem a solidão, a falta de suporte, enquanto na ecovila você tem que deixar o ego de lado para conviver de forma cooperativa com um grupo de pessoas”, descreve. Isso porque as ecovilas, em geral, têm regras que estabelecem uso comum de determinadas áreas, normas para construção das casas, tratamento de resíduos. Algumas ainda preveem divisão de tarefas de manutenção.

Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a Ecoovila 1, caso analisado por Cunha, da UFC, em um terreno de 26 mil metros quadrados, cada lote tem 200 metros quadrados e uma área de 18 mil metros quadrados para uso coletivo, que demandam manutenção contínua, feita pelos moradores, um grupo de arquitetos, pedreiros e engenheiros que se interessavam por construções sustentáveis.

Na Associação de Moradores de Tibá, foram instituídos sete grupos de trabalho (chamados de pétalas), três deles estão ligados diretamente à tecnologia: bioconstrução, tecnologias renováveis, produção agrícola terra. Ocorrem reuniões semanais onde todos os moradores podem votar. Além desses grupos de trabalho, os moradores se revezam no cuidado coletivo semanal com a faxina, destinação de resíduos, cozinhar para todos e cuidar dos animais. Para aqueles que trabalham 20 horas semanais seja nas atividades de bioconstrução ou na produção de alimentos, há isenção do pagamento das taxas mensais de manutenção.

Velhas formas de construir, novas formas de morar

Segundo definição do Instituto de Permacultura, Ipoema, bioconstrução é uma forma de construir na qual são utilizados materiais ecológicos e locais, visando reduzir o impacto ao meio ambiente. Na ecovila Clareando, as casas são construídas com tijolos de adobe ou solocimento, pau-a-pique, estrutura de toras de eucalipto, acabamento em terraesterco, pintura de terracal, forros térmicos de lona e bambu, vidros reaproveitados, entre outros. Além disso, as águas de chuva são coletadas e armazenadas em reservatórios (subterrâneos ou imitando laguinhos ornamentais). Essa água serve para irrigar jardins, lavar o chão e dar descarga. Cada morador é obrigado a instalar aquecedor solar, a fim de contribuir com o programa nacional de economia energética. Na comunidade existe uma equipe treinada para construir esses reservatórios e sistemas de esgoto, que além de gerar novos empregos, criam oportunidade para atender à vizinhança.

Outro diferencial que algumas ecovilas propõe é a forma de gestão dos recursos. Na ecovila Tamera, na região do Alentejo, em Portugal, foi adotado um sistema que prevê o compartilhamento e a transparência sobre todos os valores arrecadados. Como conta a economista Cristina Fachini, que visitou a comunidade há alguns anos, o grupo defende a “humanização do dinheiro”, princípio que obriga que a destinação do dinheiro seja decidida sempre em grupo. Tamera foi criada no final da década de 1970 por ambientalistas alemães. Em 1995, a comunidade mudou-se para a região do Alentejo, no sul de Portugal, onde moram cerca de 170 pessoas. Uma de suas fontes de recursos é o turismo. Poucos moradores falam português. A maioria se comunica em alemão ou inglês, o que tem representado um desafio, especialmente para as crianças que, embora frequentem uma escola dentro da comunidade, têm que fazer testes anuais na língua portuguesa.

Bioconstrução em adobe na ecovila Tamera, em Portugal.

Desafios da vida em comunidade

Na Ecoovila, em Porto Alegre, os recursos utilizados são essencialmente da poupança coletiva, ou seja, das cotas pagas pelos associados da cooperativa, o que, de acordo com Cunha, representa uma forma de finança solidária que se insere num tipo de lógica não-mercantil. Como fonte secundária de recursos, existe a cooperativa de trabalho, pré-existente à ecovila, que abriga profissionais da área da habitação. Além disso, cada casa deveria cultivar no espaço reservado para o estacionamento dos carros uma parreira, cuja produção serviria cobrir os custos de manutenção. Também estava previsto plantar ervas em cada residência para consumo próprio, iniciativas que foram parcialmente implantadas. Outra ideia era utilizar a área verde da ecovila para um projeto de educação ambiental, plano que não chegou a ser concretizado. Segundo Cunha, não se percebe uma coesão social forte na comunidade, que pode ser resultado dos conflitos que ocorreram ainda na cooperativa que deu origem à ecovila. “Hoje o formato da gestão se parece mais com o padrão comumente adotado por condomínios, em prejuízo da proposta de organização coletiva inicial”, afirma.

No entanto, segundo ele, a despeito da não realização de todo o potencial da proposta inicial da ecovila, ela ainda pode ser considerada um local de viver diferenciado, especialmente nos aspectos ambientais e políticos. “Pode até haver empreendimentos que procurem se harmonizar com o ambiente, mas nenhum deles se constrói politicamente articulado como neste caso, em que cada morador se envolve no processo e em que os custos e dividendos são distribuídos, de alguma forma, entre os envolvidos”, finaliza.

Referências:

Global Ecovillage Network (GEN)

CUNHA, Eduardo. “”https://www.revistargsa.org/rgsa/article/view/216" target="_blank">A sustentabilidade em ecovilas: desafios, propostas e o caso da Ecoovila 1 – Arcoo". Revista de Gestão Social e Ambiental, v. 4, n. 1, p. 113-126, jan./abr. 2010.

Ecovila Clareando

Associação de Moradores de Tibá.

Instituto Ipoema

Tamera ecovillage