Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Enio Rodrigo
13/8/14

O zumbido característico, uma espécie de som grave que se assemelha ao bater de asas de um inseto, deu nome a essas máquinas voadoras: drones, que, em inglês, significa zangão. Evolução dos aeromodelos – miniaturas de aviões e helicópteros –, os drones fazem parte de uma categoria maior, os chamados Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs). Cada vez mais baratos, os drones se tornaram opções economicamente viáveis para diversas finalidades, substituindo equipamentos muito mais caros, como aviões e satélites, e mesmo o homem, em atividades arriscadas como as que envolvem grande altitude e calor, por exemplo.

O custo desses pequenos veículos aéreos fez com que também se tornassem uma importante ferramenta de coleta de dados para pesquisas científicas. “O potencial de utilidade dos drones sempre existiu na imaginação dos profissionais e pesquisadores que trabalham com dados coletados através de imagens. Quando os equipamentos começaram a ser disponibilizados com alta tecnologia e a um custo razoável, ocorreu a explosão na demanda”, explica Rubens Duarte Coelho, professor e pesquisador da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).

Dotados de câmeras diversas – das comuns às de alta definição –, os drones auxiliam pesquisas em áreas como Agronomia e Monitoramento Ambiental, por exemplo. Os equipamentos embarcados nessas pequenas aeronaves (que podem ser de asa fixa, como aviões; asas rotativas, como os helicópteros ou mais-leve-que-o-ar, como os dirigíveis) são outro item importante. “Os drones são uma espécie de ‘tripé’ aéreo. O equipamento embarcado é o que os diferencia como produto final e, consequentemente, seu preço”, observa Coelho.

E, se há uma década, era preciso buscar empresas especializadas em imagens por satélite para fazer levantamentos diversos, com os custos dos drones caindo vertiginosamente (assim como dos equipamentos eletrônicos, como câmeras especializadas), essas coletas de informações se tornam mais baratas e mais rápidas. As vantagens são diversas, mas é bom lembrar que as tecnologias não são concorrentes. “Se você quer monitorar uma área pequena, da ordem de alguns hectares, os drones são imbatíveis. A quantidade e qualidade da informação coletadas por eles são melhores que as de satélite. Por outro lado, se você quer monitorar áreas da ordem de grandeza de um estado inteiro, o monitoramento por satélite é melhor. São tecnologias complementares”, explica José Reginaldo Hughes de Carvalho, pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Os drones já auxiliam na fiscalização e mapeamento de grandes áreas rurais, fiscalização fundiária e levantamentos topográficos. Na área ambiental são empregados no monitoramento de Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal, por exemplo. Com capacidade de produzir imagens em tempo real, eles podem detectar incêndios e atividades ilegais de pesca, caça e extrativismo.

Tecnologia beneficia agronegócio

No Brasil, a vigilância de fronteiras tornou-se uma das missões prioritárias dos VANTs militares. E, assim como no restante do mundo, conforme a tecnologia se popularizou, fazendo surgir diversas empresas de base tecnológica especializadas em VANTs, um vasto mercado se abriu. “Na década passada, quando se falava em drones no Brasil, muitos viam a área militar como o principal mercado a ser explorado”, lembra Giovani Amianti, diretor-presidente da Xmobots, uma das principais empresas brasileiras no mercado de fabricação de VANTs para uso civil e militar. Segundo ele, o potencial do uso de drones vai muito além.

“Na agricultura de precisão, as aplicações também são diversas: as câmeras embarcadas nas aeronaves podem identificar falhas de plantio, pragas, saturação hídrica do solo e outros problemas que acometem as lavouras. Se embarcados com câmeras NIR (espectro infravermelho), os drones permitem um diagnóstico que jamais poderia ser feito a olho nu, identificando doenças invisíveis ao olho humano e até mesmo o índice de clorofila nas plantações”, explica.

Amianti acredita que, nos próximos anos, a agricultura de precisão será o grande mercado para os VANTs nacionais: “os empresários do agronegócio estão começando a descobrir os benefícios dessa tecnologia para o aumento da produtividade no campo, o que abre um leque de oportunidades para as empresas do setor”, diz. Esses VANTs podem, por exemplo, fazer contagem de gado e monitorar os rebanhos.

Outro termômetro do crescimento do uso de drones para fins diversos é o número de alunos se preparando para serem “pilotos de drones”. “Houve um aumento repentino no número de pessoas interessadas nesse tipo de tecnologia. Primeiro vieram os workshops. Agora tenho classes para fazer curso completo, querendo entender não só de pilotagem, mas dos riscos envolvidos com esse tipo de atividade, que não são poucos”, afirma Erik Bergeri, instrutor de voo para drones da empresa iDrone.

É importante frisar, no entanto, que os drones não são brinquedos. “Um drone não é um aeromodelo. Ele entra na classe de veículos automotores, médicos/hospitalares, aeronáuticos. São os chamados sistemas de missão crítica”, alerta Hughes de Carvalho. Na opinião desse pesquisador, é preciso criar leis sobre o uso adequado da crescente frota de drones. Mesmo pequenas, em áreas urbanas, essas aeronaves podem causar acidentes graves, se não pilotadas por pessoas com as competências necessárias.

Questões morais, devaneios e um futuro promissor

A evolução dos drones para as novas funções não seria possível se há algumas décadas os investimentos militares não tivessem feitos dos VANTs uma prioridade nos exércitos mais modernos do mundo. Estados Unidos e Israel – principais mercados e também os maiores produtores desse tipo de tecnologia – foram os primeiros a investir pesadamente no desenvolvimento de drones. Atualmente, Índia e Rússia também despontam nesse mercado.

Segundo Amianti, o setor está em pleno crescimento e as expectativas são as melhores possíveis. Um estudo do Departamento de Defesa dos Estados Unidos aponta que o mercado global de VANTs deverá crescer 12% ao ano. Já um estudo do governo britânico estima que, nos próximos quatros anos, o mercado deverá movimentar US$ 400 bilhões no mundo.

Mas, se a indústria bélica comemora esses números, o uso militar dos drones segue suscitando questionamentos de ordem moral. Afinal, o princípio que norteia sua utilização é infringir o maior dano possível ao inimigo, reduzindo riscos e os custos das operações militares e poupando vidas de soldados. Soma-se a isso o caráter secreto das operações que violam leis internacionais da Convenção de Genebra, que entrou em vigor em 1983 e que tem entre seus objetivos proibir ou restringir o uso de alguns tipos de armas convencionais consideradas excessivamente lesivas ou cujos efeitos são indiscriminados.

Se o uso militar de máquinas não tripuladas e comandadas a distância está amplamente disseminado, o que se pode esperar dos drones? Será que elas se tornarão tão banais em nosso cotidiano como o celular ou o tablet? Como demonstrou a rede de pizzarias norte-americana Dominos, já é possível entregar uma pizza utilizando drones. Por aqui, alguns noivos desembolsam até R$ 10 mil para que drones fotografem a cerimônia e a festa, segundo informações do portal G1. Pairando sobre os noivos e os convidados, eles capturam imagens em diferentes ângulos, sem interferir na cerimônia. Entretanto, a utilização dessas máquinas voadoras para essas finalidades passa por inúmeras questões como a segurança das pessoas e a qualidade da mercadoria, por exemplo. E se todas as pizzarias passarem a utilizar a tecnologia? E se outras empresas resolverem fazer o mesmo? A Agência Nacional de Aviação ainda não tem uma regulamentação para esse tipo de uso e está estudando caso a caso.