Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Jair Rodrigues Garcia Júnior e Alessandro Pierucci
25/6/14

O espírito esportivo tem a ver com saúde, coragem, dedicação, honestidade, respeito a si mesmo e aos demais competidores e fair play. Muitos atletas de alto nível buscam auxílio dos chamados agentes ergogênicos (que melhoram o desempenho), tais como suplementos nutricionais, equipamentos, métodos fisiológicos (como treinamento em altitude), terapias psicológicas e medicamentos. Estes últimos são considerados doping porque melhoram o desempenho de forma artificial, ilícita, violam a ética e causam prejuízos à saúde. Ou seja, são a antítese do espírito esportivo.

A utilização disseminada do doping entre esportistas pode ser explicada por alguns motivos. O mais plausível é a dificuldade para melhorar seu desempenho. Os atletas de nível mundial/olímpico, depois de vários anos de treinamento, chegam muito próximos de seus limites de massa muscular, de força, de velocidade ou de resistência. Mesmo com o melhor e mais exaustivo treinamento, a melhor dieta e a adoção de períodos de recuperação adequados, apenas pequenos aumentos de desempenho são percebidos. É neste momento que os agentes ergogênicos entram em cena. Como todos os atletas normalmente já fazem uso de suplementos nutricionais, equipamentos e outros recursos permitidos, passam a utilizar também medicamentos com hormônios, estimulantes, diuréticos e outros, que melhoram seu desempenho.

Doping dos campeões

Os agentes dopantes mais utilizados são os hormônios esteroides anabolizantes androgênicos (EAA), hormônios proteicos, medicamentos estimulantes e diuréticos. Os EAA e os hormônios proteicos são utilizados no período de preparação, principalmente para o ganho de massa muscular, força, potência e velocidade. Os EAA, semelhantes ao hormônio masculino testosterona, e os hormônios proteicos do crescimento (GH), juntamente com o treinamento e alimentação adequados, promovem maior acúmulo de proteínas e outras moléculas nos músculos. Isso resulta em hipertrofia (aumento do volume) muscular e melhora do desempenho.

Outro hormônio proteico bastante utilizado por atletas de provas de endurance, como corridas e ciclismo de longa distância e triathlon, por exemplo, é a eritropoetina (EPO). A EPO é normalmente produzida pelos rins quando há diminuição das células vermelhas (hemácias transportadoras de O2) e quando permanece em altitudes elevadas (acima de 2,5 mil metros). Usada como doping, faz com que o hematócrito (percentual de células no sangue) aumente de 43% para mais 55%, o que aumenta o transporte de O2 que, por sua vez, melhora o desempenho. Um dos efeitos colaterais, no entanto, é que seu uso dificulta o fluxo sanguíneo e aumenta o risco de infartos.

Estimulantes como anfetaminas, efedrina e outros são utilizados antes da competição, pois têm efeito no sistema nervoso central, melhorando o estado de alerta e o tempo de reação, além de diminuir a sensação de fadiga. Como têm efeito anorexígeno (diminui a fome) também são utilizados para auxiliar no emagrecimento, como componentes de alguns dos produtos chamados de termogênicos.

Um tipo de medicamento que não tem efeito direto no desempenho, porém é utilizado como auxiliar para a perda rápida de peso (água) por lutadores é o diurético. É também utilizado pelos usuários dos esteroides anabolizantes androgênicos para aumentar a produção de urina e acelerar a “limpeza” do sangue dos subprodutos que podem ser detectados na urina.

Doping tecnológico

Assim como em outros campos, os atletas, treinadores e até médicos envolvidos com o esporte competitivo buscam sempre inovações para melhorar o desempenho. Dentre elas estão métodos e substâncias que se caracterizam como doping. Historicamente, os atletas utilizam subterfúgios para não ser flagrados, tais como infusão de “urina limpa” na bexiga e reinfusão do próprio sangue. Já os laboratórios farmacêuticos têm desenvolvido hormônios esteroides anabolizantes com potente efeito anabólico e menor efeito androgênico (relativo aos caracteres masculinos). Nos últimos 20 anos, o desenvolvimento da biotecnologia permitiu a síntese, por bactérias com material genético modificado, de hormônios proteicos recombinantes, como insulina, hormônio do crescimento e eritropoetina, por exemplo, em escala comercial para fins terapêuticos, mas também usados como doping.

Os avanços biotecnológicos permitem imaginar que o futuro do doping será escrito utilizando o “alfabeto genômico”. Alguns genes, e as proteínas produzidas a partir deles, têm sido bastante estudados, inicialmente para fins terapêuticos e de saúde, porém também com os vieses do desempenho, da competição e da violação ética. As possibilidades do doping genético são as mais amplas: aumento de proteínas de transporte de O2, aumento de proteínas contráteis musculares e diversas outras relacionadas com a função da fibra muscular, aumento de hormônios proteicos, aumento de fatores de crescimento responsáveis pela reparação de lesões musculares e de outros tecidos, como o conjuntivo dos tendões e ligamentos, e aumento da endorfina, que permitiria menor sensação de dor. Também bastante interessante é a possibilidade de diminuição da expressão de genes cujas proteínas podem prejudicar o desempenho, por exemplo, a miostatina, responsável por limitar a hipertrofia muscular.

Porém, como acontece com todas as novas tecnologias, principalmente aquelas relacionadas à medicina e saúde, há muitas incertezas e problemas já observados. As terapias gênicas empregadas experimentalmente têm apresentado falhas em razão de efeitos apenas transitórios, respostas imunológicas e efeitos adversos dos vetores virais, os transportadores dos genes modificados.  

Controle antidoping

A Agência Mundial Antidoping (WADA) é a responsável pela elaboração e atualização do código que rege os comportamentos e indica as substâncias e métodos que não devem ser utilizados nos esportes. O controle antidoping teve início nos Jogos Olímpicos de Tóquio, no Japão, em 1964. Porém, como não havia tecnologia para testes mais aprofundados, os atletas eram apenas questionados sobre o uso de medicamentos. Era feito um exame para achar marcas recentes de agulhas e havia coleta de urina. Como poucas substâncias podiam ser testadas, apenas cocaína, anfetaminas e drogas estimulantes eram listadas como proibidas.

Com o tempo, novos equipamentos e métodos de análise foram sendo incorporados. Na década de 1980, passaram a ser utilizados testes indiretos que consistiam em comparações de duas substâncias presentes naturalmente no organismo. Por exemplo, a razão entre testosterona e epitestosterona, o próprio valor do hematócrito e a relação entre a concentração do hormônio eritropoetina e a idade das hemácias como indicador de realização de autotransfusão sanguínea.

A partir da década de 1990, juntamente com a urina, o sangue passou a ser coletado e analisado, permitindo a detecção de hormônios proteicos. Os atletas de nível mundial também passaram a ser testados durante o treinamento e não apenas nas competições. Nada mais pertinente, já que eram os procedimentos mais comuns o uso do doping na preparação e a “limpeza” do organismo no período anterior à competição. Tais testes são realizados em períodos quadrimestrais ou de surpresa.

Finalmente, nos últimos dez anos tem sido implantado o Passaporte Biológico do Atleta, um prontuário de testes do esportista, realizado durante o treinamento e as competições. Ele permite traçar seu perfil sanguíneo e fazer um histórico dos resultados dos testes de urina. Verificadas alterações do perfil, são realizados testes específicos para confirmação de violações. A análise do perfil sanguíneo proporciona grande sensibilidade e a detecção de métodos sofisticados de doping.

As dificuldades enfrentadas pela WADA para o controle rígido do doping nos diversos países referem-se aos custos de manutenção de estruturas e pessoal qualificado para realizar periodicamente as coletas e análises, assim como à autonomia que as federações esportivas têm para realizar os testes, seja em treinamentos ou competições, de acordo com suas possibilidades e interesses não declarados. Por isso, especialmente em alguns países, os atletas dopados parecem estar sempre um passo à frente da WADA.

Prejuízos certos

O lado escuro do doping são seus efeitos colaterais, pois, para qualquer tipo de substância ou método dopante, é impossível dissociar os efeitos desejados com os prejuízos à saúde. Os esteroides anabolizantes androgênicos têm efeitos danosos nas glândulas sexuais (testículos e ovários), no fígado, podendo causar câncer, e no sistema nervoso, causando agressividade e até morte de neurônios. O hormônio do crescimento pode causar diabetes e crescimento dos órgãos. O fator de crescimento semelhante à insulina e, principalmente, a própria insulina, causam hipoglicemia (diminuição da glicose no sangue), que pode levar à morte.

Os medicamentos estimulantes causam aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, insônia, constipação intestinal e dependência, entre outros problemas. A eritropoetina também causa aumento da pressão arterial e do risco de infarto, e acidente vascular cerebral, como os estimulantes. Por sua vez, os diuréticos podem provocar grave desequilíbrio de água e sais minerais, diminuir o volume de sangue e provocar hipotensão arterial (pressão baixa).

Apesar disso, há atletas e treinadores que defendem abertamente que sejam realizadas competições livres, ou seja, sem testes e sem punições para os atletas flagrados em violações. Felizmente, a maioria ainda defende o “esporte limpo”, que seja mais que um entretenimento e atividade econômica altamente lucrativa, também um meio para o desenvolvimento e valorização do mérito, além de exemplo dos valores que devem ser preservados pela humanidade.