Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Chris Bueno
2/12/15

Frear a perda de floresta primária é prioridade na Amazônia é. Isso é o que afirma Philip Fearnside, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e um dos mais reconhecidos defensores da floresta amazônica. Fearnside estuda problemas ambientais na Amazônia brasileira desde 1974, tendo inclusive morado dois anos na rodovia Transamazônica. Por seu trabalho de pesquisa e defesa da região, o pesquisador venceu o do Prêmio da Fundação Conrado Wessel na área de Ciência Aplicada ao Meio Ambiente em 2004, conquistou o primeiro lugar no Prêmio Chico Mendes na área de Ciência e Tecnologia em 2006 e foi um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2007, junto com outros cientistas do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC). Na entrevista a seguir, Fearnside discute os problemas das políticas públicas para preservação da Amazônia, os impactos de sua devastação, a importância da participação da sociedade civil para proteger a região e afirma: o primeiro passo para a resolução do problema é admitir que o problema existe.

Pré-Univesp: Atualmente, quais são os principais fatores responsáveis pelo desmatamento da Amazônia?

Philip Fearnside: O desmatamento na Amazônia diminuiu entre 2004 e 2012, e o governo brasileiro afirmou que a mudança se deu graças às inspeções e multas pelo desmatamento ilegal. Mas a realidade não é bem assim. A verdade é que o desmatamento da Amazônia brasileira está em ascensão e não em declínio. Houve um desaceleramento no desmatamento nesse período, mas depois houve uma “explosão” desde agosto de 2014, de acordo com dados de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da organização de desenvolvimento sustentável Imazon. Entre agosto de 2014 e fevereiro de 2015, 1.702 km2 de floresta foram desmatados, contra 540 km2 no mesmo período entre 2013 e 2014. Só em fevereiro, 42 km2 de floresta foram derrubados, o que representa um aumento de 282% em relação ao mesmo mês do ano anterior. As pastagens e o plantio de soja têm sido os principais responsáveis pelo desmatamento. Mas a floresta sofre com outras ameaças, como a rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho): seu processo de recuperação ligaria o “Arco do Desmatamento” na parte sul de região amazônica para novas regiões ao norte, abrindo cerca de metade da floresta remanescente para a entrada de desmatadores.

Pré-Univesp: O cenário atual da floresta permite que as áreas que foram desmatadas sejam recuperadas? O que é possível fazer para essa recuperação?

Philip Fearnside: O importante é lembrar que a prioridade atual na Amazônia é frear a perda de floresta primária e não a recuperação de áreas já desmatadas. Evitar a destruição, tanto quanto possível da floresta restante, deve ser a primeira prioridade, e as oportunidades para fazer isso por meio da criação de áreas protegidas são altamente dependentes do tempo, aumentando rapidamente a dificuldade de criar essas áreas na medida em que a ocupação avança. O custo financeiro da recuperação de um hectare de terra degradada é muito maior do que o custo de evitar o desmatamento de um hectare de floresta nativa e o benefício em termos de biodiversidade, água e carbono é muito menor. Por hectare, é bem mais barato evitar o desmatamento do que recuperar e o benefício em termos de biodiversidade e de clima é muito maior.

Pré-Univesp: Quais são as políticas públicas do governo para conter o desmatamento da Amazônia e para recuperar as áreas que já foram desmatadas? O que está sendo feito?

Philip Fearnside: O primeiro passo para a resolução do problema é admitir que ele existe. Embora o governo tenha programas para controle do desmatamento, o grosso da atividade governamental atual e planejada caminha na direção oposta, ou seja, aumenta o desmatamento através da construção de mais estradas para locais remotos, de hidrelétricas e de outras obras de infraestrutura, além dos múltiplos subsídios para agropecuária, exploração madeireira, mineração etc. Além disso, a criação de novas áreas de proteção está praticamente paralisada, as reservas existentes continuam a ter seu status oficial removido e as despesas do governo para fazer cumprir as leis ambientais sofreram corte de 72%. A batalha pela Amazônia está longe de ser vencida.

Pré-Univesp: Quais são os principais fatores que impedem que políticas para proteção da floresta Amazônica sejam criadas e colocadas em prática?

Philip Fearnside: O poder dos ruralistas é um deles. Prova disso é a evisceração do Código Florestal do Brasil. O Código Florestal, que estava em vigor até 2012, foi um conjunto de regulamentações promulgado em 1965 que impôs restrições sobre o desmatamento. A reforma do código reduziu radicalmente as restrições de desmatamento e ainda ofereceu perdão para a maioria das violações passadas. Isso piorou muito a situação, especialmente porque reforçou a hipótese de que qualquer futuro infrator das normas ambientais acabará por ser perdoado.

Pré-Univesp: Se o desmatamento da Amazônia continuar no ritmo atual, como será o cenário da região daqui a alguns anos?

Philip Fearnside: De acordo com as tendências atuais verificadas, a Amazônia será drasticamente alterada nos próximos anos. Iniciativas de conservação na Amazônia têm grandes chances de serem “esmagadas” pelos investimentos em projetos de rodovias e outras infraestruturas, que têm o potencial de estimular um aumento na taxa regional de desmatamento. Modelos que reconhecem o papel das rodovias no crescimento do desmatamento indicam grandes perdas de floresta, decorrentes dos planos plurianuais.

Pré-Univesp: Quais são os impactos, em médio e longo prazo, do desmatamento da Amazônia?

Philip Fearnside: Os impactos do desmatamento incluem a perda de oportunidades para o uso sustentável da floresta, incluindo a produção de mercadorias tradicionais tanto por manejo florestal para madeira como por extração de produtos não madeireiros. O desmatamento também afeta a biodiversidade: a Amazônia brasileira tem um número grande de espécies com valor significativo tanto em termos de utilidade tradicional como em termos de valor de existência. A sociodiversidade também é ameaçada pela perda de floresta, já que elimina culturas indígenas e extrativistas tradicionais, como os seringueiros. Além disso, o desmatamento impacta na disponibilidade de água: qualquer redução significativa de transporte de vapor de água da Amazônia teria sérias consequências sociais para todo o Brasil. Sem contar a grande emissão líquida de gases de efeito estufa causada pelo desmatamento, o que impacta diretamente nas mudanças climáticas.

Pré-Univesp: Alguns estudos apontam que o desmatamento da Amazônia está influenciando o clima. Quais são as mudanças que já podem ser percebidas?

Philip Fearnside: O uso da terra e a mudança do uso da terra na Amazônia contribuem para mudanças climáticas globais de diversas maneiras. Mudanças climáticas afetadas pelo desmatamento incluem a diminuição de chuvas devido à diminuição da reciclagem de água, sobretudo na época seca. A água reciclada pela floresta amazônica também faz uma contribuição substancial às chuvas no centro-sul do País nos meses de dezembro e janeiro, que é a época crítica para recarga das represas hidrelétricas naquela região. O desmatamento também contribui para o aquecimento global. Em 2014, considerando a estimativa oficial da taxa de desmatamento de 5,0 mil km2/ano e valores medianos para gases traço (aqueles que correspondem a menos de 1% do total de gases da atmosfera como o CO2 e o metano, associados às mudanças climáticas), as emissões líquidas comprometidas totalizaram 85 milhões de toneladas de carbono – uma quantidade grande, mesmo que bem menor que a emissão astronômica no pico em 2004, quando a taxa de desmatamento era mais de cinco vezes maior. Os gases são liberados pelo desmatamento através da queima e decomposição da biomassa, pelos solos, pela exploração madeireira, pelas hidrelétricas, pelo gado e pelas queimadas recorrentes de pastagens e de capoeiras. As queimadas também afetam a formação de nuvens e afetam a química da atmosfera em diversas maneiras além do efeito estufa.

Pré-Univesp: Por fim, qual é o papel da sociedade civil na proteção da floresta Amazônica? O que podemos fazer?

Philip Fearnside: O papel da sociedade civil é fundamental nas questões de desmatamento, tanto nas atividades diretamente relacionadas ao processo como através da influência da sociedade civil sobre as ações do governo.