Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Patrícia Piacentini
4/6/14

Falar das relações do homem com jogos, brinquedos e brincadeiras é voltar às civilizações da Antiguidade, como egípcia, babilônica, chinesa, asteca, dentre outras, onde já existia uma cultura lúdica. Há registros de brinquedos que eram, na verdade, miniaturas de objetos do universo dos adultos. “O homem brinca porque sua natureza é simbólica. Ele necessita fazer esse trânsito entre o material e o imaterial, de viver o ‘como se’, para se relacionar com a natureza, com o transcendente, consigo mesmo. Ao fazer isso, ele realiza sua essência de ser criativo, produtor e usuário de cultura”, explica Maria Célia Rabello Malta Campos, doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e presidente da Associação Brasileira de Brinquedotecas (ABBri).

Segundo a pesquisadora, bonecas e chocalhos, por exemplo, acompanham a humanidade desde seu início, com sua função e significado, transitando entre o lúdico e o sagrado. “Esses objetos eram usados (e ainda o são, nas sociedades tradicionais) em rituais xamânicos, como forma de comunicação com o transcendente, para espantar maus espíritos. Por isso, esses brinquedos também eram dados às crianças, como proteção”, esclarece.

Os sentidos do lúdico

Para tratar de cultura lúdica, é preciso entender o significado de conceitos como jogo e brincadeira. A pesquisadora Tizuko Kishimoto, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), relaciona brinquedo e brincadeira com criança, o que não deve ser confundido com o jogo, usado por adultos também, mas que comporta muitos sentidos. “Se tomarmos ‘jogo’ como uma ação ou atividade guiada por regras com finalidade em si mesma, recreativa, teríamos problema para designar como jogo as brincadeiras livres ou de papéis”, exemplifica Alvaro Marcel Palomo Alves, doutor em Psicologia e Sociedade e professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Alves cita o trabalho do historiador holandês Johan Huizinga (1938), que extrapola as relações entre jogo, história e cultura: “Para ele, a vida cultural do homem emerge a partir do jogo e não o contrário, existindo uma espécie de ‘instinto do jogo’. O jogo é anterior à cultura, mas sem dúvida é recriado e ressignificado por ela”, destaca.

Brincadeiras de casinha, brinquedos de guerra, heróis da televisão, jogadores de futebol etc., enumera o professor, são elementos que encerram em si significados e ideologias, servindo de apoio na construção de sentidos exigidos por jogos simbólicos. “Neste sentido é que ocorre a bidirecionalidade da transmissão cultural, pois a atividade de brincar da criança é estruturada conforme os sistemas de significado cultural do grupo ao qual ela pertence”, diz o professor. O grande equívoco dos adultos que tentam impedir certos conteúdos nos jogos infantis, aponta Alves, é acreditar que a criança que brinca está levando o elemento do jogo “a sério”, confundindo o plano do jogo com a realidade do papel social representado. “Se vemos um menino no jogo de computador ganhando pontos por brigar na rua (virtualmente), não podemos transpor o plano do jogo virtual para o real, acreditando que o menino está ficando mais violento porque joga”, demonstra.

Ferramenta de socialização

Os jogos e brincadeiras têm como função a socialização dos grupos, pelo estreitamento dos vínculos entre as pessoas. “As crianças até muito recentemente não dispunham de um tempo e de um espaço exclusivo para brincar. As crianças compartilhavam das mesmas atividades lúdicas dos adultos, pois não existia essa separação tão rígida entre mundo adulto e mundo da criança, entre trabalho e lazer, como temos agora, na era da produção capitalista. O tempo de produzir e o tempo do ócio e do prazer se entremeavam. Vemos que o lugar e a função dos jogos se modificam muito, conforme o processo histórico da sociedade”, diz Campos.

Brincar é a primeira forma de participar e de produzir cultura. “Nas brincadeiras, a criança se expressa, vive sua cultura e a reproduz. Ao brincar, ela dialoga com a sociedade e com o outro, representando as funções dos diferentes papéis sociais do mundo adulto. Ela vai se apropriando de sua cultura e das relações sociais de forma ativa, transformando, recriando, experimentando”, explica Campos.

Até os cinco anos, jogos e brincadeiras são a atividade principal da criança. “Ela brinca com seu próprio corpo, com sua roupa, com o corpo da(o) cuidadora® e, sobretudo após os três anos, brinca com os significados”, esclarece Alves. A escola soviética, conhecida como psicologia histórico-cultural, liderada pelo psicólogo bielo-russo Vygotsky (1896-1934), defende que o jogo é a principal zona de desenvolvimento da infância, portanto determinante na evolução psíquica da criança. Cada etapa de desenvolvimento está ligada a uma modalidade de jogo, do bebê ao adulto. “Assim, promover oportunidades de brincar, em todas as idades, é assegurar um desenvolvimento saudável e a plena realização das potencialidades das pessoas”, destaca Campos.

No jogo, afirma Alves, a criança experimenta as possibilidades de ação que a cultura exige, mas sem ter ainda as plenas condições para tal. “Ela não pode dar aulas, dirigir um caminhão ou pilotar um avião; não tem as condições físicas e cognitivas para tal, mas no jogo ela faz tudo isso. A criança vivencia profunda ansiedade quando se depara com a morte, a violência ou o adoecimento, mas no jogo ela pode sair da passividade perante esses acontecimentos da vida e, de alguma forma, assumir maior controle sobre eles (cuidando de uma boneca doente ou de um irmãozinho)”, explica. Jogos e brincadeiras são determinantes não apenas do aprendizado dos conteúdos escolares, como aprender ciência, matemática ou português, mas principalmente para a formação da personalidade, aponta Alves.

Jogos eletrônicos

Mas será que as plataformas digitais não afastam as crianças e jovens de jogos e brincadeiras e da socialização com os outros? “A geração nascida nas décadas de 1970 e 1980 aprendeu que jogos e brincadeiras são aqueles tradicionais, centrados em regras conhecidas. Mas as gerações 1990 e 2000, principalmente de classe média, aprenderam que a socialização pode acontecer mediada pela tecnologia. Ela aproxima e reinventa uma série de papéis e incrementa o ‘jogo’”. De acordo com ele, os jogos tradicionais são reinventados cotidianamente nos canais de TV por assinatura, como o sucesso de brincadeiras nos desenhos “Pocoyo”, “Peppa Pig” e “Galinha Pintadinha”.

“Não podemos ver nos jogos virtuais apenas o aspecto do isolamento, mas também de novas formas de socialização, com papéis mais complexos e que merecem ser estudados, pesquisados e utilizados pela sua potencialidade humanizadora”, afirma. “A cultura é viva, contraditória, dialética, e pensar a infância é pensar toda a sociedade”, resume. Alves reforça ainda o papel dos adultos na condução dos jogos: “Se demos ao nosso filho de três anos um tablet ou um telefone celular, é óbvio que, pelo seu caráter interativo, ele vai preferir os jogos eletrônicos, mas, se nós inserirmos a criança em outras atividades, ela aprenderá a ter diversão e prazer nelas também”, finaliza.

Já Campos preocupa-se com oferta de jogos eletrônicos e do grande marketing em torno deles. Ela aponta ainda outro fator que pode afastar a criança da socialização proporcionada pelo brincar: a falta de espaços para a brincadeira. “As crianças continuam gostando muito de interagir e de brincar juntas livremente. Porém, os espaços seguros e estimulantes para isso estão sumindo de nossas cidades. Eles foram ocupados pela especulação imobiliária e pela falta de compromisso dos gestores públicos com a infância”, alerta. Além disso, é preciso valorizar o tempo lúdico. “O tempo do brincar diminuiu muito. Está ocupado por atividades dirigidas e por tarefas escolares, às vezes excessivas e precoces”.