Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Alfredo Suppia
6/8/14

Autômatos e robôs já garantiram seu lugar na história. Sua presença nas ciências, na medicina e na indústria, na polícia e na guerra, entre vários outros setores e momentos das sociedades contemporâneas, só aumenta. O futuro promete ainda maior protagonismo às criaturas artificiais. E, enquanto a inteligência artificial ideal ainda não aparece “encarnada” num robô consciente e sensível, hipóteses sobre um “novo Adão” ou uma “nova Eva” têm povoado as artes e a imaginação. Desde suas origens, na virada do século XIX para o XX, o cinema tem se mostrado meio propício à exposição de especulações sobre o tema, com representações sedutoras da tão sonhada (e por vezes temida) recriação do ser humano à sua imagem e semelhança. Desde antes de Metropolis (1927), de Fritz Lang, passando por séries como Guerra nas estrelas (Star Wars), de George Lucas, ou O exterminador do futuro (Terminator), de James Cameron, até os mais recentes Eu, Robô (I, Robot, 2004), longa de Alex Proyas inspirado em obra do escritor Issac Asimov, e Wall-E (2008), uma bela história de amor robótica, em animação, dirigida por Andrew Stanton.

Em Lab coats in Hollywood: science, scientists, and cinema (Cambridge: MIT Press, 2013), David Kirby, cientista de formação, defende que o cinema de ficção científica teve e continua tendo papel relevante em termos de divulgação científica, sensibilização da opinião pública para temas controversos da ciência, visibilidade de determinadas teorias em detrimento de outras, imagem pública da ciência e até mesmo obtenção de financiamentos por meio da propaganda de pesquisas. Para esse autor, graças à “capacidade de testemunho virtual do cinema”, filmes de ficção científica – por exemplo sobre aventura espacial, inteligência artificial, robôs ou clonagem – oferecem, por meio de narrativas ficcionais, protótipos para especulações acerca de temas controversos ou prematuros na agenda científica contemporânea.

Oferecemos, a seguir, sob forma de um esboço de cronologia, notas acerca de uma genealogia do robô, do ciborgue e do androide na esfera do imaginário no cinema, sempre alimentado pela literatura e por fatos históricos. Comecemos então no século XIX.

1818: Frankenstein or the modern Prometheus, de Mary Shelley. Uma das obras-chave do Romantismo e da ficção gótica, este romance foi o fundador de um “mito moderno” e precursor do gênero que hoje conhecemos como ficção científica. Inspirou incontáveis adaptações e paródias no cinema e na televisão. Frankenstein oferece uma releitura do mito clássico do titã Prometeu, na figura do cientista Victor Frankenstein, o qual logra a criação de uma criatura artificial (super)inteligente.

1897: Gugusse and the automaton (Gugusse et l’Automate), também conhecido como The clown and the automaton, foi um filme francês silencioso de Georges Méliès que apresentava um palhaço de circo intrigado pela performance de um autômato. Trata-se da primeira aparição de um autômato em imagem cinematográfica de que se tem notícia, e um dos primeiros filmes a tratar do tema da experimentação científica. Atualmente, a fita é dada como perdida. Em Things to come: An illustrated history of the science fiction film (New York: Times Books, 1977), Douglas Alver Menville e R. Reginald sugerem que Gugusse possa ter sido mesmo o primeiro filme de ficção científica.

1910: Frankenstein, da Edison Co. O filme silencioso foi, provavelmente, a primeira adaptação cinematográfica do romance de Mary Shelley. Com alterações significativas em relação à obra original, condensa e simplifica a saga de Victor Frankenstein e sua criatura artificial.

1915: O Golem, de Henrik Galeen e Paul Wegener. O sucesso do livro O Golem, de Gustav Meyrink, também de 1915, foi logo capitalizado pelo cinema. O livro narra o feito de rabinos que quiseram imitar a Deus criando um ser vivo inteligente, a partir de fórmulas mágicas. Moldando certa quantidade de barro vermelho, seria possível criar um homem pronunciando palavras mágicas em combinações criadas pela seita dos Chassidim (judeus ortodoxos). Nessa primeira adaptação, o golem é criado pelo rabino Loew, no gueto de Praga, em ritual místico que incluía a inscrição da palavra hebraica “emeth”.

1916: Homunculus, de Otto Rippert. Homunculus é um seriado alemão do período silencioso, produzido em 1916, sob direção de Otto Rippert. Narrava a ascensão e queda de uma criatura artificial à imagem e semelhança do homem, porém dotada de inteligência, capacidades e virtudes supra-humanas. Estreou em Berlim em 18 de agosto de 1916. Foi o seriado mais popular da Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial e chegou a influenciar a moda da época em Berlim.

1920: O Golem (Der Golem, wie er in die Welt kam), de Carl Boese e Paul Wegener. Remake de O Golem, de 1915, de Galeen e Wegener. O cinema novamente dá dimensões, textura e movimento ao golem de Meyrink, com atuação de Wegener. Novamente, o rabino Loew dá vida ao gigante de barro por meio de invocações mágicas, no intuito de prover um protetor a seu povo perseguido. Uma série de remakes e/ou livres adaptações da lenda do golem tem lugar a partir de então, como Le Golem (1936), de Julien Duvivier (França), ou Golem (1980), de Piotr Szulkin (Polônia).

1921: R.U.R., de Karel Čapek. Čapek foi um escritor checo, criador da palavra robot (a partir de robota, que, em sua língua e em outras línguas eslavas, pode significar trabalho exercido de forma compulsória, ou trabalho escravo). A peça R.U.R., iniciais de “Robôs Universais de Rossum”, conta a história de um cientista visionário chamado Rossum, o qual desenvolve uma substância química similar ao protoplasma. Ele utiliza essa substância para construção de robôs humanoides, com o fito de que estes sejam obedientes e realizem todo o trabalho físico até então a cargo dos seres humanos.

1927: Metropolis, de Fritz Lang. Superprodução alemã, Metropolis é um filme-monumento e obra-chave na história do cinema de ficção científica. A utopia/distopia futurista de Metropolis oferece uma releitura do mito do golem e do Frankenstein de Shelley na figura do cientista Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) e seu robô. Inicialmente um autômato metálico, o robô de Rotwang vem a assumir a aparência da personagem Maria (Brigitte Helm), assim antecipando o advento do androide no imaginário cinematográfico – a criatura artificial como personagem disruptor, que seduz e engana graças à sua perfeição e semelhança com um ser humano.

Vale lembrar que, a exemplo de Metropolis, a personagem cinematográfica do robô sempre sofreu a influência de um mito amplamente difundido na literatura mundial, mas com especial recorrência na literatura de língua alemã ou anglo-saxônica: o mito do duplo (Doppelganger). De obras literárias como as novelas A História Maravilhosa de Peter Schlemihl (Peter Schlemihls wundersame Geschichte, 1814), de Adelbert Von Chamisso, e O Médico e O Monstro (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1886), de Robert Louis Stevenson, a filmes como O estudante de Praga (Der Student von Prag, 1913), de Stellan Rye e Paul Wegener.

1931: Frankenstein, de James Whale. A adaptação do romance de Shelley, dirigida por Whale e produzida pelo estúdio norte-americano Universal, altera significativamente a trama da obra original, sendo profundamente tributária de Metropolis, de Fritz Lang, no que diz respeito à “gênese” da criatura – aqui interpretada por Boris Karloff. Tornou-se um cult film e talvez a mais popular adaptação do romance de Shelley, embora preserve muito pouco da obra original. Este filme gerou uma série de sequências, com destaque para o filme imediatamente posterior, A noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein, 1935), também dirigido por Whale.

No cinema, robôs podem ser humanoides e semelhantes a seres humanos, mas sua aparência continua remetendo a um artefato. O ciborgue ilustra um caso de combinação homem-máquina, como no caso dos para-atletas olímpicos que usam próteses de membros amputados. O androide é um gênero de criatura artificial mais elusiva: sua aparência se confunde com a de um ser humano, embora suas capacidades costumem ser supra-humanas.

1951: The day the earth stood still (O dia em que a terra parou), de Robert Wise. Baseado no conto Farewell to the Master (1940), de Harry Bates, o filme apresenta o robô Gort (Lock Martin), máquina extremamente poderosa e capaz de subjugar o exército americano perante as ordens de seu mestre Klaatu (Michael Reenie). No conto original, o mestre é na verdade o robô.

1956: Robbie, the robot. Um dos mais famosos robôs do cinema, Robbie, aparece no filme O planeta proibido (Forbidden Planet, 1956), dirigido por Fred M. Wilcox, um dos títulos mais representativos do boom do cinema de ficção científica americano dos anos 1950, com enredo livremente inspirado na peça A tempestade (The Tempest), de William Shakespeare.

1962: Planeta Bur, de Pavel Klushantsev. Neste filme, cosmonautas em expedição ao planeta Vênus enfrentam os perigos do ambiente hostil e misterioso. Um robô extremamente inteligente e robusto auxilia a equipe, mas acaba sendo sacrificado para garantir a segurança dos cosmonautas durante a travessia de um rio de lava. Engenhosa aventura espacial que impressiona pelos efeitos visuais e enredo.

1973: Westworld, de Michael Crichton (no Brasil, Westworld - Onde Ninguém Tem Alma). Yul Brinner interpreta o “caubói-robô” que, após uma pane, espalha o caos e terror numa espécie de Disneilândia futurista povoada por autômatos de alta performance.

1975: The stepford wives, de Bryan Forbes (no Brasil, Mulheres Perfeitas, 2004). Baseado em romance de Ira Levin, o filme apresenta um futuro próximo no qual, graças à robótica avançada, maridos substituem suas esposas por réplicas artificiais, numa “utopia” de comunidade patriarcal (ou machista) sinistramente “ideal”. Remake desta produção, estrelado por Nicole Kidman e dirigido por Frank Oz, foi lançado em 2004.

1978: O teste do piloto Pirx (Test Pilota Pirxa), de Marek Piestrak. Produção soviético-polonesa baseada na obra do escritor polonês Stanislaw Lem, trata-se de uma das mais intrigantes experiências cinematográficas concernentes ao androide num contexto de pós-modernidade. Pirx é o comandante de uma missão espacial cuja tripulação tem, entre seus membros, um androide – mas quem será ele? No enredo deste filme de ficção científica com características de filme policial, a ideia é testar a performance da criatura artificial como substituto de seres humanos em missões tripuladas – mas quais as implicações éticas dessa experiência?

1979: Alien, de Ridley Scott. Lançado no Brasil como Alien: o oitavo passageiro, o filme tem entre seus personagens o “oficial de ciências” Ash (Ian Holm), na verdade um “sintético” que fora infiltrado na tripulação da espaçonave Nostromo pela companhia que financia a viagem espacial. Quando sua verdadeira identidade é revelada, alguns colegas reagem com reprovação e não tardam a se suceder diversos problemas entre o “sintético” e os humanos.

1982: Blade runner, de Ridley Scott. Adaptação do romance Do androids dream of electric sheep?, de Philip K. Dick. Depois de O teste do piloto Pirx, este filme sobre um futuro distópico retoma o tema do androide à imagem e semelhança do ser humano, aqui chamado de “replicante”. Nesta trama, que revisita o film noir, um “caçador de androides” é designado para eliminar um grupo de replicantes rebelados. Uma instigante discussão ética e estética emerge dessa situação.

1987: RoboCop, de Paul Verhoeven. Sátira do capitalismo corporativo neoliberal, o filme descreve a cidade de Detroit (EUA) tomada pelo crime e na qual a segurança pública é privatizada, estando a cargo de uma grande corporação. Nesse contexto, um crime contra um policial serve de oportunidade para a criação de um ciborgue. O filme deu origem a sequências, série de TV, videogames, quadrinhos e desenho animado.

1997: Ghost in the shell, de Mamoru Oshii. Adaptação do mangá homônimo, de Masamune Shirow, este animé japonês é um thriller cuja protagonista é uma ciborgue que trabalha como agente para forças especiais do governo, investigando um complô que envolve um hacker misterioso, o “Titereiro” (Puppet Master). O filme deu origem a uma série. O tema da mente humana num corpo biônico de altíssima tecnologia remete a questões éticas e hipóteses como a da “singularidade” (Ray Kurzweil).

1999: Bicentennial man (O Homem Bicentenário), de Chris Columbus. Baseado no conto “The bicentennial man”, de Isaac Asimov, esta paródia do Pinocchio (1883), de Carlo Collodi, apresenta um robô em sua luta por se tornar humano à medida em vai adquirindo novas emoções.

2001: A.I., de Steven Spielberg. Projeto iniciado com Stanley Kubrick e concluído por Spielberg, este filme baseado no conto “Supertoys last all summer long” (1969), de Brian Aldiss, apresenta nova e sofisticada paródia do Pinocchio, de Collodi, na chave da ficção científica existencialista, narrando a trajetória de um menino-robô que busca sequiosamente se tornar “real” (humano) e, assim, conquistar para sempre o amor de sua mãe adotiva. 

2009: Surrogates, de Jonathan Mostow. Baseado na graphic novel The Surrogates (2005-2006), de Robert Venditti e Brett Weldele, este filme policial apresenta uma “utopia” futurista em que os seres humanos vivem em isolamento, interagindo socialmente apenas por meio de avatares-robôs. O enredo lembra também uma coletânea de contos de robôs do escritor chileno Hugo Correa, Los Títeres (1969).

2014: RoboCop, de José Padilha. Remake do RoboCop, de Verhoeven, esta releitura da saga do policial ciborgue problematiza o advento dos drones e seu uso em conflitos militares, num contexto pós 11 de setembro.

A cronologia acima não chega perto de exaurir a trajetória do robô (e seus parentes, o ciborgue e o androide) no cinema, nem tampouco nas demais formas de arte. À primeira vista, seria possível perceber uma “evolução” do robô cinematográfico de uma criatura metálica de gestos desajeitados, passando pelo ciborgue (o ser humano com próteses mecânicas) ao androide, a criatura artificial virtualmente idêntica ao ser humano, por vezes constituída de matéria orgânica – conforme sugerido por filmes como Blade runner. Mas tal percepção é equívoca: na verdade, o robô, o ciborgue e o androide não são assim tão distintos entre si. Suas aparições se superpõem e se intercalam fora de uma lógica “evolutiva” – lembremos da criatura de Frankenstein ou da falsa-Maria em Metropolis, entre muitos outros exemplos.

De toda maneira, enquanto os ciborgues ainda não são personagens corriqueiros da vida real, nem androides virtualmente idênticos a seres humanos que transitam pelas ruas, o cinema continua sendo a forma de arte contemporânea prevalecente no que diz respeito às representações mais populares da criatura artificial – especialmente a partir dos mais recentes avanços em termos de computação aplicada ao cinema, ou CGI (Computer Graphic Imagery). Os apontamentos oferecidos aqui visam oferecer um panorama introdutório acerca de um tema ainda pouco cartografado.

Para saber mais: The Internet Movie Database: www.imdb.com