Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Por Daniela Klébis
26/11/14

Mortes, tráfico, trabalho escravo, recrutamento por grupos armados, campos minados, doenças, mutilações e violência sexual. Perdas de familiares, de amigos, do aconchego e segurança do lar. Refugiados. Numa idade de brincar e de ir pra escola, as crianças que vivem em zonas de conflitos armados veem sua infância interrompida para conviver com situações inomináveis. Consideradas as maiores vítimas das guerras, seus corpos pequenos e frágeis, quando sobrevivem a tais horrores, levam dentro de si marcas indeléveis, que se prologam pela vida adulta. “Quase todas as crianças e adolescentes que vivenciaram ou presenciaram eventos de extrema violência irão sofrer sintomas de sofrimento psíquico”, aponta Krista Armstrong, gerente de mídia internacional da organização Save the Children. Guerras não são para crianças. Ainda assim, a Unicef estima que mais de um bilhão de meninos e meninas com menos de 18 anos vivem atualmente em territórios ou países afetados por conflitos armados no mundo. “Os adolescentes são particularmente afetados, num momento em que eles passam por muitas mudanças físicas e emocionais”, afirma Armstrong. Ela aponta ainda que a violência sexual fazem das meninas as maiores vítimas desses conflitos, que sofrem com danos psicológicos por toda a vida, além de gravidez indesejada, abortos forçados e risco de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis.

A perda e separação prolongada de seus familiares pode ser um dos eventos mais traumáticos da guerra, causando traumas psicossociais, além da perda da identidade para crianças muito pequenas. “Esses conflitos geram enormes incertezas para elas e para suas famílias, e, pelas suas repercussões psicológicas, físicas, sociais e econômicas, diretas e indiretas, pode aumentar consideravelmente a vulnerabilidade das crianças a riscos e abusos”, ressalta Armstrong.

O lado mais fraco

Para buscar lugares mais seguros, muitas pessoas fogem de suas casas. É nessa ocasião que muitas crianças são separadas de suas famílias. Muitas acabam em campos de refugiados em seus países ou mesmo no exterior – às vezes, por longos períodos de tempo. As crianças podem ser enviadas para viver em orfanatos ou com parentes distantes, como forma de distanciá-las do perigo físico.

Segundo estudo do Instituto de Economia e Paz (IEP, na sigla em inglês), publicado em junho de 2014 e onde foram pesquisados 162 países, apenas 11 não estão envolvidos em conflitos. Os países com mais baixo índice de paz são o Sudão Sul, o Afeganistão e, por último, o mais crítico no momento, a Síria. O indicador, entretanto, não inclui a violência contra mulheres e crianças, em boa parte das vezes, as grandes vítimas das guerras.  Conforme aponta a representante da Save the Children: “As crianças são ameaçadas e depois são mortas porque ‘elas são o futuro’, ou porque esta é uma forma de subjugar suas famílias ou comunidades”, conta Armstrong.

O fato de boa parte dos conflitos em andamento atualmente serem guerras civis agrava esta situação. “Nesses conflitos, os civis contabilizam 90% das vítimas. Embora seja difícil confirmar números, em muitas guerras as crianças representam a maioria das vítimas", aponta.

A Guerra da Síria, que se prolonga desde março de 2011, levou mais de 1,2 milhão de crianças aos campos de refugiados em países vizinhos. Mais de 10 mil morreram, de acordo com dados publicados pela Save the Children, em setembro deste ano. A organização aponta o colapso do sistema de saúde nacional como um dos maiores fatores de risco à vida das crianças sírias: 60% dos hospitais e 38% das unidades básicas de saúde  foram danificadas ou destruídas, a produção de drogas caiu 70%. De acordo com o levantamento, mais da metade dos médicos deixaram o país. Um exemplo é a cidade de Aleppo. Antes da guerra, a cidade contava com cerca de dois mil médicos e, hoje, apenas 36 permanecem. “Não são apenas as balas e as bombas que estão matando e mutilando crianças. Eles também estão morrendo por falta de cuidados médicos básicos. O sistema de saúde da Síria foi devastado. Como resultado, um número crescente de crianças está sofrendo e morrendo de doenças que poderiam ter sido facilmente tratadas”, descreve o relatório.

Fora da escola

Juntamente com o desenvolvimento físico e emocional, as guerras e conflitos armados provocam impactos profundos no processo educacional. Mais de 50 milhões de crianças e adolescentes em idade escolar (entre seis e 15 anos) que vivem nessas regiões estão fora da escola. Mais da metade, cerca de 29 milhões são crianças entre seis e 11 anos, que deveriam estar no ensino fundamental, segundo relatório da Unesco, publicado em julho de 2013. O documento indica ainda que, entre essas crianças, 12 milhões vivem na África Subsaariana, mais de cinco milhões vivem no sul e oeste da Ásia e quatro milhões nos Estados Árabes. “Elas são proibidas de ir à escola, são fisicamente atacadas por tentarem ir, os prédios onde fucnionam suas escolas são bombardeados, além de muitas serem recrutadas pelos grupos armados”, relata Armstrong.

Malala Yousafzai, a estudante paquistanesa que ganhou o Nobel da Paz esse ano, tornou-se símbolo da luta pela educação de crianças em zonas de conflitos. No início de 2009, quando tinha 11 anos, ela começou a escrever um blog para a rede de televisão britânica BBC, detalhando anonimamente sua vida sob ocupação Talibã, no Paquistão, e especialmente sobre a promoção da educação para meninas na sua província. A história da menina ganhou a atenção da mídia internacional, mas também do governo Talibã. Como consequência, em outubro de 2012, um atirador entrou em seu ônibus a caminho da escola e disparou-lhe três tiros. Um deles atravessou sua cabeça. “O dia em que Malala ganhou o Prêmio Nobel da Paz foi histórico. Tantas crianças hoje vivem em meio à guerra, sofrendo ataques em suas escolas. Ao receber o Prêmio, Malala deu voz a milhares de crianças que pedem por uma boa educação”, argumenta Krista Armstrong.

Pequenos soldados

No momento em que você está lendo este texto, cerca de 300 mil crianças estão sendo cooptadas para serem usadas como soldados ao redor do mundo. O recrutamento pode se dar à força ou voluntariamente, quando elas sentem que se juntar a grupos armados é a melhor opção disponível. Para essas crianças, a morte é parte do cotidiano. Situações de extremo risco de vida, assassinatos, violência sexual e abandono são alguns dos horrores que elas testemunham e vivenciam. “Ferir ou matar outras pessoas e estupros são as formas de violência mais comumente reportadas por esses soldados infantis. E isso tem uma influência particularmente tóxica no ajustamento psicossocial em longo prazo, por conta da intensidade e profundidade íntima”, descreve a psicóloga desenvolvimental Emmy Werner, professora emérita na Universidade da Califórnia, especialista em impactos das guerras sobre as crianças.

Werner cita como exemplo estudos desenvolvidos com ex-crianças-soldado que lutaram na guerra civil de El Salvador, entre 1979 e 1992. Dez anos após o fim do conflito, uma em cada três pessoas observadas relataram problemas persistentes de sono, depressão e irritação. Em outra pesquisa, 50% dos adultos entrevistados, que haviam sido recrutados ainda meninos como soldados da guerra civil de Moçambique (1977-1992), reportaram reações físicas e emocionais relacionadas a estresse traumático, mesmo 16 anos após o fim dos conflitos.

Apesar dos traumas, a psicóloga aponta também consequências positivas. “Esses ex- soldados-crianças compartilham uma afirmação e valorização da vida. Eles passaram a dar mais significado para o mundo e se sentiram comprometidos em aliviar o sofrimento dos outros. O processamento de suas experiências traumáticas de guerra, embora doloroso, contribuiu para o crescimento pessoal e forte senso de coerência na vida adulta”, observa. Werner destaca o exemplo do papa Bento XVI, recrutado como soldado nazista ainda adolescente, durante a Segunda Guerra Mundial.

Risco e proteção

Werner analisa os impactos das guerras nas crianças a partir de duas perspectivas: os fatores de risco e os fatores de proteção. “Os conflitos atuais têm afetado mais crianças que durante a Segunda Guerra. Mas tanto os impactos sociais e psicológicos quanto o suporte dado às crianças vivendo em zonas de guerra são ainda bastante similares”, comenta a psicóloga. Seus estudos partem de sua experiência pessoal, que dos dez aos 15 anos de idade viveu na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.

Os sintomas observados com mais frequência entre as crianças que vivenciam ou testemunharam períodos de guerra são o estresse pós-traumático (TEPT), depressão e ansiedade. Werner descreve que o TEPT caracteriza-se por três grupos de sintomas recorrentes: os de reexperiência (pesadelos, flashbacks); os de evitamento (distanciamento, bloqueio das memórias eventos) e hiperexcitação (insônia, dificuldade de concentração, irritabilidade etc.). “As evidências indicam que as crianças menores exibem sintomas mais agudos de angústia devido à separação de seus responsáveis; os mais velhos parecem sofrer maiores traumas por conta da maior exposição à violência e maior consciência a respeito das consequências dos conflitos armados”, conta a pesquisadora.

Entre os fatores de proteção que Werner ressalta estão a manutenção dos vínculos entre o cuidador principal e a criança; a saúde mental da mãe; a disponibilidade de cuidadores adicionais, como avós e irmãos mais velhos; o apoio social dos membros da comunidade que estão expostos às mesmas dificuldades, especialmente professores e colegas; compartilhamento de valores similares; uma crença religiosa que ajude a dar sentido ao sofrimento; o sentimento de responsabilidade pelo bem-estar e proteção dos outros; um locus de controle interno e o uso de humor e altruísmo como mecanismos de defesa.

O fundamental é que aqueles que sobreviveram a um trauma, separação ou violência, recebam o apoio de que necessitam, tanto quanto possível. “O tempo não cura trauma em si, mas as crianças são resilientes”, indica a psicóloga. Uma criança ajudada por um adulto – falando, escrevendo sobre eventos traumáticos – pode começar este processo. Contudo, Werner realça que o mais importante é ouvir o que esses meninos e meninas têm a dizer. “Elas podem contar, melhor que qualquer profissional, o que a guerra provoca no espírito humano. Elas a testemunharam de perto e sem defesa. E aprenderam, como eu aprendi, que guerra não é para crianças”, conclui. 

Doenças da guerra

Vários estudos têm explorado os efeitos, em longo prazo, de traumas de guerra sobre a saúde física e mental de homens e mulheres alemães que eram crianças na II Guerra Mundial. Em 2007, uma pesquisa longitudinal explorou a relação entre o estado de saúde de idosos com 60 a 65 anos que viveram no país durante a guerra. Os resultados apontaram que aqueles que tinham testemunhado eventos como bombardeios e combates eram 2,3 vezes mais propensos a sofrer doenças graves que pessoas que não testemunharam tal violência. Já os que tinham participado ativamente na luta, recrutados como soldados, foram 4,9 vezes mais propensos a ter uma saúde debilitada. A separação forçada dos pais durante o período refletiu em uma probabilidade 3,6 vezes maior de desenvolvimento de problemas de saúde entre os idosos. Outro estudo, de 2011, que entrevistou mais de 1,4 mil alemães, com idade entre 60 e 85 anos, observou um aumento significativo dos riscos de diversas condições médicas influenciadas pelos traumas de infância de quem viveu uma guerra.