Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Juliana Passos
25/11/15

A natureza tem se mostrado que é um grande reservatório de substâncias que podem dar origem a medicamentos, sejam fitoterápicos, isto é, aqueles obtidos com emprego exclusivo de matérias-primas ativas vegetais (de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Anvisa), seja por meio do emprego de partes de plantas e animais (moléculas de origem natural) para a produção de remédios. A premiação do Nobel de Medicina e Fisiologia em 2015 é um importante exemplo nesse sentido. Em um dos estudos premiados, a química farmacêutica e médica Youyou Tu, da Universidade do Centro de Ciências Médicas da Universidade de Pequim, na China, conseguiu isolar a artemisina, substância presente na planta Artemisia annua, que compõem o conjunto de plantas medicinais chinesas. A artemisina é base de muitos medicamentos para o tratamento da malária desde a década de 1980, contribuindo para tratar pacientes em todo o mundo. William C. Campbell, da Universidade de Drew, nos Estados Unidos, e Satoshi Omura, da Universidade de Kitasato, no Japão, foram premiados pelos estudos com a avermectina. Produzida na fermentação da bactéria Streptomyces avermitilism, a substância tem revelado grande potencial para o tratamento de mais duas doenças tropicais, a elefantíase (filariose linfática) e a cegueira do rio (oncocercose).

Os investimentos e pesquisas sobre produtos naturais, como plantas e venenos de animais peçonhentos, por exemplo, têm mostrado resultados significativos. De acordo com Vanderlan Bolzoni, farmacêutica e professora do Departamento de Química Orgânica, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus de Araraquara, medicamentos com origem ou inspiração em plantas, organismos marinhos, microrganismos e insetos compõem uma parcela de77% dos fármacos antibacterianos, 53% dos medicamentos anticancerígenos, 80% dos antivirais.

Conhecimento tradicional

No caso das doenças tropicais negligenciadas, esse potencial ainda pode ser bastante explorado, de acordo com os pesquisadores do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), Lúcio Freitas-Júnior e Carolina Borsoi Moraes.“Temos uma necessidade que nunca foi atendida em relação a doenças tropicais. Em alguns casos nunca houve medicamentos; em outros, temos medicamentos antigos que enfrentam problemas de resistência, além de outros – como grave toxicidade e baixa tolerabilidade pelos pacientes”, afirmam.

No caso da malária, as bases do tratamento são medicamentos desenvolvidos a partir de duas plantas. Uma delas é a cinchona, um arbusto comum na Amazônia peruana e utilizado há cerca de 400 anos pelos indígenas para combater a febre causada pela malária. A planta foi levada para outras partes do mundo pelos jesuítas e, em 1820, químicos franceses conseguiram explicar o motivo da eficiência da planta, uma substância chamada quinina. Durante a Segunda Guerra Mundial, americanos conseguiram isolar algumas moléculas da planta e o tratamento com medicamentos à base de quinina se expandiram, permanecendo como os únicos existentes em grande escala, durante muitos anos.

A outra planta é a já mencionada Artemisia annu (na figura abaixo)Sob a coordenação pela química farmacêutica e médica Youyou Tu, o isolamento da artemisina começou nos anos 1960 e demorou anos de pesquisa para ser concluído. Segundo a pesquisadora do Centro de Pesquisas René Rachou, da Fundação Oswaldo Cruz, em Belo Horizonte (MG), Antoniana Krettli, isolar uma substância é sempre um desafio para os cientistas. O isolamento não significa que a substância esteja em sua forma pura, por isso é necessário testar várias combinações de moléculas até chegar a um tipo de medicamento realmente eficiente.

Pesquisas sobre a planta Artemisia Annu deram origem a um medicamento contra malária.

Os estudos sobre essa substância começaram a partir de tratados de medicina tradicional chinesa. O medicamento desenvolvido a partir dessa molécula, que chegou ao mercado na década de 1980, foi fundamental porque as drogas utilizadas até então já eram pouco efetivas no tratamento da malária. Desde então, milhares de pacientes acometidos pela malária transmitida pelo parasita Plasmodium falciparum – a mais letal – puderam ser tradados. Essa variedade de parasita é mais comum em países da África subsaariana, no Brasil, 90% dos casos de malária são causados pelo protozoário Plasmodium Vivax, que raramente leva a morte. 

Menos efeitos colaterais - Atualmente, a recomendação da OMS para o tratamento da malária baseia-se no uso do medicamento ASMQ, uma combinação de artesunato e mefloquina (ambos desenvolvidos a partir da Artemisia annu). O medicamento foi desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia de Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), em parceria com a DNDi (sigla em inglês da Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas). A inovação do medicamento foi associar as duas substâncias, antes utilizadas separadamente. O novo fármaco passou a ser utilizado em todo mundo e, por apresentar menos efeitos colaterais, propiciou maior adesão ao tratamento. Atualmente a Farmanguinhos pesquisa novas formulações para melhorar ainda mais esse medicamento. Em 2011, foi anunciado o desenvolvimento do Mefas, uma evolução do ASQM, que deve gerar ainda menos efeitos colaterais e tem capacidade superior de tratamento da malária. Mas, esse composto ainda precisa passar por pelos menos três etapas de testes clínicos (em humanos)

Um mundo para explorar

O Laboratório de Malária, no Centro de Pesquisas René Rachou, tem como o principal objetivo investigar substâncias com potencial para o desenvolvimento de medicamentos para tratar a malária. O Laboratório recebe amostras de todas as partes do Brasil para serem testadas. A equipe, chefiada por Krettli, já testou mais de 100 plantas, muitas delas levadas ao laboratório a partir do conhecimento do seu uso tradicional. Os testes também servem para avaliar a toxidade das novas combinações que servem como base para os medicamentos. Por enquanto, nenhuma delas demonstrou uma capacidade superior a da artemisina no tratamento da malária.

Este ano foi implantando no LNBio, que tem sede na cidade de Campinas, interior de São Paulo, um banco de organismos para testes e produção de futuros medicamentos. Por enquanto ele é composto majoritariamente por bactérias marinhas, plantas do cerrado e da Mata Atlântica, cujo potencial não se restringe ao tratamento de doenças tropicais. Trata-se de um mundo de possibilidades, que exige critérios para seleção de pesquisa. “Primeiramente buscamos diversidade biológica. Para estruturas novas tentamos investigar espécies que ainda não foram estudadas. Biomas brasileiros pouco explorados são uma boa fonte. Também pensamos em sustentabilidade, pois precisaremos de uma grande quantidade dos compostos ao longo de um projeto de descoberta de drogas”, afirmam Freitas-Júnior e Carolina Moraes.

O LNBio integra o projeto New Medicines for Trypanosomatidic Infections (NMTryI), um consórcio internacional para o desenvolvimento de fármacos contra a doença de Chagas, leishmaniose e doença do sono. O projeto, iniciado em 2014, é financiado pela União Europeia com investimento de 7,6 milhões de euros até 2017, dos quais 365 mil serão destinados ao laboratório em Campinas.