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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

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Por Guilherme Borges
17/11/16

Todo sábado pela manhã, a bióloga e professora de ioga Taís Benato vai à feira próxima à sua casa, em Brasília. Um hábito de vários brasileiros, não fosse o detalhe que a feira que ela frequenta é organizada por pequenos produtores locais de alimentos orgânicos, o que possibilita que ela saiba como foi produzido o que está levando para casa e ainda movimente a economia local. “Eu conheço quase todos os produtores. É fundamental para eu ter confiança se os alimentos que estou comprando são orgânicos mesmo. A gente vai conversando, conversando e vou me certificando. Além de que muitos abrem suas chácaras para a gente conhecer”, explica. Para ela, é fundamental que o que a alimenta seja produzido de uma maneira integrada com a natureza, com menos impacto.

Hábitos como este são fundamentais para que o consumidor perceba que ele é uma peça fundamental para melhorar o modo como os alimentos são produzidos e, principalmente, a qualidade do que se coloca à mesa do brasileiro. É o que defende o produtor rural Rômulo Cabral de Araújo. No supermercado o consumidor não tem como se aproximar do produtor, não há como saber se aquele alimento que está exposto foi produzido e como chegou até ali.  “Tudo se resume à conscientização das pessoas, elas têm que entender que as ações delas impactam nos produtores rurais e nos arranjos econômicos do país”, destaca.

Essa percepção de uma outra forma de consumir e produzir alimentos é um dos princípios da agroecologia, movimento do qual Araújo faz parte. Ele produz hortaliças e legumes no Núcleo Rural Lago Oeste, em Sobradinho, no Distrito Federal. A agroecologia, segundo o professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Rodrigo Machado Moreira, é um sistema de produção que busca a reconexão com os ritmos da natureza. “A gente pode entender a agroecologia como um sistema de produção sustentável do ponto de vista ecológico, social, cultural e bastante aplicado à pequena escala. Mas ela é também uma crítica à agricultura industrial e, ao mesmo tempo, um movimento social e científico de mudança de paradigma”, explica.

Moreira é doutor em agroecologia, sociologia e desenvolvimento rural sustentável pela Universidade de Córdoba, na Espanha, e atualmente também é coordenador de projetos de extensão rural no Instituto Giramundo Mutando, uma instituição sem fins lucrativos que promove práticas agroecológicas de produção agrícola, com enfoque no desenvolvimento local sustentável. Desde 1998, quando foi criado, o instituto busca fortalecer o movimento agroecológico tendo em vista o desenvolvimento de uma agricultura ambientalmente equilibrada e socialmente justa. As equipes da organização oferecem suporte técnico para produção artesanal, produção agrícola familiar, comunitária e orgânica, assim como dá suporte a comercialização desses produtos. O Giramundo disponibiliza online e gratuitamente seis cadernos sobre agroecologia, desenvolvimento rural sustentável, agricultura familiar, segurança alimentar e nutricional, comercialização na agricultura familiar, e pecuária leiteira ecológica na agricultura familiar, com linguagem e ilustrações acessíveis para auxiliar produtores rurais. A coleção toda está disponível na página do Instituto.

Princípios da agroecologia

A produção agroecológica se baseia no princípio de que é preciso manter um equilíbrio ecológico por meio da diversidade de cultivos, rejeitando a monocultura. Quanto maior o equilíbrio, maior a capacidade de as culturas resistirem a pragas e doenças e de se manterem produtivas ao longo do tempo.  De acordo Araújo, ao pensar de maneira agroecológica, é preciso considerar a associação de plantas que e beneficiam ao serem plantadas de forma conjunta. “A gente observa o tempo e o espaço. Utiliza melhor o canteiro e pensa na sucessão, em como associar plantas que vão produzir em tempos diferentes, como por exemplo, alface, brócolis e berinjela, mas respeitando o ritmo e o sistema de cada planta”, esclarece.

Outro princípio da agroecologia é a manutenção de um solo “vivo”, o que não combina com o uso de agrotóxicos que matam organismos como bactérias, fungos, protozoários, vermes e insetos que auxiliam na decomposição de matéria orgânica e mineral que, por sua vez, alimentam as plantas que estão sendo cultivadas. “A produção agroecológica acaba sendo sempre orgânica, porque não utiliza agrotóxicos em nenhuma quantidade. Já o que se chama de produção orgânica no Brasil, nem sempre é agroecológica, as vezes ela tem um sistema bem parecido com o industrial, apenas respeitando as regras impostas pelo governo para certificação como orgânica”, explica Araújo.

Para a agroecologia, plantas doentes ou o aparecimento de pragas não são necessariamente um problema e podem servir como indicadores do que está faltando naquele agro ecossistema. Neste caso, é preciso desenvolver técnicas de controle biológico e fisiológico, que atuem naturalmente no controle das pragas e doenças, promovendo a qualidade do solo, peça-chave para a produção. Uma das técnicas para manter o solo fértil é mantê-lo sempre coberto com vegetação por meio da adubação verde, que consiste na deposição de matéria orgânica não decomposta, que nada mais é do que folhas, galhos e raízes. Um adubo natural e gratuito que exige apenas o conhecimento das técnicas para sua aplicação.

Uma dificuldade é que estas técnicas não são conhecidas nem mesmo por técnicos rurais e quando eles conhecem, há uma resistência por parte dos produtores. “Há um desgaste entre técnicos e produtores. Por muitos anos, os técnicos rurais desconsideraram os saberes populares e culturais, então os agricultores têm resistência grande. A melhor forma de fazer extensão rural, então, é de agricultor para agricultor, pela troca de experiências”, explica Moreira.

Desafios de produção

Por promover mudanças significativas na forma de pensar a produção agrícola, especialmente em um sistema capitalista que incentiva a monocultura e produção em escala industrial, a agroecologia enfrenta alguns desafios. O sistema de produção agroindustrial tem impactos significativos mesmo para quem não o adota. Na perspectiva da produção, os agricultores são estimulados – quando não pressionados –pelas casas agrícolas e até mesmo por órgãos de assistência técnica, a desenvolver um sistema com a lógica convencional. E, na perspectiva do comércio, as redes varejistas exigem um padrão e uma quantidade regular de produção que força o produtor a adotar os padrões convencionais e deixar a inovação e a reconfiguração da sua produção de lado.

Outro aspecto que desafia a produção agroecológica é a capacidade de produção em larga escala e o custo da produção. Para o professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo - Campus São Roque, Leonardo Pretto de Azevedo, “não há dúvidas que o alimento produzido no sistema agroecológico é melhor que o convencional, mas a questão é o acesso a ele”. Doutor em Agronomia pela Unesp de Botucatu, ele pondera se seria possível produzir o que se produz hoje no Brasil de forma agroecológica, afinal, a maior parte da produção atual é de hortaliças, legumes e algumas frutas. “Não se produz milho, soja ou arroz, por exemplo, em larga escala” para a alimentação humana, problematiza, lembrando que 80% da produção nacional de milho e soja é para alimentação animal.

Além disso, Azevedo ressalta que, em momentos de crise econômica, o consumidor brasileiro tende a restringir a diversidade alimentar e acaba recorrendo ao tradicional arroz com feijão, produtos que ainda não tem uma produção agroecológica expressiva. “Os custos para a produção agroecológica ainda são maiores e isso acaba impactando no preço que chega para o consumidor”. O que ele sugere diante desta realidade é o fortalecimento de feiras de produtores. Proposta compartilhada por Moreira: “a recomendação é ir à feira de agricultores locais e buscar contato direto com quem produz. O consumidor está mal-acostumado por ter tudo à disposição no supermercado”.

Consumir de acordo com a sazonalidade

Se o respeito ao ritmo da natureza é um elemento-chave na produção agroecológica, ele deve compartilhado com o consumidor que precisa compreender as dinâmicas sazonais de produção. Para oferecer determinados alimentos todos os meses na banca do mercado ou nas feiras livres, é preciso lançar mão de técnicas de produção agrícola que envolvem adubagem química, agrotóxicos e sementes modificadas. De acordo com Araújo, o “consumidor quer o produto perfeito, sem marcas, sem se importar com a sazonalidade”.

Mas é possível consumir o ano todo respeitando o ritmo da natureza? Pensando na distribuição temporal de diversas culturas, o Instituto Akatu, uma organização não governamental sem fins lucrativos que trabalha pela conscientização e mobilização da sociedade para o consumo consciente, sistematizou uma tabela com frutas de época brasileiras. O objetivo é estimular os consumidores a optarem por frutas da estação, que são mais saborosas, acumulam mais nutrientes e tendem a ser mais baratas. 

Reprodução Akatu / Fonte: Ceagesp, Embrapa, Instituto Agronômico de Campinas, Instituto Brasileiro de Frutas

Para Tais Benato, incorporar o conceito de sazonalidade no consumo de alimentos é uma questão de reeducação, afinal, de rever os próprios hábitos. “Quando aprendemos a respeitar a natureza, a gente desacostuma com essa coisa de ir ao mercado e comprar o que você quer, na hora que quer. E consumir respeitando a sazonalidade tranquiliza, porque sei que é o que a natureza deu e não precisou de insumos químicos ou de um processo forçado para ser produzido”, finaliza.