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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Por Patricia Piacentini
23/9/15

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde foram entrevistados 598 adolescentes entre 14 e 17 anos, revelou dados preocupantes: 26% dos jovens relataram já ter sido vítima de bullying. A frequência encontrada nos meninos (28%) foi um pouco maior quando comparada com a das meninas (24%). A pesquisa mostrou ainda que, na maioria das vezes, os abusos ocorrerem no ambiente escolar: 66,8% dos entrevistados (no âmbito da pesquisa “Saúde em Beagá”, realizada pelo Observatório da Saúde Urbana de Belo Horizonte) apontou a escola ou o percurso casa/escola como local onde sofreram bullying, caracterizado como um tipo de violência que aparece em brincadeiras humilhantes, intimidações e até agressões físicas.

“O bullying é uma forma de comportamento agressivo em que indivíduos em posição dominante têm intenção de causar sofrimento mental e/ou físico a outros”, descreve a psicóloga e professora da Faculdade de Medicina da UFMG, Michelle Ralil Costa. “O que o difere das demais formas de violência é a repetição, pois não se trata de um ato isolado, mas decorre de atitudes repetidas contra uma mesma vítima. Outro diferencial é a intencionalidade de causar dano ou prejudicar alguém que normalmente é percebido como mais frágil”, complementa. A pesquisa mostrou ainda que o relato de bullyingestava associado com envolvimento em brigas, insatisfação com a vida, dificuldades de relacionamento com os pais e insegurança na vizinhança. “Características individuais são relevantes quando se trata de bullying, mas são principalmente as características do contexto - como a relação com a família - que podem interferir na vitimização por este tipo de violência”, explica Costa.

O termo bullying vem do inglês bully e quer dizer valentão. Apesar de ser mais difundido de uns tempos pra cá, principalmente por conta do destaque dado pela mídia, esse tipo de violência sempre existiu. “A divulgação do termo se tornou mais constante quando tragédias ocorridas em escolas norte-americanas foram relacionadas à prática de bullying”, lembra a pedagoga Ivone Pingoello, da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Um dos efeitos da divulgação mais intensa foi o crescimento no número de denúncias. “Por outro lado, ocorre certa banalização do termo. Muitas agressões que não têm o caráter de repetição acabam sendo consideradas bullying”, afirma Costa.

Pesquisando o fenômeno

O fenômeno está presente em todo o mundo e os números no Brasil são semelhantes à média dos outros países. “A prevalência de bullying no mundo varia de 8 a 46%. Essa variação acontece tanto por diferenças culturais, quanto pelo tipo de estudos realizados”, aponta a pesquisadora da UFMG.

As pesquisas sobre o fenômenonão são recentes. A Noruega foi pioneira. Em 1982, o país realizou uma ampla pesquisa logo após o suicídio de três adolescentes que teve larga repercussão na imprensa. Uma das hipóteses levantadas na época foi que os estudantes teriam sofrido bullying”, conta Deborah Carvalho Malta, professora e pesquisadora da Escola de Enfermagem da UFMG e diretora da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. “Os resultados da pesquisa apontaram que 15% dos alunos estavam envolvidos em problemas de bullying, como vítimas ou agressores. Aproximadamente 9% eram vítimas, 7% eram agressores ou bullies e1,6% eram vítimas e agressores”, detalha.

Duas edições da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aborda, entre outros temas, o bullying,possibilitaram dimensionar sua ocorrência entre adolescentes nas escolas das capitais brasileiras. A primeira, realizada em 2009, em uma amostra com 60.973 estudantes do 9º ano do ensino fundamental de 1.453 escolas públicas e privadas, das 26 capitais dos Estados brasileiros e do Distrito Federal, apontou que 5,4% dos estudantes relataram ter sofrido bullying. Em 2012, uma nova edição da PeNSE, com uma amostra bem mais ampliada (109.104 estudantes do 9º ano do ensino fundamental de 2.842 escolas públicas e privadas) mostrou o aumento da prevalência do bullyingem adolescentes escolares nas capitais (6,8%), o que atesta crescimento do problema no país. “Esses resultados mostram que o contexto escolar brasileiro também tem se constituído em um espaço de reprodução da violência”, comenta Malta.

Consequências

Obullying é um problema de saúde e pode acarretar às vítimas distúrbios comportamentais e emocionais que refletem na vida escolar e pessoal. “Pode acarretar estresse, ansiedade, diminuição e perda da autoestima e, em casos mais graves, levar ao suicídio. Na escola, as consequências podem ser a baixa do rendimento escolar, brigas e até o abandono da escola”, salienta Costa.

O fenômeno tem um forte impacto negativo na vida social e pessoal, visto que afeta ou interrompe as relações e os vínculos entre os pares. “Há relatos de crianças e adolescentes que sofreram bullying durante anos e que, posteriormente, desenvolveram resiliência e superaram o conflito de forma positiva. Entretanto, há relatos de indivíduos que desenvolveram distúrbios emocionais e de saúde severos, alguns com desfechos trágicos. Constantemente, assistimos matérias veiculadas na mídia indicando que muitas vítimas de bullying se tornaram pessoas potencialmente agressivas, suicidas e até mesmo assassinas”, alerta Débora Malta.

Pingoello destaca as consequências dessa violência na aprendizagem, como queda na concentração e dispersão em pensamentos de expectativas de um novo ataque, estratégias de defesa ou de vingança, seguido pelo desinteresse pelos estudos e queda no rendimento escolar, absentismo e evasão. “O aluno vítima do bullying sendo tímido, em decorrência dos sucessivos ataques torna-se mais introvertido e no caso de restar dúvidas quanto ao conteúdo da aula, teme questionar com medo de novos insultos. Não conseguindo acompanhar a turma e sendo a escola um ambiente que lhe proporciona infelicidade, o aluno começa a inventar desculpas para faltar à aula”. A vítima tende a se isolar ou por vergonha de si mesmo ou por medo de chamar a atenção dos seus agressores. “Comprometem com esta atitude a oportunidade de novos relacionamentos, comportamento que pode persistir no decorrer da vida acadêmica e no local de trabalho”, completa a pedagoga.

Como lidar?

O bullying é um fenômeno complexo. “As pesquisas e a prática têm mostrado que o enfrentamento do problema só terá efetividade numa perspectiva intersetorial. Especialmente as áreas da saúde e da educação precisam estar integradas neste enfrentamento. E é na escola que essas redes sociais de proteção devem ser estabelecidas, numa perspectiva da promoção da saúde, uma vez que o bullying e a violência escolar precisam ser reconhecidos como problemas não somente educacionais, mas de saúde e, sobretudo, como uma questão social”, defende Malta. Neste contexto, gestores, educadores, pais e profissionais da saúde têm papel fundamental na prevenção e na interrupção deste tipo de violência escolar, acolhendo e dando suporte profissional e afetivo às vítimas e intervindo de forma efetiva, junto aos agressores.

Pingoello alerta ainda que as intervenções diretas sobre a vítima e o agressor devem ser feitas em particular. Os únicos procedimentos envolvendo a classe, ou a escola como um todo são os procedimentos preventivos. “O aconselhamento é que o diálogo seja feito por alguém neutro na situação, um professor ou pedagogo que não tenha envolvimento emocional com nenhum dos envolvidos. O agressor, muito mais do que ouvir, precisa falar, ele tem que se expressar para promover a reflexão e consequentemente as mudanças desejadas”. Ela explica que a escuta ativa promovida pelo professor ou equipe pedagógica é muito eficaz como estratégia antibullying. “Escutar ativamente o agressor permite entender as causas do comportamento bully, promovendo autorreflexão e responsabilização dos atos praticados. No aluno vítima, a escuta ativa proporciona uma sensação de acolhimento, respeito aos seus anseios e dificuldades, promove uma exteriorização dos seus pensamentos possibilitando uma reorganização e melhor percepção do problema enfrentado”, complementa.

As instituições de educação e seus profissionais devem reconhecer a extensão e o impacto gerado pela prática de bullyingentre estudantes e desenvolver medidas para reduzi-la rapidamente. “É recomendável que sejam competentes para prevenir, investigar, diagnosticar e adotar as condutas adequadas diante de situações de violências que envolvam crianças e adolescentes, tanto na figura de autor, como na de alvo ou testemunha. Esse tipo agressão precisa ser identificado o quanto antes para que suas consequências não sejam agravadas. Um canal de comunicação dos jovens tanto com a família quanto com a escola pode propiciar a confiança daqueles que sofrem violência em relatar o seus incômodos”, afirma Costa.

Algumas iniciativas preventivas no âmbito federal já existem como a cartilha Justiça na Escola, do Conselho Nacional de Justiça, de 2010. “São diretrizes sobre o bullying para professores e profissionais da escola reconhecer e identificar situações características na escola para poder intervir”, esclarece Malta.

Para Michelle Costa, a grande questão é a educação: as crianças precisam aprender a respeitar a todos e, principalmente, as diferenças. “Talvez o maior desafio da contemporaneidade seja educar os filhos. Aos pais cabe transmitir valores e também exigir que sejam cumpridos. Cabe o resgate da gentileza, do saber ouvir, dar a vez e principalmente, respeitar as regras que a própria vida impõe. O corre-corre como modo de viva imperativo nos dias atuais não deve sobrepor a aplicação de limites e de afeto”, aconselha.

Cyberbullying

O bullying está presente também nos meios digitais, principalmente com a disseminação das redes sociais, podendo ser ainda mais nocivo e complexo por conta da rapidez em que as informações se disseminam. “Pode propiciar aos agressores o anonimato ou incentivar uma cadeia de agressão por parte de pessoas que sequer conhecem a vítima, mas se apoiam numa característica de fragilidade, podendo denotar ao cyberbullying proporções absurdas”, destaca Costa.

A atual legislação brasileira não é clara quanto a crimes cibernéticos. Débora Malta lembra, no entanto, que existe um anteprojeto para reforma do Código Penal, iniciado em 2011, que tipifica crimes cibernéticos, dentre eles, o cyberbullying. Em seu artigo 48 o projeto diz que “Intimidar, constranger, ameaçar, assediar sexualmente, ofender, castigar, agredir, segregar a criança ou o adolescente, de forma intencional e reiterada, direta ou indiretamente, por qualquer meio, valendo-se de pretensa situação de superioridade e causando sofrimento físico, psicológico ou dano patrimonial” resulta em pena de prisão de um a quatro anos. “Mas isto ainda está em discussão. É importante a sociedade discutir formas de conter este fenômeno contemporâneo”, diz Malta.

Para combater o cyberbullying, Pingoello acredita que é importante intensificar o diálogo com quem usa essas redes, amparando a criança ou adolescente que estiver envolvido. “É preciso denunciar, tirar cópias das páginas com as ofensas, não apagar nenhum registro e procurar a delegacia mais próxima para registrar o crime. É necessário também procurar o Conselho Tutelar e solicitar representação do Ministério Público. Para a vítima, é importante ajuda psicológica”, alerta.