Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Mariana Castro Alves
6/1/16

Natural e produzida a partir da seiva de uma árvore chamada seringueira (Hevea brasiliensis), a borracha foi responsável por escrever parte da história do Brasil, deixando marcas importantes como a anexação do território do Acre e a construção de cidades como Belém e Manaus.

A borracha brasileira já era exportada desde o início do século XIX. Nos anos 1840 eram exportadas em média 460 toneladas por ano, a 45 libras por tonelada. O boom de venda desse produto ocorreu entre os anos 1879 e 1912 quando a borracha se tornou o produto mais procurado no mercado mundial, segundo o economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004). O fim do século XIX e início do XX coincidem com o nascimento e crescimento da indústria automobilística, que precisava da borracha, principalmente para fabricação de pneus. A partir dessa demanda, em pouco tempo, toda a economia brasileira passou a depender do látex, extraído da seringueira, árvore que existia em abundância e, até então, exclusivamente na bacia hidrográfica do rio Amazonas.

A partir de 1850 a quantidade de borracha exportada subiu para 1,9 mil toneladas e, na década de 1870, 3,7 mil toneladas do produto. O aumento da demanda fez preços subirem: de 118 libras, nos anos 1850, passando para 125 na década seguinte e chegando a 182 libras nos anos 1870. Entre 1909 e 1911, a cifra bateu 512 libras por tonelada, conforme afirma Celso Furtado no livro Formação Econômica do Brasil.1

Motor de mudanças

A venda da borracha transformou Belém e Manaus a modelos de riqueza e requinte. Na passagem do século XIX para o XX, as duas cidades passaram por grandes remodelações urbanísticas, com a construção de grandes avenidas, rede de esgoto e de água encanada, instalação de rede luz elétrica e bondes, o que ainda era luxo para São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo. Casas bancárias e suntuosos prédios públicos foram construídos. O Teatro Amazonas tornou-se símbolo da prosperidade econômica e cultural proporcionada pela borracha.

Vista interna do Teatro Amazonas. Foto Carla Lima/Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas.

Foi nessa época que o território do Acre, que pertencia à Bolívia, foi anexado ao Brasil. Os desentendimentos entre os dois países começaram quando seringueiros brasileiros passaram a invadir a região para retirar látex das árvores. Em vez de partir para o conflito armado, Brasil e Bolívia decidiram negociar. Em 1903 foi assinado o Tratado de Petrópolis, pelo qual o Brasil compra o Acre e se compromete a construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

O trabalho nos seringais

A extração do látex foi uma das primeiras experiências de trabalho sem utilização de mão de obra escrava no Brasil. Isso não quer dizer que as condições enfrentadas pelos seringueiros tenham sido fáceis. Conforme escreve o professor aposentado da Faculdade de Estudos Sociais, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), José Seráfico, “enquanto, no ermo da floresta, seringueiros desde a madrugada percorriam suas “estradas”, ferindo a hevea brasiliensis e dela extraindo a valiosa seiva, outros agentes desempenhavam papel indispensável à configuração desse novo modo de produção. Os aviadores intermediavam os negócios, de tal sorte que lhes cabia fornecer aos homens da floresta os gêneros de primeira necessidade, em troca de certa quantidade de seringa. Em contrapartida, recebiam o resultado da faina diária e cansativa dos seringueiros, que repassavam às casas exportadoras”. Na opinião dele, aos seringueiros restavam dívidas crescentes, a cada nova safra. Por isso, foram poucos os que fugiram à condição de devedores vitalícios dos seringalistas e aviadores.

“A imagem do seringueiro como “escravo da dívida” é um exagero para a maioria da Amazônia. Eles tinham significativa autonomia e mobilidade”, afirma Barbara Weinstein, do Departamento de História da New York University. Os seringueiros geralmente tinham dívidas junto a um aviador, um patrão que comprava a borracha dos seringueiros e fornecia aos trabalhadores alimentos, ferramentas etc. Porém, com o crescimento da exploração de modo disperso, os seringueiros trabalhavam sem muita supervisão. “A maioria não foi “escravizada” ou “coagida” da maneira que nós entendemos esses termos”, diz. “Mas suas vidas eram cheias de dificuldades e perigos, especialmente por conta das doenças tropicais, risco de picada de cobras, ataques de índios, além da solidão e monotonia da rotina no trabalho com a borracha”, afirma Weinstein. Ainda segundo ela, a julgar pelos censos daqueles anos, os seringueiros moviam-se para oeste sempre que a quantidade de látex declinava.

Apesar dessa “liberdade”, havia algumas áreas, especialmente longínquas e rio acima, partes mais remotas da Amazônia, em que os povos indígenas foram praticamente escravizados, ressalva Weinstein. Nessas áreas – especialmente no rio Putumayo, que nasce na Colômbia – o tipo de seringueira era a Castilla elastica (ou árvore da borracha do Panamá) que, diferentemente da Hevea brasiliensis (a seringueira), não podia ser aproveitada diversas vezes e, por isso, era destruída no processo de produção. Isso teria contribuído para relações brutais de exploração nessas regiões. “Na maior parte da Amazônia brasileira, a Hevea era a principal fonte de látex e podia ser lucrativamente explorada por muitos anos, o que era um incentivo para relacionamentos de longo prazo de patrocínio e clientela entre os seringueiros e os aviadores. Mas, onde as árvores seriam destruídas pelo processo de coleta, os comerciantes da borracha estavam apenas interessados em extrair o máximo de trabalho possível de pessoas de fora da população local, e, para isso, recorreram a métodos extremamente brutais para fazê-lo”, explica.

Declínio

O início da produção de borracha na Ásia foi determinante para o declínio do Ciclo da Borracha na Amazônia. No final do século XX, naquele que pode ser um dos primeiros casos de biopirataria em massa no Brasil, o aventureiro inglês Henry Wickham (1846 – 1928) contrabandeou sementes de seringueira para a Inglaterra. Enquanto na Amazônia quase toda a borracha exportada era silvestre, com árvores espalhadas pela floresta, o que limitava a quantidade de látex recolhido por trabalhador, nas colônias asiáticas dos ingleses (e depois dos holandeses e franceses), as árvores passaram a ser cultivadas juntas, no esquema de “plantation”. Além disso, na Ásia, as árvores estavam livres do fungo Microcyclus ulei que começava a atingir as seringueiras no Brasil. “As plantações asiáticas aumentaram grandemente o fornecimento de borracha e representaram diminuição dos custos de produção e transporte”, conta Weinstein.

De acordo com a pesquisadora da New York University, o ciclo da borracha teve alguns efeitos “dramáticos” na região Norte. “Em primeiro lugar, a borracha foi responsável por aumentar muito a população da Amazônia, como resultado do afluxo de migrantes do Nordeste”, afirma a historiadora. “O boom também consolidou um setor comercial em muitas cidades, dando a elas uma feição mais cosmopolita. Isso permitiu a sobrevivência de determinadas instituições após o declínio do ciclo”, aponta a brasilianista. “Ao mesmo tempo, o impacto sobre a população indígena não foi necessariamente positivo, na medida em que comunidades indígenas se viram competindo com seringueiros e colonos pelo território na floresta”, diz.

Para Pedro Paulo Funari, do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Ciclo da Borracha foi uma época de grande investimento econômico, com oportunidades de crescimento social das classes inferiores e que trouxe uma colonização sem precedentes da região. “No entanto, em pouco tempo, tudo terminou em declínio, por circunstâncias internacionais, com competidores na produção da borracha que levaram à derrocada”, afirma. “A lição, ou que o restou desse período, é que surtos econômicos por demanda externa (como aconteceu nos últimos 12 anos no Brasil por conta do crescimento da demanda chinesa por matérias-primas) não garantem benefício de longo prazo. Ao contrário, induzem à ilusão de que oportunidades não dependem de empenho de longa duração”, acredita o historiador.

Tentativas de reinvenção – os soldados da borracha

Propaganda foi arma valiosa para atrair trabalhadores para os seringais. Reprodução Portal Rondônia. 

Durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), o fornecimento da borracha asiática para as potencias industriais da época foi interrompido. Retomar a produção amazônica surgiu como uma possibilidade de resolver o problema. Um acordo com o governo norte-americano iniciou um programa no Brasil que levaria cerca de 60 mil pessoas, a maioria de estados nordestinos, à Região Amazônica para trabalhar na extração do látex das seringueiras da floresta. A borracha era enviada aos Estados Unidos e usada nos equipamentos dos Aliados para a guerra contra as forças do Eixo. Os trabalhadores eram recrutados pelo Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta), por meio de intensa propaganda do governo Vargas, que apelava ao patriotismo e para uma luta contra o nazismo, por isso os trabalhadores recrutados eram chamados de “soldados da borracha” indo lutar na Batalha da borracha. No entanto, se na ida esses homens tinham status de soldados, sua experiência na Amazônia passou bem longe disso. Para se ter uma ideia, dos 20 mil combatentes que foram para a Itália, menos de 500 morreram. A Batalha da borracha deixou ao menos 30 mil mortos em razão das péssimas condições de trabalho. Com o fim da guerra os acordos com os Estados Unidos foram cancelados e pouco a pouco o governo brasileiro abandonou a produção de borracha na Amazônia. Estava perdida a Batalha da borracha. A partir da Constituição de 1988, esses soldados passaram a receber uma pensão (cinco vezes menor que dos pracinhas). Em 2015, ex-soldados da borracha, viúvas e dependentes receberam indenizações do Estado.

Fontes: Agência Senado e Revista História Viva

Para saber mais:

Weinstein, Barbara. A Borracha na Amazônia: Expansão e decadência 1850-1920 (Edusp, 1983).

Serafico, José. Teatro Amazonas: símbolo de quê? Cienc. Cult., São Paulo, v. 61, n. 3, 2009.





1 FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000. p.135-140.