Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Bruna Garabito
Ana Claudia R. Costa D. Mello

Falar sobre mulheres para muitos ainda parece algo novo. Pouco se lê sobre elas nos livros de História. É sempre pequena sua participação em filmes históricos e pouco se ouve sobre elas em palestras e aulas. E, quando falamos sobre mulheres e guerras, a ideia soa quase antagônica. Mas, afinal, elas participavam dos conflitos? Estavam presentes em que níveis e com quais funções? Eram convocadas ou se voluntariavam?

A ideia da mulher em combate não é produto do século XX. Atualmente estamos rodeados de notícias e reportagens que marcam conquistas importantes das mulheres no cenário militar, no Brasil e no mundo. São nomeações de oficiais; pilotos de aviões comerciais e militares; a obrigatoriedade do serviço feminino em Israel, dentre vários outros. As conquistas dos direitos das mulheres são, hoje, resultado de lutas que atravessaram décadas e venceram preconceitos, mas que ainda têm muito que avançar – inúmeros são os debates e críticas sobre mulheres se tornarem militares e atuarem em conflitos. Muitos consideram inaceitável uma mulher presente no front como combatente. No entanto, há muito exemplos através dos séculos.

Na Idade Média, período em que vários conflitos aconteceram na Europa, as mulheres puderam provar suas habilidades militares como cavaleiras. Entre mito e história, elas foram líderes importantes. Joana D’arc foi uma camponesa francesa que comandou parte do exército francês na Guerra dos Cem anos (1337-1453) e se tornou santa e mártir da França; Maria Quitéria foi a primeira mulher a servir oficialmente ao exército brasileiro na Guerra do Paraguai (1864-1870); Boudica foi rainha do povo britânico celta e comandou os icenos contra a dominação romana na Bretanha (ano 60 ou 61 d.C.). 

Contudo, a participação das mulheres nas guerras é lembrada por conta de sua presença maciça nos esforços de guerra, trabalhando em fábricas de armamentos e munição, e em posições que tradicionalmente seriam ocupadas pelos homens. A participação feminina teve grande importância nas duas grandes guerras mundiais – tanto por sua proporção quanto pela condição que a mulher vinha ganhando socialmente.

A primeira guerra mundial (1914-1918)

No final do século XIX e começo do século XX, a Europa assistia a um fortalecimento dos movimentos feministas. Mulheres reivindicavam maior participação política e maior espaço no mercado de trabalho. O trabalho nas fábricas resumia-se aos setores têxteis, às escolas e a alguns postos do governo. No âmbito doméstico, trabalhavam como faxineiras, babás ou em creches. A Primeira Guerra Mundial, no entanto, interrompe o movimento, ao mobilizar as mulheres para o esforço de guerra. Na Grã-Bretanha, elas foram trabalhar em fábricas e em serviços auxiliares, e ainda foram convocadas para compor o efetivo de grupamentos femininos das diferentes forças armadas. Entretanto, elas recebiam bem menos que os homens pelo mesmo serviço.

Nas fábricas, trabalhavam na produção de armamentos e munições, embalagens, ferramentas. Toda a indústria estava voltada a suprir às necessidades da guerra. Nos serviços auxiliares, trabalhavam como bombeiras, guardas de trânsito, paramédicas, motoristas. Os exércitos criaram órgãos exclusivamente femininos para liberar os homens do serviço administrativo. Neste período, as mulheres provaram suas habilidades em todos os setores. Quebrando recordes de produção e como exemplo de eficiência, construíram um legado que viria a se repetir na Segunda Guerra Mundial.

Em 1918, a Primeira Guerra Mundial chegou ao fim e, com isso, os órgãos femininos foram sendo pouco a pouco desmobilizados. O motivo principal dado pelas forças armadas foi que seria muito custoso manter instalações e a organização própria dos órgãos, que já não teriam funções de existir, já que os homens retornavam do conflito. Nas fábricas, os desligamentos não foram totais, mas significativos. Pesquisas mostraram que, ao final da guerra, as mulheres voltaram para o ambiente familiar, tamanha tragédia e sofrimento trazidos pelo conflito.

A segunda guerra mundial (1939-1945)

Em 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pelos alemães, a Segunda Guerra Mundial foi oficialmente declarada, e novamente as mulheres foram convocadas a trabalhar. A experiência da Primeira Guerra foi aproveitada e intensificada, e, já em 1940, o número de mulheres empregadas nas fábricas atingiu a capacidade máxima. A quantidade de órgãos militares praticamente dobrou e, em todos os cantos do mundo, elas apareceram como soldadoras, enfermeiras, pilotos de aviões, motoristas, secretárias, datilógrafas, etc.. Enfim, estavam em toda parte.

As funções femininas eram específicas em cada país. Na maioria dos países aliados, as mulheres eram convocadas para todas as frentes de trabalho, desde o setor industrial até os exércitos. Já a Alemanha manteve, por muito tempo, centros onde as mulheres serviam como “reprodutoras e perpetuadoras da raça pura” – os lebensborn. Apesar das diferenças, todos eles tinham algo em comum: as mulheres não tinham a permissão para atuar na linha de frente, como combatentes.

Crédito imagem: Reprodução

Na URSS, entretanto, aconteceu o contrário e houve registros de mulheres combatentes desde o século XIX. A franco-atiradora Lyudmila Pavlichenko e Marina Raskova, pilotos bombardeiros, são sempre lembradas quando se fala da participação de mulheres na Segunda Guerra Mundial. Raskova também liderou um dos esquadrões de bombardeio noturno, apelidado pelos alemães de Bruxas da Noite, tamanha a destreza dos pilotos nos ataques aéreos. Muitas foram condecoradas como heroínas de guerra.

No Brasil, a participação das mulheres se deu por meio do envio de 73 enfermeiras para ajudar a Força Expedicionária Brasileira (FEB), em missão na Itália.

Com o fim da Guerra, em 1945, o esforço de guerra foi desmobilizado e as mulheres retornaram, mais uma vez, ao ambiente doméstico. A maioria dos órgãos militares, exclusivamente femininos, voltou a surgir somente no final do século XX.

Continuidade

Qual teria sido o impacto da participação das mulheres no esforço de guerra? A despeito da mobilização dessa força de trabalho ter, até certo ponto, desarticulado momentaneamente os movimentos feministas, não há dúvida de que as guerras deram espaço para que as mulheres pudessem mostrar suas habilidades, testar capacidades e expandir seus limites de atuação para muito além do ambiente doméstico. 15 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o movimento feminista surge com força, dando início a uma segunda onda de lutas e reivindicações, mais voltadas para a politização do papel social da mulher e para o combate às estruturas sexistas de poder. Até hoje luta-se por direitos iguais de remuneração e cargos.