Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Chris Bueno
1/4/15

Expressar nas telas as impressões sentidas pelo artista. Essa foi a semente do Impressionismo, movimento artístico que surgiu na França no final do século XIX. Rompendo com as regras convencionais e a tradição acadêmica, os impressionistas abriram as portas para a arte moderna.

O termo impressionismo surgiu a partir da crítica do pintor e escritor Louis Leroy sobre a obra Impressão, nascer do Sol (1872), de Claude Monet. O crítico ainda rotulou pejorativamente de “Exposição dos Impressionistas” a primeira apresentação pública dos novos artistas, realizada em 1874, no ateliê do fotógrafo Maurice Nadar. Sem se importar com a crítica, os artistas acabaram adotando o nome impressionismo e iniciando uma verdadeira revolução na arte tradicional. “No final do século XIX, as artes rompiam com as antigas regras, possibilitando formas próprias de realização. A arte buscou a inovação por meio da transgressão com as antigas regras de imitação da natureza”, diz a artista plástica Christiane Wagner, professora do Instituto de Artes (IA), da Unicamp.

Claude Monet, Impressão, nascer do sol, 1872. Reprodução.

Deixando de lado as rígidas normas do Realismo, os impressionistas exploravam novos caminhos e realizam verdadeiras experiências com luz e cores na tela. As descobertas da época sobre a fotografia, óptica e física permitiram que os artistas experimentassem novos parâmetros e concepções, não mais registrando “as coisas como elas eram” (pois isso já estava sendo feito pela fotografia), mas suas impressões sobre as coisas. “A imagem fotográfica contribuiu para o nascimento de uma nova estrutura visual e, simultaneamente, também seria influenciada por ela. Não se tratava de uma moda ou de um simples processo técnico de representação imagética: era o próprio exercício da atividade perceptiva e figurativa que havia mudado, dando um novo sentido ao ato de ver”, afirma o historiador Jeziel de Paula, em seu artigo “Fotografia e impressionismo: um diálogo imagético”, (1999).

Luz e movimento

Os impressionistas experimentavam a liberdade de expressar nas telas suas impressões através de pinceladas soltas, dando ênfase à luz e ao movimento. A luz, aliás, é fundamental na obra impressionista. Os artistas buscavam criar novas maneiras de registrá-la, especialmente o modo como ela modifica as cores. Por isso as pinturas impressionistas eram, na maioria das vezes, pintadas ao ar livre. Era também muito comum pintar a mesma imagem mais de uma vez, porém em horários diferentes, para registrar as mudanças na luminosidade e nas cores – como é o caso da série “Ponte Japonesa”, de Monet.

Os efeitos ópticos descobertos pela pesquisa fotográfica sobre a composição de cores e a formação de imagens na retina influenciaram profundamente as técnicas de pintura dos impressionistas. Uma dessas influências se dá na própria mistura das cores: os pigmentos não são misturados, mas é o observador que deve combinar as várias cores ao admirar a pintura. Este efeito é conseguido através de pequenas pinceladas de cores puras, colocadas uma ao lado da outra. “Na prática, cada cor era aplicada diretamente na tela, por meio de cada pincelada, uma se sobrepondo à outra e, dessa forma, os tons dos motivos eram formados diretamente na tela, por meio da síntese dessas pinceladas”, explica Wagner. A mistura deixa, portanto, de ser técnica para se tornar óptica.

Essas experimentações também contribuíram para que os impressionistas buscassem conferir movimento em suas obras. A direção em que as pinceladas eram aplicadas ajudava a criar a impressão de objetos em movimento – como bandeiras tremulando ou ondas na água. Além disso, o acréscimo de manchas escuras quase imperceptíveis em espaços praticamente vazios das obras também contribuía para dar a noção de movimento. Desta forma, os pintores iam além das obras estáticas de até então, criando telas com movimento. A primeira bailarina, de Edgar Degas e Passeio de esquife, de Auguste Renoir são bons exemplos.

Artistas

Apesar de não se considerar um impressionista, Édouard Manet inspirou diversos artistas do movimento ao se impor contra a arte oficial da academia francesa, cujas regras impediam novos pintores de participar das exposições do Salão de Paris – praticamente o único espaço para exposições da época. Sua obra O Almoço Campestre é considerada um dos marcos iniciais do movimento e abriu espaço para os novos pintores. Entre eles estava Claude Monet, hoje um dos maiores nomes do impressionismo, que decidiu organizar uma associação profissional com os artistas que não encontravam espaço para expor. Logo a associação, batizada de “Sociedade Anônima Cooperativa de Artistas Pintores, Escultores e Gravadores”, ganhava vários adeptos, como Auguste Renoir, Edgard Degas, Camille Pissarro, Paul Cézanne, Alfred Sisle e Berthe Morissot.

A crítica não aceitou bem os trabalhos desses novos artistas, mas também não conseguiu freá-los. Cerca de uma década depois, os impressionistas começaram a ser reconhecidos pelo público e novas gerações de artistas aplicavam as mudanças iniciadas pelos primeiros impressionistas – que a essa altura eram admirados e respeitados.

O impressionismo também ecoou no Brasil. Entre os impressionistas brasileiros destacam-se Eliseu Visconti, que soube transformar as características do movimento conforme a cor e a atmosfera luminosa do Brasil, e Washington Maguetas, que registrava com delicadeza e sensibilidade paisagens tipicamente brasileiras. Também podem ser citados Arthur Timótheo da Costa, Belmiro de Almeida, Almeida Júnior, Henrique Campos Cavelleiro e Vicente do Rego Monteiro.

Música e literatura

O impressionismo não ficou restrito à pintura. A música e a literatura também tiveram parte nessa corrente artística. A música impressionista é marcada por sua atmosfera etérea e sensual e pelas composições com formas mais curtas. Os compositores impressionistas, assim como seus pares pintores, também gostavam de explorar novos caminhos: a experimentação das escalas, especialmente da hexafônica, foi uma de suas características mais marcantes. Claude Debussy e Maurice Ravel são considerados os maiores compositores impressionistas.

Na literatura, o impressionismo focou a descrição de aspectos psicológicos e detalhes que contribuíam para constituir as impressões sensoriais de uma cena. Desta forma, valoriza-se a cor, o efeito e os tons. Para os autores impressionistas, a forma da narrativa é mais importante do que sua estrutura. Os principais escritores impressionistas foram Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé, Arthur Rimbaud, Virgínia Wolf e Eça de Queirós.