Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Por Chris Bueno
12/8/15

Pimenta-do-reino, noz moscada, cravo, canela. Quem diria que essas especiarias, hoje tão facilmente encontradas em qualquer mercado, já foram responsáveis por uma verdadeira revolução? Há seis séculos, essas especiarias eram utilizadas para dar sabor e conservar alimentos e também na Medicina. Raras, eram vendidas a preço de ouro e, para consegui-las, grandes expedições eram realizadas – o que acabou mudando o mapa do mundo.

As especiarias são produtos de origem vegetal (flor, fruto, semente, casca, caule ou raiz), que se destacam pelo aroma e sabor fortes. Cada região tem sua especiaria típica, Índia e China eram – e ainda são – origem das especiarias mais usadas. O comércio de especiarias existe desde a Antiguidade, mas é a partir do século XIV que as especiarias passaram a ter um novo valor. A dificuldade de trazer os produtos até a Europa e o preço altíssimo desses condimentos tornaram as especiarias artigo de luxo, e de muito desejo. “O comércio de especiarias na Europa expandiu-se com as Cruzadas, mas, após a Tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453, a rota dos mercadores europeus foi bloqueada. Isso dificultou muito o comércio, aumentou o preço dos produtos e fez com que os países europeus buscassem novas rotas, especialmente marítimas”, conta Ana Rosa Domingues dos Santos, professora do Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília (UNB) e especialista em história dos alimentos.

A pimenta-do-reino, originária da Índia, era uma das especiarias mais procuradas. Era utilizada para temperar e conservar as carnes. O açafrão era usado para o mesmo fim. Canela, cravo-da-índia, noz-moscada e gengibre serviam para dar mais sabor aos alimentos. Além de temperar os pratos, havia a crença de que as especiarias tinham propriedades medicinais: a canela era considerada um tônico estomacal, o cravo era utilizado como antisséptico bucal e a noz-moscada para casos de digestão lenta, reumatismo e gota.

Mais valioso do que ouro

Todas essas características conferiam às especiarias um valor inestimável. Tanto que muitos comerciantes enriqueceram devido à venda de especiarias. Para se ter uma ideia, o valor da pimenta era tão alto que alguns estudos apontam que 60 kg do tempero chegaram a valer 52 gramas de ouro. Algumas fontes também informam que o navegador português Vasco da Gama obteve um lucro de 6.000% com o comércio de especiarias, em sua primeira viagem à Índia. O Mosteiro de Jerónimos, em Lisboa, foi construído com dinheiro vindo do comércio das especiarias que Vasco da Gama trouxe das Índias – o conjunto arquitetônico em estilo gótico, rico em detalhes, demonstrava a riqueza de Portugal na época. Hoje pertence à lista do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (Unesco). “Quem tinha acesso às especiarias eram geralmente os nobres, ou então comerciantes muito ricos. E elas eram utilizadas, acima de tudo, para ostentar essa privilegiada posição social”, aponta Santos.

Consideras artigos de luxo, quando o soberano de uma nação queria homenagear alguém, era comum que desse de presente pequenas caixas com especiarias vindas do Oriente. De acordo com Rosa Nepomuceno, em seu livro O Brasil na rota das especiarias: o leva-e-traz de cheiros, as surpresas da nova terra (2005), “eram moeda de troca, dotes, heranças, reservas de capital, divisas de um reino. Pagavam serviços, impostos, dívidas, acordos e obrigações religiosas”.

O comércio era ainda facilitado pelo fato desses produtos terem grande durabilidade e resistência a mofos e pragas, suportando bem as longas travessias por mar ou por terra. Essa oportunidade comercial fez surgirem organizações comerciais capazes de levantar capital necessário às expedições para buscar as especiarias. Essa é a origem das companhias das Índias Orientais (sul da Ásia, do atual Paquistão à Indonésia) e das Índias Ocidentais (como era conhecido o continente americano). “Acredita-se que o comércio das especiarias deu origem ao mercado de ações, pois muitas vezes comprava-se a carga do navio que ainda ia partir em expedição – ou seja, comprava-se um produto que ainda não existia”, diz Santos.

Grandes navegações

O alto valor das especiarias também era devido aos grandes custos das expedições necessárias para consegui-las e ao grande número de atravessadores que integravam sua circulação. Para tentar contornar essa situação, muitos países europeus – especialmente Portugal e Espanha – buscavam rotas alternativas para adquirir essas mercadorias na sua fonte, cortando assim parte das despesas e aumentando o lucro. “É importante ressaltar que as especiarias não eram o único produto comercializado nas grandes navegações. Artigos de luxo, como marfim, porcelanas, seda, perfumes e tapetes também eram alvo dos navegadores”, explica Santos.

A busca por novas rotas marítimas, que não fossem dominadas por um grupo ou ameaçadas pela presença de piratas, foi um fator importante para o início da Era dos Descobrimentos. Em seu artigo A história sob o olhar da química: as especiarias e sua importância na alimentação humana(2010), Ronaldo da Silva Rodrigues e Roberto Ribeiro da Silva afirmam que: “o processo de efetiva ocupação da América pelos europeus a partir do século XVI foi ocasionado, inicialmente, pela necessidade desses povos em traçar novas rotas para tornar mais acessível o comércio das especiarias”. A busca por novas rotas para efetivar o comércio de especiarias lançou várias nações ao mar, com destaque para os portugueses e espanhóis, que possuíam maior tecnologia de navegação da época. Através dessas grandes expedições, os portugueses acabaram chegando ao continente americano.

“O comércio de especiarias têm uma importância histórica imensa, pois além dos produtos, os viajantes traziam um pouco da história, da cultura e dos costumes desses povos. E, da mesma forma, levava-se um pouco do continente europeu para esses lugares. Estabeleceu-se, assim, um verdadeiro intercâmbio, que mudou a alimentação, o comércio e até mesmo o mapa do mundo”, enfatiza Santos.

Além do gosto - Além da descoberta de novas rotas e novos mundos, as grandes navegações também incentivaram o desenvolvimento de várias áreas do conhecimento. Para tornar a navegação mais segura e eficiente, desenvolveu-se a engenharia, com a invenção de máquinas e melhorias nas embarcações, a astronomia, para aprimorar a navegação noturna, e a cartografia, representando mais detalhadamente as novas rotas e as novas terras encontradas. Em Portugal, o príncipe Dom Henrique reuniu na cidade de Sagres vários navegantes, cartógrafos, marinheiros e cosmógrafos dispostos a desenvolver conhecimentos no campo marítimo, criando assim a famosa Escola de Sagres. O comércio também se desenvolveu e, consequentemente, as cidades também, com avanços na arquitetura e até mesmo na higiene.