Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Fabio Luiz D´Angelo
2/7/14

A educação física, como um componente curricular, sugere que seus conteúdos específicos favoreçam uma educação corporal que não tenha fim nela mesmo, mas que amplie os horizontes dos alunos e das alunas em temáticas como cidadania, ética, lazer, trabalho, saúde, etc. Apresentar uma possibilidade de integração entre o conceito de alfabetização corporal, o jogo e a tomada de consciência para a prática da atividade física saudável é o que pretendemos fazer neste texto.

Chamamos de alfabetização corporal todo o processo educativo que acontece dentro e fora da escola e que oportuniza a transição de um estado de analfabetismo corporal para estágios cada vez mais avançados de inteligência motora. Partimos do pressuposto de que ninguém nasce mais ou menos alfabetizado corporalmente e de que a motricidade é construída a partir das interações do sujeito com o meio ambiente. É a qualidade destas interações que vai determinar as habilidades e competências motoras que irão se constituir. 

Por que pensar sobre a alfabetização corporal no espaço escolar? Porque entendemos a escola como um centro de educação das linguagens, onde aprendemos a nos comunicar com o mundo. É pela linguagem – escrita, falada, matemática e também corporal – que estabelecemos conexão com os outros, com os objetos e com a vida…

Habilidades motoras são as letras do alfabeto do corpo

Na lógica da alfabetização corporal dentro da escola, aprendemos que toda e qualquer linguagem se estrutura sobre códigos (símbolos). Assim, saber se comunicar é saber dar sentido e/ou significado aos códigos das diferentes linguagens. A linguagem corporal, como qualquer outra, se estrutura e se organiza a partir de alguns símbolos, certo? São estes os gestos, os movimentos, as habilidades motoras. Por exemplo, quando observamos as crianças em movimento, elas se expressam corporalmente por meio de jogos, brincadeiras, esportes, danças, etc. Para nós, brincar de elástico, amarelinha, perna de pau, mãe da rua ou de bolinha de gude é dar sentido para os chamados códigos da linguagem corporal. Os gestos, os movimentos, as habilidades motoras são as “letras” do alfabeto do corpo. Com “elas”, é possível escrever belos textos corporais e produzir cultura. Quem já brincou de amarelinha sabe muito bem do que estamos falando… Saltos, giros, arremessos, equilíbrios, coordenações, domínio do espaço e do tempo são as “palavras” que se transformam em complexos textos corporais. É claro que estes códigos, estes textos são criados em diferentes contextos, em diferentes culturas. Uma criança bem- alfabetizada corporalmente é aquela que aprende e se apropria deste conhecimento. Ela consegue escrever belos textos corporais que são legíveis e de possível compreensão.

O que tudo isso tem a ver com o mundo dos jovens e dos adultos? No processo do desenvolvimento e da aprendizagem, acreditamos que crianças bem-alfabetizadas corporalmente serão adultos mais competentes e capazes de usufruir deste processo educacional. A hipótese é a de que os aprendizados que nascem das brincadeiras, dos jogos e dos esportes, entre outras manifestações da cultura corporal praticadas na escola, poderão se transformar em conhecimento, ou melhor, em consciência sobre a importância do “corpo em movimento” para uma vida saudável. Não estamos falando do corpo em sua dimensão somente biológica e instrumental, mas principalmente cultural. Estamos falando de uma educação de “corpo inteiro”, de uma escola que entende o movimento como fator estruturante de um ensino voltado para o desenvolvimento global das crianças e dos jovens, nas dimensões motora, afetiva, social, moral e intelectual. A premissa é a de que a educação começa a partir do corpo e a ele retorna, e o sonho é que nos ciclos finais da escolarização, lá no ensino médio, tenhamos jovens mais conscientes, autônomos, protagonistas e que saibam se movimentar.

Ensinando o corpo a se comunicar

Por que valorizar a figura do professor de educação física como um alfabetizador corporal? Nós, professores de educação física, vivemos permanentemente em um “conflito”. É preciso constantemente legitimar a nossa presença no ambiente escolar, respondendo a perguntas como: Qual a nossa função dentro da escola?, O que a educação física ensina? Gostaríamos de ser “reconhecidos” como alfabetizadores corporais. Nossa missão é ensinar a todos a possibilidade e a capacidade de se comunicar corporalmente.

Somos nós os especialistas na linguagem do corpo e os responsáveis por fazer a mediação entre os conhecimentos socialmente construídos e os alunos, aqueles que vão para a escola aprender o que fora dela não se aprende. A realidade nos mostra que ensino e aprendizagem são como duas faces de uma mesma moeda, até porque não existe ensino, se não houver aprendizado. Na temática do corpo, movimento e saúde, foco deste texto, nossa missão é apresentar e integrar as crianças e os jovens na cultura corporal, ampliando seus conhecimentos e alargando as possibilidades do se movimentar.

Nesta perspectiva quem souber se comunicar corporalmente terá mais possibilidades de inserção e participação social. Isso tem a ver com cidadania. Crianças e jovens analfabetos corporalmente são excluídos, marginalizados e pouco compreendem as relações do corpo em movimento com a possibilidade de viver uma vida mais ativa e saudável. O que nós, alfabetizadores corporais, fazemos é sistematizar e dar intencionalidade a um jeito de fazer que pretende contribuir para que este se movimentar seja carregado e impregnado de um estilo de vida fisicamente ativo e consciente, como um fator importante para a construção e manutenção de um bom estado de saúde.

Na prática, muitas são as possibilidades e muitos são os conteúdos de possível abordagem. Movimentar-se é o “fazer” articulado com o compreender, é o movimento fundamentado na ciência, no conhecimento atualizado em temáticas como exercício físico, treinamento, alimentação, obesidade, sedentarismo, doping, estresse, saúde, etc. Bom seria fazer das aulas de educação física um espaço onde cada um possa se conhecer melhor e, em se conhecendo, que possa ser capaz de fazer as suas escolhas, de vencer a “preguiça” e o sedentarismo – em busca de uma vida mais recheada pelo prazer do “movimento”, de SE MOVIMENTAR. Nossa crença é aquela que afirma ser a motricidade (base para o se Movimentar) o resultado de uma laboriosa construção onde a pessoa, desde o nascimento, no embate conflituoso com a realidade natural e social, produz seu próprio conhecimento, incluindo aí a motricidade como uma forma de se conhecer e se relacionar melhor com o mundo.

Por que o jogo como um espaço significativo para aprender mais sobre o SE MOVIMENTAR? Porque não é proibido vincular qualidade de vida ao prazer e à afetividade. Não se trata aqui de mascarar ou esconder a ideia de que aprender demanda esforço e trabalho. Rotina, disciplina, regularidade e limites são aspectos importantes no conceito e na prática do SE MOVIMENTAR, mas prazer, diversão, significado e motivação são a base para que possamos, no presente e no futuro, continuar investindo “energia” no movimento para a saúde e para a vida com qualidade.

Nossa opção pelo jogo se explica porque, para nós, as diferentes práticas da cultura corporal são expressões do jogar. O esporte, a dança, a luta e a ginástica, considerados muitas vezes como os conteúdos básicos da educação física, são manifestações, em diferentes contextos, do JOGO, o fenômeno maior da cultura corporal. O esporte, por exemplo, é o jogo na sua configuração mais social, com regras universais que permitem a prática e a convivência entre os diferentes povos. Quando pensamos na escola, imaginamos as crianças e os jovens aprendendo e praticando as brincadeiras, as lutas, as ginásticas e os esportes a partir de uma metodologia que valorize a ludicidade, a solução de desafios e situações-problema, a construção coletiva, a convivência em grupo, a inteligência criativa, a livre expressão e a imprevisibilidade, todos aspectos muito presentes no JOGO.

É fato que o jogo não é a solução para todos os problemas, mas constumamos dizer que ele pode ser um bom “caminho”. Um dos maiores desafios do “ser” professor de educação física é fidelizar nossos alunos, não é mesmo? Como fazer para engajá-los por um longo período em projetos e pedagogias que mantenham compromisso com a aprendizagem para a vida futura? Não há nenhum equívoco nisso, mesmo porque, como educadores, olhamos para o futuro e pretendemos ensinar para a transformação, para a construção de um mundo onde os alunos e as alunas possam elaborar um saber cada vez mais rico sobre si mesmos, sobre os outros e sobre o mundo.

A questão é que, muitas vezes, em nome do futuro acabamos por esquecer do presente. A vida de professor nos ensinou que o JOGO pode muito bem articular passado, presente e futuro; o JOGO pode sim transformar-se no mediador que irá garantir aquilo que chamamos de aderência, ou seja, será o caminho para o contato entre professores e alunos, entre o ensino e a aprendizagem.

Neste contexto, o JOGO é meio, mas também é fim. Sem descaracterizá-lo, estamos acenando com um jeito de fazer, um método em que as crianças e os jovens são respeitados no aqui e no agora, mas também são convidados ao desequilíbrio e à construção de novas aprendizagens. Na prática da Alfabetização Corporal, isso quer dizer que, desde a educação infantil até o ensino médio, nossos alunos devem ser respeitados na sua motivação e no seu interesse pelo JOGO. As brincadeiras de pular corda, o pega-pega, o corre cotia, o bola ao cesto da educação infantil ou o basquete, o futebol, o beisebol, a dança e a ginástica do ensino médio são formas de JOGO. Um jogo que no presente é entendido como um espaço de “trabalho” que envolve produção, compromisso, regra, participação e cooperação, mas que abre portas para o futuro, já que se configura também como um espaço fértil de transgressão, de ressignificação, de liberdade, de ruptura com velhas fórmulas e de construção e transformação de cultura.

Em síntese, queremos dizer que saúde e qualidade de vida são frutos colhidos de uma boa alfabetização corporal. O prazer e o gosto pelo movimento têm seu início nas experiências mais significativas vividas pelo “corpo” no espaço e no tempo do “jogar”. A motricidade é a forma pela qual nos realizamos como humanos. A imobilidade corporal desequilibra e degrada nossas possibilidades de desenvolvimento. Portanto mover-se nos espaços da brincadeira, do esporte, da ginástica é fator de SAÚDE. Alfabetização corporal, jogo e qualidade de vida formam a tríade de uma educação que acredita no SE MOVIMENTAR como forma de ruptura com a escola onde os meninos e as meninas passam boa parte do tempo de suas vidas sentados, na imobilidade e no sedentarismo. O fato é que crianças e jovens que ficam muito tempo sentados aprendem somente uma coisa… a ficar sentados. Tudo é uma questão de atitude.