Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Filhol, 1814 by Faustus III - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons
Carlos Vogt
3/6/15
Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem.
Envelheci,
tenho muita infância pela frente.
 
Fabrício Carpinejar
 

 I

A velhice é um dos temas mais recorrentes na literatura mundial e a passagem do tempo – veículo de sua consecução – motivo de páginas antológicas de lírica tristeza.

Cormac McCarthy, autor de Meridiano de sangue e da Triologia da fronteira, à qual pertencem Todos os belos cavalos, já transformado em filme, e Cidades da planície, esplêndidos romances sobre a vida em extinção do velho oeste americano, escreve neste último uma reflexão casual de um dos personagens cowboys em que a perda e a beleza andam juntas e espelhadas, como gêmeas univitelinas:

“Um homem descia a estrada conduzindo um burro sobrecarregado com uma pilha de lenha. Os sinos da igreja começavam a soar na distância. O homem lhe esboçou um sorriso dissimulado. Como se partilhassem um segredo entre os dois. Um que dizia respeito à idade à juventude e a suas reivindicações e à justiça dessas reivindicações. E das reivindicações feitas aos dois. O mundo passado, o mundo vindouro. A transitoriedade comum aos dois. Sobretudo um saber do âmago que a beleza e a perda são uma coisa só.”

Ivan Lessa, há tantos anos vivendo fora do Brasil e tão ligado às suas distantes presenças, tem uma crônica saborosamente desconfiada sobre o direito por ele adquirido, ao completar 65 anos, na Inglaterra, de possuir um CV, não o curriculum vitae, mas o “Certificado de Velhice”, ou a “Carteira de Velhinho”, para o qual os ingleses “usam um eufemismo meio pomposo: ‘Freedom Pass’. Passe da liberdade. Parecendo coisa da guerra fria.”

Em Cidades invisíveis, Ítalo Calvino, nas narrativas das cidades-mulheres que o viajante Marco Polo faz ao Grande Khan, opõe, continuamente a juventude eterna do visionário ao ceticismo da eterna velhice do imperador.

Berenice é a última cidade invisível a ser contada. É uma cidade e também uma série de cidades, justas e injustas e que, no presente, contém todas as Berenices do futuro, “uma dentro da outra, apertadas, espremidas, inseparáveis”, de modo que o tempo, ele próprio, contém – e é contido por – uma dimensão espacial que a memória desenha em ruas, casas e labirintos.

Ou, como escreve Jorge Luiz Borges:
“Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de mares, de ilhas, de peixes, de habitação, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto.”

II

Simone de Beauvoir em seu livro clássico sobre a velhice mostra, entre outras coisas, que o inconsciente não tem idade e que temos forte tendência a nos comportar, na velhice, como se jamais fôssemos velhos: aos 60 anos, raros são os que se consideram nessa condição e mesmo depois dos 80 anos há muitos que acreditam ser de meia-idade e uns tantos que continuam a se achar jovens.

Como escreve Cícero, em seu famoso tratado De Senectute (Da velhice), “todos querem chegar à velhice; quando chegam, acusam-na”. E ainda: “Torna-te velho cedo, se quiseres ser velho por muito tempo”. Pensamentos que ressoam, no século XVII, no dito de Swift e que, de certo modo, vão na mesma direção dos dados do livro de Simone de Beauvoir: “Todos desejam viver por muito tempo, mas ninguém quer chegar a ser velho”.

Em Ninguém escreve ao coronel, de Gabriel Garcia Marques, o personagem espera, em vão, uma carta do governo, outorgando-lhe aposentadoria e conferindo-lhe pensão. O coronel paramenta-se, arruma-se ao espelho e, semana após semana, posta-se à espera da correspondência que não vem. Todos sabem que não virá, inclusive sua mulher. Mas essa é a forma de manter-se vivo, pelo ritual da esperança e, assim, pelo adiamento da pensão, protelar, em ilusão, a própria velhice.

De algum modo, esse romance de Garcia Marques faz eco – mesmo que não intencional, como é provável que não seja – ao conto de Machado de Assis “O espelho” que integra o livro Papéis avulsos, publicado originalmente em 1882.

Nesse conto, como se sabe, cinco personagens de meia-idade (para a época), entre 40 e 50 anos, entre eles Jacobina, conversam sobre discrepâncias físicas e metafísicas. Num dado momento, este último, que participava marginalmente da conversa, deixa sua casmurrice e lança a sua nova teoria da alma, afirmando que “cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…”

Para provar sua teoria, Jacobina “concerta a ponta do charuto, recolhendo as memórias” e narra a experiência de solidão e abandono que vivenciou aos 25 anos, logo que nomeado alferes da guarda nacional, e foi visitar D. Marcolina, tia viúva, em sua fazenda. Lá estando, a tia teve de viajar, os escravos, em seguida, fugiram e Jacobina ficou só, sem a imagem de ilustre alferes que a tia e a criadagem se lhe representavam.

Um grande e antigo espelho, que estava na sala, fora posto em seu quarto por “carinhos, atenções, obséquios” da boa tia.

Deprimido pela perda da identidade social que o entorno lhe conferia, Jacobina, depois de dias, veste-se com a farda de alferes diante do espelho, promovendo o reencontro de sua alma interior, dilacerada, com sua alma exterior, até então perdida:
“Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir.”

III

O Filósofo em meditação, 1632, Rembrandt, Museu do Louvre

Solidão e velhice são também temas da narrativa de vida, memórias, do casmurro Bentinho, personagem, juntamente com Capitu, da história de amor mais amargamente doce que o pessimismo, a ironia e o humor despistadores de Machado de Assis produziram.

Bentinho, agora o Dom Casmurro, da velhice, vive só, com um criado, em casa própria que fez construir com o propósito de “reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-Cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu.”

Mas, como continua a explicar no capítulo II o narrador-protagonista, a empreitada não sucedeu, ao menos para os fins de reconstituição da vida, a que se propunha:
“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá, um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.”
[…]
“Entretanto”, adverte este Fausto sem pacto, prócer da modernidade e do modernismo, “vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez modesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira.
Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.”

Sob esse aspecto, relativizado, da idade avançada, Bentinho parece encontrar-se com o Marquês de Maricá, que viveu entre o século XVIII e a primeira metade do século XIX e é autor de famosas máximas, entre elas: 
“Estuda-se mais na velhice para bem morrer do que se estudou na mocidade para bem viver.”

IV

O tema do Fausto, de Goethe, o médico cientista que vende a alma ao diabo em troca da juventude, cujas origens estão na Idade Média e no Renascimento, reaparece no romance de Thomas Mann e mantém uma tradição sempre renovada, e por isso eternamente provisória da fugacidade do tempo, da fragilidade da vida, da finitude dos sonhos, da imortalidade da arte.

O tema do espelho, como já tive oportunidade de escrever anteriormente, tem um momento de grande força expressiva no romance de Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, publicado pela primeira vez em 1891.

Há também aqui um pacto pelo qual o protagonista transfere para o seu retrato todos os efeitos de seu envelhecimento físico e de suas degradações morais e espirituais. O retrato torna-se velho e carcomido, com o passar do tempo; o retratado permanece jovem, arrogante e iludido, sem passar por ele. Num dos momentos de confrontação consigo mesmo, no retrato, dilacera-o com um punhal, tombando morto pela destruição de sua imagem condensada em progressiva e dinâmica decadência.

Em Machado de Assis, o solo de solidão mais bem executado talvez seja o do Conselheiro Aires em seu Memorial, embora a transcendência da velhice em suas memórias mais acabadas e perfeitas só se dê naquelas póstumas, de Brás Cubas.

Uma das peças mais fortes de Shakespeare é Rei Lear, baseada em lendas e narrativas muito antigas. A peça dramatiza a situação do velho soberano que renuncia ao poder, em nome de suas três filhas, mas que não aceita abdicar dos ritos e das comodidades do mando da soberania. Triste engano que passa pela constatação amarga de que é péssimo envelhecer antes de tornar-se sábio e chega à tragédia da morte das filhas e do próprio rei.

Mario Monicelli, diretor de O incrível exército de Brancaleone, fez, em 1992, o filme Parente é serpente, cujo entrecho lembra um pouco a tragédia do rei Lear, posta agora numa clave cômica pela visão do humor moderno e divertido que tão bem caracteriza a obra do excelente diretor italiano.

Aqui, a história gira em torno de uma família italiana típica e tradicional que todos os anos se reúne na casa dos patriarcas para as festas de fim de ano. Nesse ano, contudo, os pais anunciam, por se considerarem velhos demais para se cuidarem sozinhos, que passarão a viver um pouco na casa de cada filho pelo resto de suas vidas. É o que basta para provocar uma série de confusões, de subterfúgios, de evasivas, de negaceios obscuros, gerando o clima favorável da comédia de costumes que, divertindo, vai, irreverente, satirizando, e, castigando, vai, reverente, construindo e ensinando.

V

São muitas as histórias de velhos e velhices.

Como aquela do belo filme de David Lynch, História real, em que o protagonista atravessa o país num tratorzinho de cortar grama para visitar o irmão doente e à beira da morte e o qual não via por quase toda a vida.

Ou estas outras contadas por Guimarães Rosa no livro Manuelzão e Miguilim e que contém duas novelas magistrais que se olham em espelho: “Campo Geral”, relato lírico da infância de Miguilim que vive com a família na mata do Mutum, em Minas Gerais; “Uma estória de amor”, que, já da velhice, conta a estória do vaqueiro Manuelzão, que recompõe sua vida, recompondo a família, construindo sua casa e a capela que prometera à sua mãe.

Infância e velhice, descoberta e lembrança, construção e reconstrução, narrativas, uma em terceira pessoa – a da infância de Miguilim -, outra em primeira – a da velhice de Manuelzão, completam-se e integram-se na prosa lírica e criativa do autor mineiro.

Há mais, há muito mais, como são tantos os ciclos da vida.

Como este registrado pelo poeta romântico Walter Savage Landor, cujo título é “No seu septuagésimo quinto aniversário”, e cuja tradução de José Lino Grünewald faz justiça à beleza sonora, lírica e poética do original:
Lutei com nada e nada valia a lida.
Amei a Natureza e logo após a Arte;
Aqueci as mãos ante o fogo da vida;
Tudo se afunda e estou como quem já parte.

Harold Bloom, em Como e por que ler, destaca o poema como um de seus preferidos acompanhando-o do seguinte comentário:
“Quando se chega aos setenta e cinco anos de idade, mesmo sabendo que a quadra contém uma inverdade, tem-se a vontade de sair por aí, murmurando o epigrama, no dia do aniversário, em homenagem a si mesmo e a Savage Landor.”

Façamos a homenagem!

Este texto foi originalmente publicado na revista ComCiencia, nº 35, Setembro, 2002. Também é parte do livro “A utilidade do conhecimento”, publicado este ano pela editora Perspectiva.