Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Chris Bueno
4/6/14

Destruir a raça humana disseminando um novo e devastador agente patológico. Essa é a premissa do Plague Inc., um jogo que, na mesma velocidade de uma epidemia, tem contagiado cada vez mais adeptos. Apesar de ter um objetivo apocalíptico e um tema pesado, o jogo acabou chamando a atenção da comunidade acadêmica. Isso porque, ao jogar, o usuário mobiliza conhecimentos de biologia, geografia e até matemática e história. O Plague Inc. já vem sendo usando em salas de aula nos Estados Unidos e até mesmo no Brasil para ajudar os estudantes a trabalhar com os diferentes conceitos abordados no jogo. É uma maneira lúdica de abordar assuntos complexos e ainda promete render boas discussões.

Lançado pela Ndemic Creations em 2012, o jogo já foi baixado mais de 25 milhões de vezes (foi o quinto jogo mais baixado para iPhone em 2013 nos Estados Unidos). No ano passado, o jogo ganhou várias categorias do prêmio Pocket Gamer, incluindo o de melhor jogo do ano. Disponível inicialmente apenas para os sistemas operacionais iOS e Android, no começo deste ano foi lançada sua versão (Plague Inc.: Evolved) para PC, Mac e Linux.

O sucesso do jogo e sua verossimilhança são tão grandes que seu criador, James Vaughan, foi convidado para dar uma palestra no Centro para Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos um ano após Plague Inc. ter sido lançado. O CDC declarou que estava interessado no jogo porque ele era um método não tradicional para chamar a atenção do público para temas como epidemiologia, transmissão de doenças e pandemias. “O CDC utiliza mídias digitais para aumentar a conscientização sobre questões de saúde que o país enfrenta hoje”, disse Katherine Lyon-Daniel, diretora associada de comunicação do CDC.   

Vaughan falou sobre como elaborou o modelo de disseminação da doença do jogo e como ele pode ser usado para informar e educar o público sobre doenças contagiosas. “Um fato interessante é que o jogo também se tornou uma ferramenta educacional – professores muitas vezes entram em contato para me contar como eles usaram o Plague Inc. para ilustrar os conceitos de biologia e de economia para seus alunos”, disse o criador do jogo em entrevista para o blog do CDC.

Ainda que a meta do jogo seja o extermínio da humanidade, ele não é baseado em violência e sim em diferentes estratégias que podem viabilizar (ou prejudicar) o cumprimento do objetivo. “Devido a grande combinação de possibilidades, a alguns fatores que ocorrem de maneira aleatória e a um sistema de pontuação, o jogo é desafiador, mas não é violento”, aponta Luciano Digiampietri, professor de Sistemas de Informação na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP).

Mobilizando conhecimentos

O Plague Inc. é uma mistura de estratégia e simulação. No início do jogo, o usuário deve selecionar qual agente patológico irá utilizar para contaminar o mundo: bactéria, vírus, fungo, parasita, príon, nanovírus ou arma biológica. Assim, já no começo conhecimentos de biologia são mobilizados porque cada agente patológico tem características próprias. Um vírus, por exemplo, é muito difícil de ser controlado porque tem grande capacidade de mutação em um curto período de tempo. Por outro lado, a capacidade de mutação e disseminação de um fungo é mais limitada. “Sobre biologia, o jogador irá entender algumas características básicas de alguns organismos (como vírus, bactérias e parasitas), podendo estabelecer relações entre as habilidades das pragas existentes no jogo e organismos existentes no mundo real”, diz Digiampietri.

Após escolher sua “arma”, o jogo mostra um mapa múndi com uma divisão geopolítica para o usuário escolher onde iniciará o contágio. Aqui conhecimentos de geografia são fundamentais. É mais fácil espalhar a doença a partir de um país como os Estados Unidos ou mesmo o Brasil, que tem movimentadas rotas de comércio por terra, mar e ar – ao contrário de países como a Argélia ou Islândia, com tráfego limitado de pessoas. Por outro lado, países altamente desenvolvidos costumam ter tecnologia mais avançada e mais recursos (humanos e financeiros) para lutar contra a doença e impedir que ela se espalhe. “Em termos de geografia, o jogo permite conhecer mais sobre a população, o clima, as fronteiras e as principais rotas aéreas e de navegação de um país, e também se ele é considerado desenvolvido ou subdesenvolvido, se contém grandes áreas urbanas ou rurais”, explica Digiampietri.

Contaminando o mundo

A partir daí, o usuário deve escolher seu paciente zero, a primeira pessoa a ser contaminada, e começar a disseminação da doença. Conforme mais pessoas são contaminadas, mais pontos são adquiridos. E com mais pontos, o jogador pode alterar a doença, inserir novos meios de transmissão (o patógeno pode ser transmitido pelo sangue ou pelo ar, por exemplo) ou até mesmo aumentar a resistência a medicamentos. Além disso, assim como no mundo real, dependendo do patógeno escolhido, algumas mutações acontecem espontaneamente.

O usuário também pode escolher uma série de sintomas, agravá-los ou acrescentar outros ao longo do jogo. Mas é preciso tomar cuidado pois, conforme a doença vai evoluindo e se espalhando, também aumenta o interesse dos médicos em pesquisar uma cura e tentar erradicar a doença. Um patógeno muito letal, por exemplo, pode chamar a atenção da comunidade médica mundial mais rapidamente, e acrescentar esforços ao combate à doença. Durante todo o jogo, a Organização Mundial de Saúde (OMS), o CDC e outros centros estão de olho na doença e, assim que começam a perceber a epidemia, mobilizam vários pesquisadores para tentar desenvolver a cura.

Por fim, o jogo também mobiliza conhecimentos de matemática e história. “Pelo fato do jogo ser de estratégia, ele pode ajudar o jogador a desenvolver habilidades de lógica. Um jogador mais atento também conseguirá relacionar a praga que está controlando com algumas das grandes epidemias que assolaram a humanidade, entender os esforços para erradicação e perceber porque uma epidemia específica ficou limitada a algumas regiões”, salienta Digiampietri.