Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Bruna Garabito
Por Patrícia Piacentini
3/10/14

Aumento da temperatura na região Sudeste, secas nas regiões Norte e Nordeste, maior ocorrência de chuvas e temperaturas mais elevadas para as regiões Sul e Centro-Oeste. Essas são algumas das consequências do fenômeno El Niño para o Brasil que, segundo as previsões do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe), volta com intensidade de fraca a moderada neste segundo semestre e persistirá nos primeiros meses de 2015, para depois se dissipar. As previsões indicam que o El Niño, apesar de deixar os dias mais quentes no Sudeste, não trará mais chuvas para amenizar a seca que castiga a região.

O fenômeno, que tem efeitos globais, é um evento climático natural que ocorre no Oceano Pacífico. “É o aquecimento anormal das suas águas, seguido pelo enfraquecimento dos ventos alísios (que sopram de leste para oeste) na região equatorial. Tais alterações modificam o sistema climático de distribuição das chuvas e de calor em diversas regiões do planeta. Sua principal característica é a capacidade de afetar o clima em nível mundial através da mudança nas correntes atmosféricas”, define Heliofábio Barros Gomes, meteorologista e professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Com o evento, a temperatura das águas do Pacífico sobem ao menos 0,5º C.

Segundo Simone Erotildes Teleginski Ferraz, doutora em Meteorologia e professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com esse aquecimento do oceano e enfraquecimento dos ventos, começam a ser observadas mudanças da circulação da atmosfera nos níveis baixos e altos, determinando mudanças nos padrões de transporte de umidade e, portanto, variações na distribuição das chuvas em regiões tropicais e de latitudes médias e altas. “Em algumas regiões do globo também são observados aumento ou queda de temperatura”, completa.

Gomes afirma que o El Niño tem um tempo de duração variável (de oito a 18 meses) e acontece em intervalos médios de quatro anos, com intensidades que variam bastante. Dados do Inpe apontam que o El Niño mais intenso, desde a existência de registros de temperatura da superfície do mar (TSM), ocorreu nos anos de 1982 e 1983, e 1997 e 1998.

O menino que transformava desertos em jardins

Gilvan Sampaio de Oliveira, meteorologista, pesquisador do Inpe e autor do livro O El Niño e Você: o Fenômeno Climático” (Editora Transtec, 2001), relata que os primeiros registros do fenômeno foram feitos em 1891, quando Luís Carranza, presidente da Sociedade Geográfica de Lima, no Peru, enviou um pequeno artigo para o boletim daquela sociedade, chamando a atenção para a existência de uma contracorrente de norte para sul que tinha sido observada entre os portos de Paita e Pacasmayo.

O pesquisador explica que os marinheiros de Paita, acostumados a navegarem ao longo da costa em pequenas embarcações, começaram a denominar a contracorrente, que surgia em alguns anos, de El Niño, em referência ao menino Jesus, visto que costumava aparecer logo após o Natal. “Esta contracorrente normalmente vinha acompanhada de chuvas fortes, o que fazia com que aquela região desértica se transformasse em verdadeiros jardins, o que possibilitava a prática da agricultura, e por isso eram chamadas de ‘años de abundância’. Por outro lado, nestes anos, os peixes, e consequentemente os pássaros que se alimentavam destes peixes, desapareciam temporariamente”, detalha Oliveira.

A denominação técnica do El Niño é El Niño Oscilação Sul (ENOS), já que se refere às características oceânicas-atmosféricas associadas ao aquecimento anormal do Oceano Pacífico Tropical. Para quantificar o fenômeno, além de índices baseados nos valores da temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico Equatorial, utiliza-se também o Índice de Oscilação Sul (IOS). Esse índice representa a diferença de pressão ao nível do mar entre o Pacífico Central (Taiti) e o Pacífico do Oeste (Darwin/Austrália) e está relacionado às mudanças na circulação atmosférica nos níveis baixos da atmosfera, decorrentes do aquecimento/resfriamento das águas superficiais na região. Assim, valores negativos e positivos da IOS são indicadores da ocorrência do El Niño e La Niña, respectivamente.

Monitoramento

No CPTEC/Inpe, há um grupo de previsão climática que monitora o fenômeno e elabora previsões com até três meses de antecedência.

O último episódio do El Niño aconteceu entre janeiro de 2009 e março de 2010, e foi de intensidade fraca. “No Brasil, as regiões mais afetadas são o norte/leste da Amazônia, semiárido nordestino e região Sul. No site mencionado, são apresentados os principais impactos do fenômeno para o Brasil e mundo”, sinaliza Oliveira.

O evento também afeta outras regiões da América do Sul. Segundo o CPTEC/Inpe, na Colômbia, ocorre redução das precipitações e vazões de rios. Já no noroeste do Peru e Equador, observa-se aumento das precipitações e vazões de rios. No Altiplano Peru-Bolívia, ocorrem secas; no Chile e centro-oeste da Argentina, o El Niño provoca aumento das vazões dos rios; e, no Uruguai e nordeste argentino, ocorre aumento da precipitação de novembro a janeiro.

De acordo com Gomes, pelo próprio tamanho do Brasil, que abriga diferentes tipos de clima (equatorial, tropical, semiárido, subtropical, tropical litorâneo e de altitude), há uma sazonalidade específica para cada região e existem outros sistemas meteorológicos locais que atuam independentemente dos fenômenos de escala global. “O El Niño afeta o clima regional e global, mudando a circulação geral da atmosfera, sendo também um dos responsáveis por anos considerados secos ou muito secos. Assim, o fenômeno é temido principalmente pelos agricultores”, encerra.

La Niña

La Niña é um fenômeno oceânico-atmosférico com características opostas às do El Niño – ocorre um esfriamento anormal nas águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical. Algumas das consequências de La Niña tendem também a ser opostas às do El Niño, porém nem sempre uma região afetada pelo El Niño apresenta impactos significativos no tempo e clima devido à La Niña. Os fenômenos têm uma tendência a se alternar a cada três ou sete anos. O CPTEC/Inpe também faz um monitoramento do evento. A última ocorrência de La Niña foi de forte intensidade nos anos de 2007 e 2008. Para o Brasil, as consequências são aumento de precipitação e vazão de rios na região Norte e Nordeste e secas severas no Sul.