Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Bruna Garabito
Por Mariana Castro Alves
22/4/15

Carregada de lirismo, a tuberculose impregnou a poética brasileira até a primeira metade do século XX. Castro Alves, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Raimundo Correia, Augusto dos Anjos foram alguns nomes acometidos pela chamada “tísica”. Nas noites boêmias, muitos extravasaram seus sentimentos com relação à enfermidade de forma sarcástica, pesarosa, amarga ou até bem-humorada. A maioria morreu entre os 21 e 35 anos.

Por estar tão disseminada pela intelectualidade, a tuberculose chegou a virar moda na Paris do século XIX. Na época, o poeta inglês Byron escreveu: “gostarei de morrer tísico porque as jovens têm a maior compaixão quando veem um doente no leito de morte”. 

Entre os cientistas, Braille e Champollion também tiveram tuberculose. Ao primeiro foi recomendado repouso para tratamento, o que lhe permitiu ter tempo para criar o alfabeto para cegos. Já Champollion decifrou a escrita egípcia na pedra de Rosetta, algo que, conta-se, só conseguiu pela paciência, típica dos tuberculosos. Se no século XIX a doença chegou a ser vista com certo romantismo, a tuberculose é uma doença grave, que apesar de ter tratamento, continua sendo um problema de saúde pública nos dia de hoje.

A tuberculose é uma doença infecciosa causada pela microbactéria “mycobacterium tuberculosis”, também conhecida por Bacilo de Koch.  Robert Koch foi quem descobriu o bacilo, em 1882, em Berlim. Transmissível, ela acomete principalmente os pulmões, mas pode atingir praticamente qualquer órgão do corpo. “A tuberculose é uma doença causada por uma bactéria, que invade exclusivamente o corpo humano, sendo, portanto, muito bem adaptada a ele. Esse microrganismo pode multiplicar-se em, praticamente, todos os tecidos do nosso organismo, desde a pele até os órgãos profundos, como o sistema nervoso central, fígado, intestinos etc.”, detalha Marcelo de Carvalho Ramos, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp).

Infecção – De acordo com André Nathan, responsável pelo Grupo de Infecções da Pneumologia do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo (USP), os principais sintomas da tuberculose pulmonar, que é a forma mais comum, são a tosse por mais de duas semanas, associada a catarro, febre vespertina, perda de peso, falta de apetite e cansaço. “A pessoa se infecta quando entra em contato com o bacilo transmitido pelas gotículas de tosse de um indivíduo doente. Quando esse bacilo atinge os pulmões, o sistema imunológico é ativado para defender o corpo, defesa que funciona na maioria das vezes. Porém, se o indivíduo tiver alguma falha no sistema imunológico, estiver desnutrido, ou se a quantidade de bacilos for muito grande, ele pode desenvolver a infecção”, explica o médico da USP. “Na maioria das vezes é que o bacilo fica inicialmente dormente no corpo da pessoa, e se alguma coisa acontece de errado com seu sistema imune, a microbactéria começa a crescer e se multiplicar, causando a doença”, destaca.

A tuberculose é uma doença muito antiga. Há relatos da existência da bactéria em órgãos de múmias, tanto nas Américas quanto em outras civilizações antigas. De acordo com Ramos, o desenvolvimento das cidades e crescimento das aglomerações humanas são fatores que influíram para que a tuberculose se disseminasse. “A doença alastrou-se durante a Idade Média e na Revolução Industrial, dois momentos em que aconteceram grandes concentrações humanas em cidades insalubres e famintas”, afirma o professor da Unicamp. A facilidade de transmissão sempre foi problema: “essa bactéria multiplica-se lentamente e possui substâncias em sua superfície que a torna resistente aos desinfetantes e aos métodos físicos de desinfecção. Além disso, uma pequena quantidade de bacilos (cerca de 100) já é capaz de provocar doença em um indivíduo suscetível. Pode-se adquirir a tuberculose em ambientes em que uma pessoa com a doença esteve até um dia antes, pois os bacilos ficam suspensos no ar e são aspirados quando se respira”, complementa Ramos.

Tratamento – No século XIX, antes da descoberta da bactéria causadora da tuberculose, os escritores românticos e os demais acometidos pela tuberculose tinham que se submeter a receitas curiosas para tratar a doença. Infusão de repolho, pó de casca de caranguejo, pulmão de raposa e fígado de lobo em vinho tinto ou rosas vermelhas com mel eram indicados aos doentes que tossiam sangue (hemoptises). Repouso, alimentação reforçada e clima ameno também eram indicações paliativas aos sintomas da tísica. “O único tratamento antes dos antibióticos que realmente tinha efeito benéfico era o pneumotórax, que consistia em insuflar ar na cavidade torácica, causando um murchamento no tórax e matando o bacilo pela falta de oxigênio”, conta André Nathan.

Hoje o paciente é tratado por meio de uma associação de medicamentos. “Com o surgimento dos antimicrobianos, na metade do século XX, o tratamento tornou-se muito eficaz, proporcionando a cura na maioria dos pacientes”, diz Ramos. Segundo ele, a associação de quatro remédios em um só comprimido serve para não correr o risco de a bactéria ser resistente. Uma dificuldade é que os remédios devem ser tomados por seis meses. O tempo longo pode fazer o paciente achar que já está curado: “caso isso aconteça, a doença pode voltar”, alerta Ramos. Ele afirma que, embora sejam poucos, há casos – principalmente em portadores de AIDS e pessoas privadas de liberdade, como presidiários – em que as bactérias são resistentes a essas drogas.

Apesar da eficácia da medicação, a tuberculose ainda é um grande problema de saúde pública. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é um dos 22 países que concentram 80% da carga mundial de tuberculose. Nesse grupo de países, o Brasil ocupa a 16ª posição em relação ao número de casos novos e a 22ª posição em relação ao coeficiente de incidência (CI), prevalência e mortalidade. Devido às precárias condições de vida e saúde a que estão expostos, os grupos mais vulneráveis a pegar tuberculose são indígenas (com três vezes mais risco de adoecer que a população em geral), privados de liberdade (com 28 vezes mais risco), pessoas com HIV (35 vezes mais chances de ficarem doentes) e pessoas em situação de rua (com 44 vezes mais risco de adoecer), segundo dados do Ministério da Saúde. Em 2013, em todo o mundo, nove milhões de pessoas ficaram doentes e um milhão e meio morreram. Dessas, 360 mil tinham HIV, também segundo dados da OMS.

Desafios– Melhores condições de vida e saúde e diagnóstico e tratamento precoces são recomendados pelos especialistas para combater a tuberculose. Para Marcelo Ramos, a urbanização não planejada, práticas e ambientes insalubres são o terreno propício à disseminação da doença. Sistemas de saúde desestruturados são agravantes. “Tem havido um esforço da comunidade científica para a disposição de métodos rápidos de diagnóstico e tratamentos mais convenientes, que contribuiriam sobremaneira para o controle da doença. Entretanto, mesmo já existindo, esses métodos ainda são caros para serem aplicados em países de poucos recursos”, lamenta.

André Nathan concorda que a eliminação da tuberculose é bem complexa, “principalmente pelas questões sociais que envolvem a doença”. Além disso, segundo, ele, o ciclo de vida do agente transmissor, ou seja, formas latentes do “Micobacterium tuberculosis” é um complicador na medida em que um indivíduo, até ser diagnosticado e curado, pode infectar muitos outros. “As medidas necessárias para erradicação passam por diagnosticar rapidamente e tratar corretamente os casos de tuberculose; identificar e examinar as pessoas que tiveram contato com os doentes e vacinar os recém-nascidos com BCG (vacina contra a tuberculose) para evitar formas disseminadas”, recomenda.

Leia mais em:

ROSEMBERG, José. Tuberculose – Aspectos históricos, realidades, seu romantismo e transculturação. Bol. Pneumol. Sanit. [online]. 1999, vol.7, n.2, pp. 5-29. ISSN 0103-460X.