Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Nelson Travnik
5/1/17

Tudo começou após a criação do Sistema Solar quando um gigantesco bombardeio de objetos, que não participaram da sua formação, passou a colidir com os planetas e seus satélites. Essas marcas são visíveis até hoje. Na Terra há cicatrizes em todos os continentes. Em nosso País existem doze crateras de impacto sendo a mais exuberante a da Serra da Cangalha/TO, com 13 km de diâmetro. Esta fase terminou, mas é não impossível acontecer quedas isoladas. O caso de Chelyabinsk na Rússia em fevereiro de 2013, concorreu para aumentar essa preocupação. Se o objeto de aproximadamente 40 toneladas de massa, não fosse fragmentado na alta atmosfera, teria destruído a cidade. Essa preocupação começou na verdade em julho de 1994 após a serie de impactos do cometa Shoemaker-Levy com o planeta Júpiter. Conhecido como “trem nuclear”, se atingisse a Terra, o leitor não estaria lendo essas linhas.

Imagem aérea da Serra da Cangalha (TO).

Para detectar asteróides que passam próximos à Terra, foi criado o programa internacional NEO’s, Near Earth Objects. Atualmente são descobertos 100 NEO’s por mês. Os asteróides capazes de realizar aproximações ameaçadoras à Terra são conhecidos por PHAs ou Potentially Hazardous Asteroids. A chamada família Apollo já conta com 5.202 asteróides conhecidos, alguns com potencial chance de impacto com a Terra. As descobertas de asteróides são catalogadas no “Minor Planet Center”, Cambridge, Massachusets, Estados Unidos. Atualmente são mais de 70 mil com denominação definitiva, o que indica terem uma orbita bem definida.

Astrônomos amadores em todo o mundo também colaboram no afã de detectar esses objetos intrusos. A observação é difícil porque são escuros refletindo apenas 3% a 5% da luz solar. Os metálicos, mais raros, refletem um pouco mais, de 10% a 15%. Com fraco poder de refletividade (albedo) muitos passam desapercebidos e, quando detectados, já estão sob nossas cabeças. O caso de Chelyabinsk é um exemplo disso. Ninguém o havia detectado. Em Itacuruba, Pernambuco, o Observatório Nacional no âmbito do projeto ‘Impacton’, instalou um telescópio robô, de um metro de diâmetro, fabricado na Alemanha, dedicado à busca de asteroides próximos à Terra. Nos últimos anos, agências espaciais dos Estados Unidos, Europa e Ásia, trabalham juntas no intuito de criar um sistema de defesa real contra as ameaças de colisões desses astros com a Terra.

Meteoros

Os meteoros, popularmente conhecidos como estrelas cadentes, são pedaços de matéria que penetram na atmosfera terrestre. Com o atrito com as moléculas de ar, se volatilizam deixando atrás de si um rastro luminoso. São muito conhecidas as chamadas chuvas de meteoros, que ocorrem todos os meses e estão associadas aos cometas. Quando eles se aproximam do Sol, as altas temperaturas fazem com que o gelo presente em sua superfície escape misturado à poeira e detritos do espaço. A chuva de meteoros é formada por esses detritos quando eles chegam à órbita da Terra. Sua coloração varia de acordo com os elementos químicos presente nesses detritos. O verde indica magnésio, o alaranjado, ferro, o azul lilás, cálcio e o amarelo demonstra a presença de sódio. A mais célebre chuva de meteoros da história foi a ‘Leonídea’, que ocorreu em 1833, quando foram vistos 150 mil detritos por hora! Existem no mundo vários órgãos monitorando esses objetos. No Brasil isto é feito pela rede Brazilian Meteor Observation Network (Bramon), criada em 2013, em uma iniciativa de astrônomos amadores e pela Exoss (Exploring the Southern Sky for new Meteors Radiants).

Já o termo meteorito refere-se aos objetos que conseguem vencer a atmosfera e atingem a superfície. 65% deles, chamados sideritos, são compostos quase que exclusivamente de ferro e níquel. Outros 8% são os siderolitos, uma mescla de materiais rochosos e metálicos e, por fim, existem os aerólitos, compostos de 27% de materiais rochosos. No espaço esses objetos são conhecidos como meteoróides. Estimativas indicam que caem anualmente 500 meteoritos na Terra. O mais famoso no Brasil é o Bendegó com cinco toneladas, exposto no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Alguns deles são tão ou mais antigos do que o próprio Sistema Solar. Seu estudo permite conhecer a matéria primitiva desses tempos longínquos (veja artigo sobre mineralogia espacial na Pré-Univesp).

Acredita-se que grande parte da água na Terra assim como a matéria orgânica abiótica necessária à formação da vida (hidrocarbonetos) possa ter vindo nos cometas e meteoritos. Alguns meteoritos são raríssimos: com os que vieram da Lua e de Marte. Foram ejetados desses astros por impactos de grandes corpos celestes e capturados pelo campo gravitacional da Terra. Os lunares são conhecidos pelos astrônomos como tectitos e têm uma coloração entre preto e esverdeado. Os mais famosos marcianos são o Black Beauty, encontrado no deserto do Saara, e o ALH84001, encontrado na Antártida, este último mostrando estruturas tubulares que sugerem a presença de fósseis de microrganismos. Por fim existem também os raríssimos hidrometeoritos. Em Campinas, interior de São Paulo, no dia 11 de julho de 1997, uma pedra de gelo pesando entre 100 e 300 quilos caiu no telhado da fábrica Mercedes Benz. Quatro dias depois, um outro bloco de aproximadamente 80 quilos caiu no Sítio São Luiz a dois quilômetros do centro da cidade de Itapira, vizinha de Campinas. Felizmente 10 quilos do material recolhido em Campinas e alguns pedaços do que caiu em Itapira foram imediatamente colocados em um freezer, permitindo que análises químicas realizadas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no Centro de Energia Nuclear na Agricultura, localizado Universidade de São Paulo (USP), campus de Piracicaba, na Divisão de Química da Petrobrás e até no Sandia National Laboratory, nos Estados Unidos, provassem sua origem extraterrestre. Chamado a opinar como membro da comissão instituída pela Unicamp, inclinei pela hipótese, face ao tamanho dos blocos, de serem pedaços de núcleo de cometa. Embora muito remota, por incrível que possa parecer, existem muitos registros de pessoas, casas, fábricas, automóveis e animais vítimas dessas balas do espaço. Em 1836, em Macau, no Rio Grande do Norte, há relatos de vacas mortas atingidas por meteoritos. No dia 28 de junho de 1911, um cachorro foi atingido e morto em Nakla no Egito. Em 1992, na cidade de Peekskill, EUA alguns carros foram atingidos por meteoritos e centenas de telhados perfurados.

 

Esse artigo foi publicado originalmente na revista Distritos, 35º edição, dez 2016. Reprodução autorizada pelo autor.