Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Victória Flório
14/5/14

Em 1515, o Rei Manoel I de Portugal recebeu da coleção do sultão Muzaffar, na Índia, um rinoceronte, para que ele presenteasse o Papa Leão X. O rinoceronte morreu em um naufrágio, mas ficou imortalizado em uma xilogravura feita pelo artista alemão Albrecht Dürer. Apesar de apresentar várias incoerências anatômicas, o Rinoceronte de Dürer, como ficou conhecida a obra, foi a representação mais conhecida pelos europeus desse gigante africano na Europa até o século 19. Naquela época, não era muito comum ver animais selvagens em ambiente urbano. Durante muito tempo, a maioria das pessoas simplesmente não conhecia animais de outras partes do mundo, ou os conheciam apenas por desenhos e ilustrações, como o de Dürer.

Os zoológicos começaram como coleções de animais

A paixão por possuir animais selvagens vindos de terras distantes, que motivou a organização das primeiras coleções, superou as grandes dificuldades envolvidas na sua captura, transporte e manutenção. No livro  Zoo and Aquarium History: Ancient Animal Collections To Zoological Gardens (2001), o historiador Vernon Kisling Jr., as coleções foram se desenvolvendo a partir do estabelecimento das cidades e do aumento das relações comerciais. O comércio levou alguns mercadores a terras distantes para levar ou trazer produtos para a Europa. Eles, então, traziam notícias de animais fantásticos, diferentes e exóticos.

Com o tempo, a manutenção das coleções passou a ser um símbolo da conexão da sociedade urbana com a vida selvagem, como também símbolo de status e de poder. E muitas pessoas pagavam (em geral muito) para ver os animais dessas coleções particulares. O Palácio de Versalhes, em Paris, e a Torre de Londres já abrigaram coleções reais de animais.

O conceito moderno de zoológico se desenvolveu entre os séculos 18 e 19, quando as coleções particulares cresceram e se institucionalizaram. Tanto na época de sua criação como nos dias de hoje, o papel social dos zoológicos envolve controvérsias. Os primeiros zoológicos das grandes metrópoles foram criados para entreter o público. No século 19, eles passaram a desenvolver pesquisas científicas e, mais recentemente, especialmente a partir da década de 1970, projetos de conservação de espécies e de educação ambiental entram na pauta de vários zoológicos. A Associação Norte-Americana de Zoos e Aquários (AZA, na sigla em inglês), mantém, junto a diversas instituições dos Estados Unidos e do Canadá, os “Planos para Sobrevivência de Espécies”, envolvendo 184 espécies de animais, muitas delas sob risco de extinção. Outro exemplo do engajamento dos zoológicos em projetos para proteger animais é o 21st Century Tiger (Tigre do século 21), uma iniciativa de conservação do tigre selvagem entre Dreamworld Wildlife Foundation, mantida por uma dos maiores parques temáticos da Austrália, e da Sociedade Zoológica de Londres, que levanta fundos para projetos de conservação de tigres selvagens.

Verdades e mentiras sobre zoológicos

Marius era um filhote de girafa do Zoológico de Copenhagen, na Dinamarca, que motivou uma polêmica no início deste ano. Para evitar a reprodução consanguínea, os veterinários optaram pela sua execução, que seguiu as normas do programa europeu de reprodução para girafas. O caso, no entanto, reacendeu uma discussão antiga sobre o bem-estar dos animais nos zoológicos. E se no início eles eram espaços de entretenimento, onde muitos animais eram treinados para exibir truques aos visitantes, deixando seu bem-estar em segundo plano, hoje a situação é bem diferente.

Embora muitas pessoas acreditem que os animais sejam retirados da natureza para viverem nos zoológicos, isso raramente acontece atualmente. A maioria dos animais que vive em zoológicos nasceu na própria instituição ou foi transferida de outra instituição, sem nunca ter conhecido a vida selvagem. A opção de retirar animais de seu habitat natural só acontece quando eles são muito jovens, estão doentes ou precisam de cuidados especiais, ou ainda em casos de pesquisas de melhoramento genético de espécies já mantidas em cativeiro, uma medida necessária para assegurar sua sobrevivência.

Zoológicos no Brasil

Segundo estudo publicado pela revista PLos Biology, em 2011, há cerca de oito milhões de espécies de animais no planeta. A maioria delas será extinta antes de ser estudada. O Brasil, com cerca de 1,8 milhão de espécies – das quais 10% são conhecidas –, possui um dos maiores parques zoológicos do mundo, o Zoológico de São Paulo.

Quando abriu as portas, em 1957, abrigava pouco mais de 400 animais; hoje, são 3,2 mil indivíduos entre invertebrados, aves, répteis, mamíferos e anfíbios. O zoológico de Londres, por exemplo, abriga atualmente pouco mais de 800 espécies. Sua missão é manter em cativeiro uma coleção de animais vivos provenientes de diversas partes do mundo, para educação, recreação, pesquisas científicas, conservação de espécies em cativeiro, além de reprodução fora do ambiente natural (ex-situ). O zoológico de São Paulo foi a primeira instituição a propor e participar efetivamente em programas de recuperação de espécies brasileiras ameaçadas de extinção (cerca de 7% delas estão sob esse risco).

O segundo maior zoológico brasileiro em número de espécies, fundado em 1966, é o Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba, São Paulo. Pioneiro em atividades educativas, ele foi reconhecido por várias entidades internacionais, como o Fundo Nacional para a Natureza (WWF), organização não governamental norte-americana.

Reprodução de animais em cativeiro

Os zoológicos podem desempenhar um papel importante na conservação de espécies quando mantêm animais ameaçados de extinção. O Zooparque de Itatiba (interior de São Paulo), por exemplo, tem uma área especializada na manutenção e criação de filhotes, com uma população ex situ bastante expressiva. Uma das espécies reproduzidas em cativeiro é a Harpia (Harpia harpyja), uma das maiores aves de rapina do mundo. O primeiro filhote nasceu em 2012. Outro sucesso de reprodução no parque é o flamingo rosa chileno, cuja reprodução em cativeiro é bastante complicada, por conta dos hábitos migratórios dessa ave, explicou o biólogo Felipe Garcia, que trabalha no parque. 

 

Para saber mais:

Zoológico de São Paulo

ZooParque Itatiba