Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Daniela Klébis
3/6/15

Na década de 40, a expectativa de vida do brasileiro era de 43 anos. Hoje, a média é de 75 anos e em breve, as crianças nascerão com perspectivas de viver mais de 85. Segundo dados do IBGE, os idosos no Brasil correspondem a 12% da população, mas a previsão é que essa proporção chegue a 29% até 2050. Ao mesmo tempo, a taxa de fertilidade caiu de quase seis filhos por mulher, para menos de dois, nos últimos 50 anos. Isso significa que estamos envelhecendo. Mas será que estamos preparados para essa chamada “revolução da longevidade”?

Para o médico e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC – BR), Alexandre Kalache, o Brasil ainda não está pensando como deveria nessa população. Doutor em saúde pública pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, Kalache é conselheiro sobre envelhecimento global da Academia de Medicina de Nova Iorque e embaixador da organização HelpAge International. Foi diretor do programa de envelhecimento e saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) entre 1995 e 2007 e autor do documento Active ageing: a policy framework (Envelhecimento ativo: um modelo de política pública), publicado pela OMS, em 2002. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a revolução da longevidade, o que é preciso para envelhecer bem e sobre o surgimento de uma nova fase da vida, a transição entre a vida adulta e a velhice, a que ele chama “gerontolescência”.

Pré-Univesp – Hoje vemos mulheres e homens com mais de 60 anos bastante ativos, viajando, trabalhando, com vida social intensa. Como podemos definir a velhice?

Alexandre Kalache - A velhice, quando definida cronologicamente é sempre inadequada. Tem pessoas que com 60 anos estão em pleno vigor, com energia. E temos pessoas que chegam aos 80 anos e continuam muito ativas. Chegamos a uma etapa da vida humana em que o envelhecer deixou de ser a exceção. Quando as Nações Unidas começaram a apresentar estatísticas sobre o envelhecimento, eles definiram como velho as pessoas com mais de sessenta anos. Para os países desenvolvidos e, cada vez mais, para uma parcela importante da população brasileira, ter 60, 70 anos não significa nada. Então a gente tem que procurar outras formas de conceituar a velhice.

Outra ideia consagrada liga a velhice à idade em que a pessoa se aposenta. Então a aposentadoria define quem deixou de estar na força produtiva de trabalho. Hoje utilizamos o mesmo marco cronológico para aposentadoria que na época do chanceler alemão Otto von Bismarck, que, no final do século XIX, criou a aposentadoria aos 65 anos. Naquela época fazia sentido, porque poucas pessoas chegavam aos 60, a medicina não dava conta das doenças. E a pessoa quando aposentava, tinha poucos anos de vida pela frente. O que não faz sentido é que 130 anos depois a gente continue com esses mesmos marcos e critérios. A melhor forma, mas que é difícil de ser implementada na prática, é definir a velhice do ponto de vista funcional: se você perdeu a capacidade de trabalhar, ficou dependente, então esse é um novo patamar da vida.

Pré-Univesp – E como o senhor define essas pessoas com mais de 60 anos e que continuam ativas?

Alexandre Kalache - Eu estou criando uma nova definição, porque a geração de baby boomers, que está chegando agora aos 65 anos, é uma geração especial: é uma população muito grande, sobretudo nos países ocidentais, que no pós-guerra entraram em uma era de mais otimismo e tiveram muitos filhos. Essas crianças, nascidas entre 1945 e 1965, estão envelhecendo agora. Mas elas não vão envelhecer como seus pais, muito menos como seus avós. Porque elas têm um nível de saúde mais alto que qualquer geração anterior, bem como o nível educacional, e são mais ricas. Elas têm também um passado de ativismo. É a primeira geração que criou a adolescência como construção social. Essa etapa que aceita que o jovem se rebele, vire a mesa. Esses precursores, que criaram a adolescência, chegam agora ao que conhecemos por velhice, redefinindo-a. Então, entre a etapa adulta e a velhice, existe a nova transição, que estou chamando de gerontolescência. É uma geração que primeiro chocou os pais, porque trazia o namorado, a namorada em casa e trancava a porta do quarto. Hoje vemos muito velhinho, velhinha trazendo o namorado pra casa e o filho não sabe o que fazer.

Pré-Univesp – Em quarenta anos, a expectativa de vida do brasileiro aumentou de 53 para 75 anos, o que o senhor chama de “revolução da longevidade”. Por que estamos vivendo mais?

Alexandre Kalache - O que é uma revolução? É um fato súbito que, quando acontece, transforma a sociedade. O que está acontecendo com a velhice no Brasil é isso. Ninguém esperava que as pessoas fossem viver tanto mais. Eu cito meu próprio caso. Quando eu nasci, em 1945, a expectativa de vida era de 43 anos. Isso já é revolucionário pra mim: como é eu poderia imaginar que eu poderia sobreviver muito mais do que os anos prometidos quando eu era um bebê? Uma sociedade não é a mesma quando você transforma a expectativa de vida de 43 para 75 – e vai continuar aumentando. Daqui a 15, 17 anos, o brasileiro vai esperar viver 80 anos. Na década de 50, as pessoas com mais de 80 anos somavam, no mundo inteiro, 14 milhões. Em 2050, um século depois, serão 386 milhões, um aumento de quase 30 vezes. É uma sociedade em que a longevidade se torna regra. Isso vem com muitas promessas, mas muitos desafios. E por que o Brasil envelheceu? Primeiro, as pessoas estão vivendo mais. A morte prematura é controlada com vacinas, com medidas sanitárias, água potável, melhor nutrição. Com isso, vai-se empurrando a vida até a velhice. Nós dimunímos muitíssimo a mortalidade infantil, eliminamos as mortes por infecções, diarréias, sarampos, prolongando a vida. Mas também, para que uma sociedade envelheça rápido, você tem que mexer na pirâmide demográfica. A taxa de fecundidade caiu vertiginosamente. Em 1975, o número médio de filhos que uma mulher brasileira tinha era 5,8. Hoje é 1,7. São menos filhos que pais. Já estamos abaixo da reposição há quase dez anos. Outra coisa, nossa geração foi a primeira que teve o poder de controlar a natalidade, com a pílula. Com esse número cada vez menor de crianças, a pirâmide se transforma, temos hoje mais velhos e menos jovens nesse gráfico.

Pré-Univesp – O que significa envelhecer com qualidade? Como envelhecer bem?

Alexandre Kalache - Para envelhecer bem é preciso acumular quatro capitais. Primeiro, é fundamental envelhecer com saúde. Para ajudar o indivíduo a envelhecer bem e fazer as escolhas mais saudáveis, é preciso criar condições para que as pessoas tenham bons hábitos alimentares, tem que pensar em criar condições financeiras para que elas possam comprar esses alimentos. Segundo capital é o financeiro: previdência, seguro de saúde etc. O terceiro é o capital social: ter amigos, família, ter alguém que cuide. Finalmente, o quarto capital é o conhecimento, para continuar relevante para a sociedade em que vive. Se você acumula bem esses quatro capitais, você tem uma garantia de que vai envelhecer bem.

Pré-Univesp – O senhor disse em uma entrevista que os países desenvolvidos enriquecem antes de envelhecer. Mas nós estamos envelhecendo antes de enriquecer. Somos um país preparado para esse salto de longevidade?

Alexandre Kalache - Se você pega os países desenvolvidos, eles envelheceram ao longo de muito mais anos porque não tinham métodos artificiais de controlar nem o nascimento e nem a morte. Isso tudo veio com a Segunda Guerra Mundial. A penicilina é de 1946. As vacinas, as tecnologias de diagnósticos, vieram depois. Ou seja, esses países que começaram a envelhecer antes da guerra, como os do norte da Europa e a América do Norte, foram envelhecendo paulatinamente. Por exemplo, a França dobrou a proporção de idosos de 7 para 14% em 115 anos, de 1865 a 1980. O Brasil vai dobrar a proporção de idosos, dos cerca de 12% hoje para 24%, em 17 anos. Então, a primeira grande diferença é a velocidade. Além disso, não precisa mais ser rico para envelhecer; hoje, bem ou mal, a maioria da população tem acesso à saúde e uma melhoria relativa do meio ambiente, com esgoto e água potável, remédios, tratamentos etc. Mas estamos envelhecendo muito rapidamente num contexto ainda de muita pobreza, miséria e, daí, o envelhecimento passa a ser uma questão que exige políticas muito cuidadosas para não transformar o que é uma conquista a ser celebrada, em um problema. O Brasil ainda não está pensando nisso, a medida da previdência que está sendo votada agora é um exemplo desse retrocesso político.

Pré-Univesp – O que signifca para um país, em termos sociais e econômicos, ter uma expectativa de vida alta?

Alexandre Kalache – O impacto é em todos os setores. É preciso desenvolver políticas dentro do marco do envelhecimento ativo. Envelhecimento ativo é uma definição da OMS, detalhada no documento Active ageing: a policy framework (Envelhecimento ativo: um modelo de política pública), de 2002. É o processo de otimizar as oportunidades para saúde, educação continuada e segurança – garantia de casa, dinheiro, alimento.  São aspectos que precisam ser considerados na sociedade para ela envelhecer bem. O Centro Internacional da Longevidade irá prpopor uma atualização desse documento na reunião da ONU que acontentece entre 14 e 16 de julho. 

Pré-Univesp – Quando se fala em velhice, a primeira coisa que vem à cabeça são as doenças crônicas. Quais são as doenças que crescem à medida que a população envelhece? E como a medicina tem evoluído nesse sentido?

Alexandre Kalache Em primeiro lugar, não podemos falar em doenças novas. O que vemos são doenças que já existem desde o século XIX – Alzheimer, por exemplo, foi definido no início do século passado. Mas eram poucas as pessoas que chegava à idade de ter o risco de desenvolver essas doenças. Segundo, por definição, as doenças crônicas não se curam, elas necessitam de cuidado: diabetes, doenças cardiovasculares, neurológicas. Para responder à revolução da longevidade é preciso criar uma cultura do cuidado, que transpasse todos os setores da sociedade, para que possamos oferecer condições de qualidade de vida até o final da vida. É preciso, inclusive, repensar a formação do médico hoje, muito voltada para tratar ou criança ou adulto e que pensa pouco no idoso.

Pré-Univesp – A taxa de longevidade do Brasil está se equiparando à de países como o Japão, Inglaterra, mas ainda somos uma população extremamente desigual. Entretanto, uma preocupação crescente em países ricos é sobre o número de asilos e idosos que sofrem de depressão, solidão, abandono, fatores que vão além da situação econômica. Em termos sociais, de afeto, de família, de leis, estaríamos em que posição com relação aos países desenvolvidos? Somos um país que sabe acolher seus idosos?

Alexandre Kalache Se pensarmos superficialmente, poderíamos dizer que estamos melhor. Primeiro porque a Constituição Brasileira reza de forma clara que a família tem obrigação de cuidar do idoso. Até agora funcionou, porque tínhamos famílias estendidas, numerosas, em que a mulher costumava ficar em casa, havia poucos idosos, e, em geral, morriam rápido porque a medicina estava pouco desenvolvida. Hoje, temos um número maior de velhos e um número reduzido de pessoas disponíveis nessa família – não só pelo número, por conta da queda da fecundidade, mas também porque o número de potenciais cuidadores diminuiu, já que as mulheres trabalham mais. Eu falo de insuficência familiar: quando precisa, todo mundo está ocupado. Para quem tem dinheiro, é possível terceirizar esse cuidado, contratando cuidadores. Mas a maioria das pessoas não pode fazer isso. Então isso vira uma sobrecarga, alguém tem que abrir mão do trabalho para cuidar de alguém com uma doença crônica, que vai viver muitos anos. No Brasil já temos um déficit de instituições públicas que acolham essas pessoas. Nos países que enriqueceram antes de envelhecer, o Estado supre essa falta, o estado do bem-estar social fornece essa assistência ao idoso que necessita de cuidados.

Pré-Univesp – Como o aumento da longevidade reflete no modelo de família?

Alexandre Kalache - Antigamente, o jovem estava muito mais próximo da velhice. Embora tivesse pouca gente idosa, a família era mais integrada. Era comum ter os pais e os avós sob o mesmo teto. E os avós participavam mais. Hoje, mesmo perto dos idosos, os jovens não estão prestando atenção, eles estão em seus jogos, celulares. A intimidade que existia antes, especialmente nas comunidades rurais, em função da modernização da sociedade, a urbanização, a correria, distanciaram as gerações. Hoje os netos quase não visitam os avós. Além disso, vivemos em um país que glorifica a juventude, a beleza física. O velho fica meio sem lugar. Paradoxalmente, nas comunidades mais pobres, o velho é muito mais integrado, e conta com mais solidariedade.

Pré-Univesp – Como os jovens enxergam a velhice hoje?

Alexandre Kalache - Eu começo minhas palestras pedindo aos jovens que fechem os olhos e se imaginem celebrando a noite dos seus 85 anos. As pessoas se imaginam festejando, ativas, com amigos, com a família. Ninguém se imagina doente, em um hospital geriátrico. A velhice é idealizada. Mas para se chegar a uma velhice ativa é preciso se cuidar antes.