Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Carolina Cantarino
11/6/14

O Brasil entrou no circuito dos chamados megaeventos esportivos. Ao sediar a Copa do Mundo da Fifa e os Jogos Olímpicos de 2016, o país ingressa num universo político que cada vez menos tem a ver com o esporte e mais com interesses comerciais, grandes corporações e muitas violações de direitos.

Para Marcelo Proni, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é a racionalidade econômica que predomina, atualmente, na organização dos torneios esportivos. Tal predomínio, segundo o economista, pode ser pensado a partir da metamorfose pela qual os Jogos Olímpicos, por exemplo, vêm passando desde os anos de 1960, e que se concretizaram na década de 1990, com a valorização da lógica empresarial em detrimento do espírito esportivo.

Transformações que podem se tornar mais visíveis quando eventos do passado são relembrados, tais como o feito de Abebe Bikila, durante as Olimpíadas de Roma em 1960: o atleta da Etiópia venceu a maratona e quebrou o recorde mundial, correndo descalço. Isso seria impensável num universo olímpico que, hoje, é marcado por altos investimentos em tecnologia – como a dos chamados supermaiôs usados nas provas de natação, a utilização de substâncias químicas com o intuito de melhorar o rendimento físico, bem como o investimento em pesquisa e desenvolvimento de novos materiais para a fabricação de equipamentos esportivos – e a presença maciça de atletas profissionais de alta performance, que em nada lembram a valorização do amadorismo que norteou a criação dos Jogos Olímpicos no final do século XIX.

“A publicidade de produtos, o patrocínio dos esportistas que atuam como autênticos agentes das empresas que representam, os contratos comerciais que realizam as federações nacionais e internacionais com as mais variadas empresas, o crescimento espetacular da indústria de equipamentos esportivos. Tudo isso faz o movimento olímpico cada dia mais dependente dos interesses do grande capital. Nesse sentido, o olimpismo tem se convertido não só em um instrumento da política internacional, senão também em um instrumento dos grandes interesses comerciais”, escreve Proni, num artigo no qual, além de enfatizar a comercialização dos Jogos Olímpicos e a profissionalização dos atletas, menciona a relação entre as Olimpíadas e a geopolítica, que sempre desafiaram o desejo de que os jogos formassem um terreno de neutralidade política.

Esporte e geopolítica

Ao longo do século XX, muitas rivalidades nacionais foram transferidas para os jogos esportivos. Algumas Olimpíadas tornaram-se notórias por conta disso. Os Jogos Olímpicos de Berlim, de 1936, foram utilizados como propaganda do regime nazista. Com tal intuito, construiu-se o mais moderno complexo esportivo da época – o Estádio Olímpico de Berlim –, com capacidade para abrigar até 100 mil pessoas. Nele, o atleta afro-americano Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro no atletismo, desafiando o racismo e a propaganda nazista.

A Guerra Fria e a competição entre os Estados Unidos e a União Soviética, por sua vez, marcaram por um bom tempo a história política das Olimpíadas, a partir da entrada da União Soviética nos jogos de Helsinki, de 1952.

Um dos eventos que se destacaram nesse embate foram as Olimpíadas de Moscou, de 1980, que sofreram um grande boicote, liderado pelos Estados Unidos, ao qual 65 países aderiram. O governo norte-americano justificou o movimento por conta da invasão soviética ao Afeganistão, no ano anterior. Alguns governos como o da Inglaterra e da Austrália apoiaram o boicote, mas liberaram seus atletas para irem a Moscou por conta própria. A grande maioria, no entanto, seguiu o exemplo dos EUA e não enviou atletas aos Jogos Olímpicos de 1980.

As Olimpíadas de Munique, de 1972, também costumam ser lembradas tendo em vista o trágico atentado cometido contra a delegação de atletas israelenses, dos quais 11 foram sequestrados e mortos por um grupo terrorista. O diretor Steven Spielberg conta essa história no filme Munique, lançado em 2005.

Outra política

Outros embates, para além do geopolítico, têm marcado os grandes eventos esportivos. Mas essa parte da história não tem a mesma visibilidade que a das disputas entre países e nações. Trata-se dos conflitos envolvendo os governos e suas próprias populações, quando é o caso de se “preparar” um país ou cidade para sediar um megaevento.

Mike Davis, teórico, urbanista e ativista político, em seu livro Planeta Favela (2006), conta algumas dessas histórias esquecidas que falam sobre o tratamento dado aos pobres dos países do Terceiro Mundo, quando se trata de receber um megaevento internacional: histórias de violência, remoções forçadas, despejos, bairros inteiros arrasados e demolidos em nome de uma cidade mais “bonita” e “limpa”.

Davis lembra que, durante os preparativos para os Jogos Olímpicos de 1936, os nazistas expulsaram impiedosamente os sem-teto e favelados de áreas de Berlim que pudessem ser avistadas pelos visitantes internacionais. E continua: “Embora os jogos subsequentes, inclusive os da Cidade do México, Atenas e Barcelona tenham sido acompanhados por renovação urbana e despejos, os jogos de Seul, em 1988, foram realmente sem precedentes na escala da perseguição oficial aos pobres, quer fossem donos de sua própria casa, invasores ou locatários: cerca de 720 mil pessoas foram removidas em Seul e Incheon, levando uma ONG católica a afirmar que a Coreia do Sul rivalizava com a África do Sul como ‘o país no qual o despejo à força é mais violento e desumano’”.

#copaparaquem?

O Brasil, infelizmente, passa também a fazer parte dessa história. Pelo menos desde 2012, uma série de violações de direitos praticada no âmbito dos preparativos para a Copa da Fifa vêm sendo denunciadas e tornadas públicas por movimentos sociais e organizações não governamentais. A Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas – que nasceu de mobilizações nas cidades-sede da Copa, por iniciativa de movimentos sociais organizados, universidades e entidades da sociedade civil – vem divulgando, através de dossiês, um amplo e violento cenário de violações de direitos que têm passado ao largo da grande mídia: remoções e despejos, precarização do trabalho nas obras dos estádios, utilização de recursos públicos para atender interesses privados, mercantilização e elitização da cidade.

O documentário A caminho da copa também denuncia violações relacionadas ao direito à moradia, e traz ainda depoimentos de especialistas na questão urbana – como Raquel Rolnik e Carlos Vainer – que denunciam os impactos dos megaeventos esportivos.

Grandes eventos são uma das novas formas do capital

A prevalência dos interesses comerciais, das grandes corporações e a recorrente violações de direitos nos países e cidades que sediam megaeventos esportivos devem ser pensados a partir de uma dinâmica política mais ampla. “A Fifa e o Comitê Olímpico Internacional atuam como grandes ONGs capitalistas. Mas não vão aos países para ajudar ou distribuir esmolas, e sim para buscar lucros”, declarou Antônio Negri, filósofo italiano, que visitou o Brasil na véspera da Copa do Mundo. Para Negri, a política dos grandes eventos esportivos é uma das faces de uma nova configuração do capitalismo globalizado. “Quando se fala de Fifa ou do COI, fala-se de plataformas de agenciamento de capitais financeiros em nível mundial, que atravessam as bolsas dos países com um alvo, que neste caso é o Brasil”, afirmou o filósofo em entrevista recente.