Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Carolina Cantarino
7/5/14

Não é por 20 centavos. É por direitos! Esse foi o mote inicial dos protestos que tomaram as ruas e as redes sociais no Brasil em junho de 2013. Estampada em cartazes nas manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus em várias cidades brasileiras, a frase reivindicava também o direito de circular pela cidade. Ao fazer balanços sobre os protestos, ainda no calor da hora, pesquisadores da questão urbana afirmaram, na coletânea Cidades Rebeldes – Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Editora Boitempo e Carta Maior, 2013), que não se pode dissociar os protestos das condições das cidades, marcadas por problemas cada vez mais intensos, sendo um deles a questão da mobilidade urbana. “É com a condição dos transportes que as cidades acabam cobrando a maior dose de sacrifícios por parte de seus moradores. E, embora a piora na mobilidade seja geral – isto é, atinge a todos –, é das camadas de renda mais baixas que ela vai cobrar o maior preço em imobilidade.” Essa é a perspectiva de Ermínia Maricato, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), em seu texto publicado na coletânea. Segundo esta pesquisadora, é importante levar em conta a realidade das cidades brasileiras para se pensar os protestos, realidade esta marcada cada vez mais intensamente pela especulação imobiliária e o acesso desigual a políticas públicas urbanas como transporte, moradia, saneamento básico, educação, saúde, lazer, iluminação pública, coleta de lixo, segurança.

Dando um rolê

Na virada de 2013 para 2014, em vez das ruas, outro espaço público foi ocupado de maneira surpreendente, em várias cidades brasileiras: shoppings centers foram tomados pelos “rolezinhos”, encontros promovidos por jovens da periferia e marcados por meio das redes sociais, como o Facebook. Foram rolezinhos que deram a ver que a reivindicação pelo direito de circular pela cidade é ainda mais ampla, fazendo com que a questão da “mobilidade” ganhe tons mais complexos e desafiadores.

Eles mexeram intensamente com uma percepção longa e violentamente estabelecida através de séculos de colonialismo, escravidão e desigualdade, no Brasil, e que define lugares determinados, os sujeitos que devem ocupá-los e as funções e capacidades que lhe são atribuíveis. Essa “bagunça na percepção” provocada pelos rolezinhos foi diagnosticada por Cleber Lambert, filósofo e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Em que consistiria essa alteração de percepção? Seria “natural”, por exemplo, que os jovens pobres da periferia chegassem aos shoppings centers para assumir postos de trabalho nas lojas, no almoxarifado ou na própria segurança. Mas não para consumirem nas lojas e circularem pelas praças de alimentação. Com os rolezinhos, os jovens da periferia ousam, segundo Lambert, romper uma ordem predefinida e ostentar-se num lugar onde eles não podiam ser percebidos.

“O ato de ir ao shopping é um ato político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia”.

Tal afirmação foi feita por Rosana Pinheiro-Machado, professora de Antropologia do Desenvolvimento da Universidade de Oxford, numa pesquisa que ganhou repercussão na mídia e nas redes sociais. Segundo a antropóloga – que já em 2009 pesquisava os chamados “bondes de marca” da periferia de Porto Alegre, e sua ida aos shoppings da cidade – o “rolezinho” pode ser inserido num fenômeno mundial de adoração de marcas e shoppings por parte dos jovens das periferias.Se tal apropriação de marcas passa pelo prazer de se vestir bem, circular pelo shopping e, finalmente, tornar-se visível numa cidade que nega visibilidade aos jovens da periferia, por outro lado, conforme Pinheiro-Machado, essa visibilidade estaria sendo reivindicada junto ao “centro”, ao símbolo hegemônico do capital e do consumo: o shopping center.

Outras periferias

Diferentemente da dinâmica dos rolezinhos, sua apropriação das marcas e do consumo e sua relação com o “centro”, há outras manifestações culturais associadas à periferia, que estão sendo produzidas na periferia e para a periferia, cuja novidade é não precisar mais passar pelo centro. A profusão de ritmos e gêneros musicais das periferias brasileiras, por exemplo, intensamente conectadas com o mundo, vem gerando uma nova economia e indústria do entretenimento que não depende mais nem das gravadoras nem dos grandes meios de comunicação para fazer sua divulgação, desenvolvendo seus próprios modelos de negócios sem precisar da indústria fonográfica. São novas formas de produção, distribuição e circulação que não precisam mais do “centro”.  

São os casos do funk ostentação de São Paulo, do hip hop, do funk carioca, do arrocha baiano, do tecnobrega do Pará, cujo modelo de negócios mereceu uma detalhada pesquisa apresentada no livro Tecnobrega – O Pará Reinventado o Negócio da Música (Editoria Aeroplano, 2008), organizado por Ronaldo Lemos, professor da Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Segundo Lemos, as periferias vêm se apropriando das novas tecnologias digitais para produzir sua própria cultura e novas formas de economia da cultura. Para ele, esse é o fenômeno social mais significativo desse começo de século, com importantes consequências jurídicas, políticas e econômicas.

Novos circuitos

Fenômeno social que não se restringe à música. Iniciativas ligadas à comunicação e à moda também fazem parte da movimentação artística e cultural das periferias. O Periferia em Movimento é um coletivo de comunicação formado por jornalistas que nasceram e cresceram em bairros da zona sul de São Paulo. Seu intuito é o de produzir informação “sobre, para e a partir das periferias”. Já o Abayomi Ateliê é um espaço cultural criado em Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo, voltado para atividades de produção e customização de roupas, acessórios, artesanato e grafite. A história da formação desse coletivo de artistas da periferia foi contada num episódio da série Reis da Rua, que busca documentar pessoas que são reconhecidas, por seu talento, em seus bairros ou comunidades da periferia de São Paulo, mas que passam despercebidos para a grande mídia: cantores, artistas, líderes comunitários, pequenos empresários, religiosos, músicos, atores, esportistas…

A arte da periferia precisa de reconhecimento?

Mundos culturais criados a partir da periferia e também relacionados às artes plásticas. A edição 2014 da SP Arte, principal feira comercial de arte da América Latina, que aconteceu em abril no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, contou com um estande concebido por Alexandre Órion, artista multimídia cujos trabalhos se voltam para a cultura urbana – com intervenções na cidade – e o universo do grafite e da pichação. Órion apresentou Lampoonist, uma série de obras luminosas que misturam a publicidade à estética do grafite e da pichação. “A gente está dentro do prédio da Bienal, um dos espaços mais importantes para o que aconteceu com a pichação nos últimos anos. Foi esse espaço que os caras invadiram na Bienal do Vazio e foi esse espaço que também os convidou depois para participar. O que está escrito aqui [na obra Lampoonist] é ‘Violento Fora, Dentro Decora’, e é uma provocação sobre a linha tênue que separa o marginal do institucional”, contou o artista, numa entrevista concedida no início de abril.

Órion retoma, assim, uma polêmica a respeito do grafite e da pichação, manifestações associadas à cultura periférica de São Paulo e outras metrópoles do país e mesmo do mundo: a aproximação do circuito institucional das artes (as galerias, os museus, as feiras de arte) em relação a essas manifestações. Para uns, tal aproximação implica uma cooptação desses movimentos culturais transgressivos. Para outros, seria uma forma de reconhecimento da sua qualidade. Outros ainda questionam: até que ponto o grafite e a pichação precisam do reconhecimento do circuito artístico? Entre polêmicas, pluralidade de manifestações e movimentações, o que se pode observar é que as periferias vêm enfrentando, através da criação, o desafio da mobilidade e da circulação na cidade. São manifestações e movimentações que evidenciam o quanto a periferia não é um lugar homogêneo e sim um espaço marcado por uma heterogeneidade de modos de vida e de pensamento. A partir dela, muitas vezes, o centro é que se torna periferia.